lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/

A difícil arte de interpretar o outro

Não tente. A chance de errar é imensa.


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Sim, a intuição é um sentido que nos dá pistas fortes de uma realidade que não está muito clara. O problema é que poucos de nós, os não-treinados na arte de intuir, sabem separar o que é intuição do que é medo, desejo ou vontade. O “estou com um pressentimento de que vai acontecer algo de errado essa noite e, por isso, não vou sair de casa” pode ser só uma preguiça tentando ser justificada.

Mas é quando tentamos usar a tal intuição para adivinhar o outro, que a coisa desanda de vez. Porque o leque de possibilidades atrás de uma frase em reticências, de uma meia-palavra e de um olha enigmático pode sim ser o que você acha que é. E mais 23.548 coisas, incluindo o que a pessoa diz ser. Por isso, na dúvida, não tente. Você pode se frustrar, criar uma tempestade num copo d’água ou inventar um conceito errado. Ou tudo isso junto.

Lembro de um amigo me contar, desolado, que tinha tomado coragem (e dois uísques) e se declarado para uma colega de turma em uma festa. Ela não respondeu nada, fez uma cara engraçada e saiu de perto apressadamente, pedindo que a esperasse ali. Mas ele a diagnosticou negativamente e foi embora constrangido. A musa, no caso, estava mesmo com uma cólica menstrual daquelas que só quem teve sabe que se a tecla morrer estiver ao alcance das mãos será apertada. Gostava dele há mais de um ano e esperou tanto por aquela declaração que, quando aconteceu, ficou tão nervosa que precisou vomitar.

Mas a tendência é essa mesmo: pensar o pior. É como um mecanismo de defesa acionado automaticamente, preparando nossos sentidos para a frustração iminente. Sofrer querendo descobrir o que passa em uma cabeça que não é a nossa é um exercício inútil, que demanda tempo e energia. Mas, o que fazer então?

Acreditar sem tentar espiar por detrás. Você pode ser enganado? Pode, claro que pode. Mas é o que se tem de concreto. A única maneira de acessar a caixa preta, que é o pensamento alheio, é confiando no que ele diz. Porque o compromisso com o fato é de quem o profere. O papel do interlocutor é ouvir e traçar teorias em cima do que é dito e não do que é calado. Quando não há questionamentos ou santas inquisições, ao contrário do que possa parecer, a responsabilidade do outro em ser correto dobra. Porque ele ganha o compromisso de preservar sua confiança, sob o risco de perdê-la, em um deslize, para sempre. Vira brincadeira de gente grande, cuja regra solitária é a verdade.

E a verdade é uma sementinha que gosta de ver o sol. Ela sempre encontra um caminho para surgir.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/ .
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