lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/

Levanta-te e anda

O uso excessivo de "muletas morais" pode acabar nos aleijando. Por isso sempre é tempo de perguntar: já não dá para andar com as próprias pernas?


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O publicitário Washington Olivetto, logo após ter sido resgatado de seu cativeiro, depois de 52 dias sequestrado, em 2002, disse aos jornalistas uma frase que nunca esqueci: “fui vítima, não sou mais”. A tirada supostamente visava aquietar aqueles que queriam fazer da passagem uma novela mexicana, uma vez que ali estavam todos os elementos para isso: quadrilha internacional, um empresário conhecido, um cativeiro, a cadeia de coincidências que fizeram com que ele fosse encontrado. Podia sim ser uma jogada de marketing de um mestre no assunto. Mas, exceto pela menção obrigatória à passagem em seu recém-lançado livro (Direto de Washington, editora Sextante), Olivetto evitou falar publicamente do sequestro por todos esses anos. Ele tinha sido vítima. Não era mais.

Todos temos motivos para nos vitimizarmos em maior ou menor escala. Sempre haverá uma razão para justificar nossas fraquezas, nossas inoperâncias, nossos erros. A culpa nunca será totalmente nossa. O cabide da autocompaixão está ali para nos pendurarmos. Se você ficou órfão aos 10 anos, descobriu ser adotado aos 20, teve câncer, perdeu um filho, o marido, o irmão. Perdeu emprego. Passou fome. Conviveu com guerra. Foi injustiçado. Violentado. Abandonado. Ficou sem casa.

A lista de situações agudas passíveis de acontecer com humanos é extensa. E a dor e o trauma marcam cada um de uma maneira. Nunca nos caberá julgar a sequela que acontecimentos indesejáveis deixam na vida do outro. Porque existem feridas que ficarão para sempre expostas, há aquelas que deixarão somente cicatrizes e outras que servirão de muleta.

Levar uma vida manca, apoiada nas muletas da pena de si próprio, tem, infelizmente, caráter epidêmico. Pode parecer cruel afirmar, mas há um certo conforto em passar a vida justificando a comportamento letárgico com tragédias pessoais. Gera dó. Olhares de piedade.

E tem muita gente que se alimenta da compaixão alheia. Pessoas que chafurdam na lama ácida da autocomiseração, se negando a levantar a cabeça para experimentar que a vida é aquilo que acontece à frente e nunca pelo espelho retrovisor. É seguindo, com todos os nossos “apesar de”, que temos a chance de escrever novos capítulos, aqueles com mais possibilidades, apurando os ouvidos para escutar a música que nos convida para dançar e lembrando que muletas só vão atrapalhar os passos desse balé.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/ .
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