lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/

Não vire a página. Insista até entender a lição

A vida não é uma daquelas revistas cheias de fotos que a gente pode folhear sem precisar entender muito bem o contexto


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Eu não gosto de conselhos pasteurizados. Desses prontinhos, que todo mundo repete sem pensar na tremenda bobagem que está falando. A pessoa acabou de ser expulsa de um casamento, foi demitida ou descobriu que seu melhor amigo – que, portanto, nem era tão amigo assim – colocou sua foto bêbada na rede social e vem algum pagão dizer: “esquece isso, vira a página”.

Perfeito. Como não pensei nisso antes? Só um minuto que vou ali lavar o rosto, fazer uma lobotomia e zerar o cronômetro. Assim fico apto para ouvir os seus problemas, aqueles que realmente importam.

Tem uma coisa que se ninguém reparou até agora, deveria reparar: a vida te cobra aprendizagem. E cobra mesmo, como aquela professora de matemática particular, que sua mãe contratou a peso de ouro. Enquanto não se aprende, a lição será repetida. Mudam os cenários, mudam os personagens, mas a matéria é igual.

Sabe o amigo super legal que te causa pena porque não para em emprego nenhum? Tão inteligente, tão capaz e afirma que existe uma teoria da conspiração contra ele. Mas um dia você é o colega da mesa ao lado e descobre que truculência é seu sobrenome. E o fulano vai virando as páginas da Carteira de Trabalho, sem humildade para aceitar que a única teoria da conspiração é sua sabotagem.

Em relacionamentos não é muito diferente. Lembro de uma amiga que me ligou tarde da noite, desesperada porque o namorado tinha, “de repente”, resolvido sair de casa. Ela repetia não entender o que tinha feito de errado. Respondi que talvez tivesse uma pista: “quem sabe não gostava muito quando sugeria, em reuniões sociais, que ele era ruim de cama? Ou ficasse um pouco constrangido ao ouvir que a casa era sua e mantê-lo ali era um favor? Ou talvez tenha se aborrecido com coisinhas miúdas, como quando você se negou a viajar para o aniversário de 80 anos da mãe dele. É só um palpite.”

Chorou e se descabelou uma semana. Na seguinte afirmou que tinha virado a tal página e já estava de namorado novo. Logo moravam juntos. E logo estava falando mal do companheiro para quem quisesse ouvir, criticando cada passo que o infeliz dava. E também logo tomou outro passa fora, bem parecido com o anterior.

Sim, ela tinha virado a página. Para trás.

Seja em que situação for, é sempre bom reler o capítulo. Revisitar alegrias e tristezas, tentando tirar a maldita lente cor de rosa que, em tempos de ruptura, teima em filtrar momentos ruins e nos entrega somente boas lembranças. Chorar todas as lágrimas, entender a culpa que nos cabe nesse latifúndio e dar aquele pulinho no fundo do poço. Porque dali tiramos o impulso para emergir. E ao voltar à superfície você já não será mais o mesmo. E aí sim é hora de virar a página para escrever uma outra história, com mais chances de ter um final feliz.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/ .
Saiba como escrever na obvious.
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