lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/

Amor: recalculando

O que era o melhor caminho às vezes exige mudança de rota e muito fôlego para não deixar a felicidade desistir da carona no meio da estrada.


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Juramos no altar, olhando nos olhos. Comprometemos nossa palavra de mãos dadas, em uma praia paradisíaca ou numa noite de chuva torrencial. Dentro do cinema. Na cama. E afiançamos o amor eterno porque, naquele momento, ele é forte o bastante para ser eterno. É a nossa verdade. Mas esquecemos que, mesmo as verdades absolutas, podem ser transitórias. E, às vezes, elas sabotam o amor.

Aceitamos como evolução a mudança de emprego, de casa, de faculdade, mesmo faltando um semestre para concluir o curso. Variamos o corte e a cor dos cabelos durante toda a vida. Temos ímpeto de rasgar os livros de história depois de entender que os mapas portugueses estavam bem atualizados em 1500 e indicavam claramente terras a oeste e que Colombo, por sua vez, também não colonizou nada porque tribos nômades chegaram bem antes.

As voltas atrás são aceitas em quase todas as áreas. Mas quando a vontade de romper paradigmas bate à porta dos relacionamentos amorosos formais, a condescendência não é a mesma. Porque era para durar para sempre. Era o combinado. E não importa se você já não é mais a mesma pessoa que, lá atrás, acreditou ser infindável. Não importa se, na época do “sim” era sedentário e hoje corre maratonas. A platéia não aceita. Talvez nem você mesmo aceite porque parece contravenção. E, pensando bem, é. Afinal, sua palavra de honra foi empenhada. E tem outra pessoa ali, que não está acompanhando a mudança de rota.

Mas em algumas situações a contravenção é o único caminho quando o amor, sem cerimônia, faz as malas e vai embora. Você o olha partir imaginando por onde começar a desorganizar a arrumação. Tudo ali foi pensado para ficar estanque. Móveis, utensílios estão fixos nas bases para suportar terremotos, indicativo de que a quebradeira vai ser geral. E todo mundo querendo um “porque” convincente para tamanha insensatez quando, na verdade, a insensatez é não aceitar que o “para sempre” pode ter prazo de validade.

Dá um trabalho enorme ser vilão nesse conto de fadas. Tanto que muitos desistem e esperam a vontade de seguir adiante passar, como uma virose rara. E se mantêm patrimônio de outros que não mais lhes representam. Trancam sonhos na gaveta emperrada, com a certeza de que nunca mais sairão dali. E a vida desbota aos poucos. E também aos poucos se vai parando de querer mudanças. Conserva-se o cardápio de domingo, a decoração da sala e o mesmo terno – igualmente desbotado – para todas as festas da família.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/ .
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