lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/

Família de comercial de margarina? Na minha o pão caiu com a manteiga para baixo

Se tem uma coisa que não tem receita é família. Mas aprender que a sua pode ser perfeita mesmo com todas as imperfeições ajuda a deixar a vida mais leve.


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Confesso que era um pouco frustrante. Na casa de uma das minhas melhores amigas de infância, o ritmo parecia mesmo seguir o dos comercias de margarina: mesa organizada com alimentos saudáveis, filhos comportados fazendo o desjejum. A mãe, dona de casa, placidamente atendendo a todos com um sorriso irretocável, penteado e roupa impecáveis, como se tivesse dormido em pé no armário. O pai, mais sério e engravatado, mas não menos cortês, folheava o jornal tranquilamente. Um cachorro pequinês muito educado ajudava a compor a cena.

Voltava meio zangada. A disparidade era notória. É verdade que sempre acordava com o aroma do café coado na hora, tarefa que meu avô cumpria com maestria. Mas, a partir daí, era o caos. Meu irmão acordava, não dava bom dia para ninguém, engolia um leite em pé mesmo e sumia para o colégio, antes mesmo de eu conseguir me livrar do pijama. E era assim: meio vestida para dormir e meio com a camiseta do uniforme que começavam as primeiras batalhas do meu dia e o ringue era justamente a mesa de café da manhã.

Ali nunca havia tantos alimentos saudáveis e eu era parte importante disso: não comia. Algum médico tinha convencido minha mãe que era melhor me empurrar “qualquer coisa” para que eu não desmaiasse na escola. Então, no nosso breakfast, não raro, tínhamos confeitos de chocolate, batata frita de pacote e sorvete, além da minha mãe trajando um robe, com bobs emoldurando sua melhor expressão de poucos amigos, enquanto dizia meiguices, como: “ou come essa porcaria ou vou quebrar seus dentes e aí você não vai comer mais nada mesmo”. Ela jura que não se lembra, mas a paciência dela com criança chata era bem limitada.

Meu pai nunca estava no desjejum porque chegava tarde do trabalho. Era técnico cinematográfico, profissão que eu repetia sem entender direito o que significava, apenas que deveria ser um sinônimo para “aquele que nunca está”. Mas meu avô assumia a cabeceira, sempre blasfemando contra os políticos, enquanto acompanhava as notícias matinais na TV. Minha avó reclamava. Sim, neste caso o verbo era intransitivo. Porque nem ela sabia do que reclamava. Mas reclamava. Ela fazia as vezes de dona de casa, enquanto minha mãe trabalhava fora, o que era moderno demais para o meu gosto na década de 70. Em meio a isso tudo, o leite invariavelmente fervia e derramava, provocando uma sequência de palavrões em espanhol. Enquanto todos se viravam para socorrer o fogão, eu dava a torrada com queijo para o Chuchu. O Chuchu estava bem fora do estereótipo de cachorro de comercial: uma mescla de várias raças que o tornava ligeiramente engraçado.

Nos finais de semana, eu e meu irmão nos digladiávamos pelo caderno infantil, sendo que eu sempre ganhava por ser a caçula e protegida do meu pai: além do jornal, eu conquistava a mais autêntica expressão de amor fraternal: “por que ela quer isso? É analfabeta, só vai ver os desenhos.”

Faz pouco tempo reencontrei minha amiguinha de infância, a dos cafés da manhã perfeitos, no Metrô. Não nos víamos há anos. Soube que os pais se separaram quando ela era adolescente e a mãe descobriu que o marido mantinha uma amante num endereço de luxo da cidade. Ela e os irmãos não se falam depois que se desentenderam por uma herança deixada por uma tia portuguesa. A mãe seguiu um grupo do Santo Daime e hoje vive na Amazônia.

Meus pais continuam tendo lá as maluquices deles, mas riem a maior parte do tempo, inclusive um da cara do outro. Minha mãe não virou um poço de compreensão, mas eu também passei a comer direito há uns 30 anos. Eu meu irmão descobrimos que é super legal isso de irmão quando a gente tem o mesmo humor negro. Juntando as pessoas que chegaram na família depois, fazemos festas memoráveis e curtimos, de verdade, a companhia uns dos outros.

Demorou um pouco, mas aprendi que nem toda família precisa começar dentro dos moldes para dar certo e, mesmo aquelas que têm tudo para dar errado, podem dar uma rasteira no destino e acertar o passo.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/ .
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