lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade.

*A dor é minha, em mim doeu

Eu sofro, tu sofres, ele sofre. Existem verbos que só podem ser conjugados no singular.


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A maioria de nós já passou por isso ou (pior) já praticou essa ação torta: comparar dores. E não tem nada mais mesquinho, mais egocêntrico do que imaginar que seu sofrimento pode exprimir o sofrimento de alguém.

Você está ali, arrasado, querendo colo porque perdeu o emprego, seu cachorrinho morreu ou seu namorado te deixou. E seu “amigo” quer te convencer que a história dele é mais triste ou que a sua é banal. Que sofrimento mesmo é ter ficado órfão aos 10 anos, é ter uma doença grave, é ser despejado. O que você sente? Ah, isso é bobagem. Já já passa. E o que deveria ser um conforto, um ombro, vira uma competição de quem é o mais ferrado.

Não acredito na solidariedade de frases como “eu sei exatamente o que você está sentindo porque comigo já aconteceu igual”, não apenas porque elas guardam uma mentira por si só (nunca uma experiência traumática ou jubilosa será igual a de ninguém), mas também porque, na maioria das vezes, é apenas a deixa para arrastar o foco da conversa para o próprio umbigo, esquecendo que tem uma alma ali precisando ser resgatada.

Quando o pássaro ferido for o outro, ele é o protagonista. Deixe o palco livre e coloque de lado suas próprias tragédias. Pode ter certeza: as analogias não ajudam em nada ou até pioram: imaginem lembrar seu interlocutor, que se derrete em lágrimas porque não conseguiu viabilizar uma viagem de férias, que o que dói mesmo é ser um refugiado curdo na Síria depois da ofensiva militar dos turcos. Isso só o convencerá de que, além de azarado, ele é um ser humano sem consciência.

Ao invés disso, abra seu coração e ouvidos e apenas escute. Nem que o que ele tenha para dizer sejam lágrimas e silêncio. Abrace, se o abraço for bem-vindo. E não esqueça que a balança da dor sempre penderá para o lado de quem a sente. E a nossa régua nunca servirá para medir a angústia de ninguém.

*Saudade fez um samba (Carlinhos Lyra e Ronaldo Bôscoli)


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade..
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