lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/

A miopia do amor à primeira vista

A única coisa que acontece à primeira vista é a certeza de que aquele não é o seu número.


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Não. Ninguém ama à primeira vista. À primeira vista você repara nos sapatos, no sorriso, na bunda. Nota se a pessoa come de boca aberta, se palita os dentes e se chama o garçom por psiu. À primeira vista nos damos conta se na playlist tem Simone & Simaria, se ocorrem erros na conjugação de verbos fáceis, se ali temos um motorista que dirige pelo acostamento. Talvez seja possível odiar à primeira vista.

Amar exige conhecimento de causa. Ler nas entrelinhas as miudezas que provocam admiração.

É só com um mínimo de convivência que a gente descobre se ama. Notamos identificações e detectamos pequenos gestos de gentileza, só evidentes quando o outro não sabe que está sendo observado. Quando baixa a guarda, o personagem sai de cena e o ator mostra quem é.

Vamos percebendo amor quando passamos um dia juntos e a pessoa nos ouve quase sem respirar. Ri das mesmas piadas tontas, que nos fazem rir também. Usa o guarda-chuva arqueado em nossa direção. Prefere ir a pé para ficar mais tempo junto. E aí sim, quando cai a ficha de que você faria o mesmo, é porque, olhando no fundo da trilha, o amor está se avizinhando.

Não é possível amar à primeira vista porque à primeira vista não dá para saber se vão encaixar dormindo de conchinha. Se o outro gosta de comida agridoce ou se você seria capaz de trocar uma viagem exótica para o Marrocos para passar o réveillon em uma praia lotada do litoral paulistano só para abusar da pieguice e pular sete ondas de mãos dadas.

Difícil amar à primeira vista porque é preciso de tempo para correr uma meia maratona, nem que seja para carregar o desfibrilador para o parceiro. É necessário passar pelo menos um inverno para dividir a manta pequena no sofá desconfortável e entender que a prioridade não é mais o seu frio.

É quando a gente já coleciona o gestual do outro de memória, passa a falar em linguagem tatibitate e abre primeiro a mensagem da pessoa, em detrimento do WhatsApp do chefe e até da mãe, que você entende que o amor, bem nascido como é, não faz como os parentes do interior, que chegam e depois avisam. Ele espera você olhá-lo nos olhos e reconhecê-lo para depois se instalar, mas como se a casa sempre tivesse sido dele.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/ .
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