lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/

A arte de meditar. #sóquenão

Sempre digo: meditar é uma alternativa viável para redimensionar os problemas e encarar a vida de maneira mais leve. Mas só acho. Porque ainda não consigo. Um breve relato sobre minha quase primeira experiência com meditação.


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Hoje todo mundo medita. Antigamente era comum encontrarmos seres meditativos apenas em festas naturebas. Entre um brinde e outro com suco de capim santo, alguém contava sobre a experiência da meditação com riqueza de detalhes, explicando sobre como essa conexão transformou sua vida, fazendo você se sentir meio culpado e a anos luz de distância da pacha mama.

Mas a prática transcendeu os limites esotéricos e se alojou entre nós, os bebedores convictos de vinho e cerveja, irrequietas criaturas que comem carne, falam palavrão e fecham os outros no trânsito. Gente aparentemente sem a mínima vocação para encontrar o eu interior.

E o cardápio de quem chega a esse estado de nirvana me mata de inveja: menos ansiedade, menos expectativas, mais compreensão e visão do todo: algo que te torna assim, parecido com um monge tibetano.

Acho mesmo que acalmar a mente é um dos caminhos para a qualidade de vida. Por isso, há alguns anos, antes da coisa de meditar se tornar cool, fui atrás de um cursinho de meditação, desses feitos em um endereço da Vila Madalena, bairro hippie chique de São Paulo. Chamei a atenção ao chegar atrasada, com um monte de sacolas, resultado de uma passadinha anterior no shopping.

Senti um pouco de constrangimento ao sentar no chão de scarpin e jeans em meio a um grupo onde predominavam batas indianas e calças de linho cru. Mas tentei entrar no clima, ouvindo o barulhinho de cachoeira e o canto dos pássaros que saíam das caixinhas de som da sala.

Já com as luzes apagadas, o mestre meditador (sei lá Deus como se chama isso) disse a frase mágica:

- “Esvaziem suas mentes.”

Ferrou. Meus pensamentos iam da coxinha com catupiry, que tinha deixado de comer no shopping, aos trabalhos pendentes no computador, passando pela lista do supermercado e o axé que estava bombando nas rádios.

- “Concentrem-se. Deixem os pensamentos passarem.”

Ai que fome, por que não comi a coxinha, eu pagaria 200 abdominais na segunda-feira; caraca, tenho que marcar a reunião com o cliente; esqueci de pagar a conta do celular; sei fazer a coreografia inteira da música do Terra Samba; vai dar sol no fim de semana? Essa calça tá apertada, devo ter engordado; será que posso tirar os sapatos? Quem será aquela mulher peituda da direita? Parece artista; fevereiro, este ano, tem 28 ou 29 dias? “(...) Curtir o Terra Samba não é nada mal...que legal (...)"; o aniversário do Chico Buarque é junho ou julho? Nossa, preciso ligar para minha madrinha. Ou ela morreu?

Pensava tanta coisa que tinha a impressão que meus pensamentos estavam desconcentrando os outros.

E talvez estivessem mesmo porque o mestre meditador se aproximou, agachou ao meu lado e perguntou placidamente, como quem fala com uma criança chata, se poderia pegar uma vela para ajudar no meu processo meditatório. Assenti, já pensando se aquilo fazia parte do pacote ou seria cobrado no check-out e de que maneira uma vela me ajudaria no tal esvaziamento da mente. Até que ele voltou com “a vela”.

Gente: era uma vela em formato fálico. Juro: não é possível que o cara não tivesse notado a similaridade. Como eu ia esvaziar minha mente com uma pênis-vela instalado na minha frente? Tentei pensar em coisas tristes: sim, minha madrinha morreu. A fome no mundo. Propaganda dos Médicos sem Fronteiras. E a vela foi acesa, digamos, na “cabecinha” dela.

- “Concentre-se nos movimentos da chama e deixe a mente em repouso...”

Claro, super viável. Já não conseguia me concentrar antes e agora tinha um pau pegando fogo a dez centímetros da minha posição de lótus e eu ia esvaziar a mente. Certeza.

- Moço, não sei se vai dar muito certo isso porque...

Ele me interrompeu com um gesto pedindo silêncio, já com cara de poucos amigos. Achei melhor me calar. Mas cadê que eu olhava para a chama? Pra completar, a parafina derretida foi se acumulando em duas porções na base do treco só para me sacanear. Eu olhava em volta para encontrar algum meditador que se solidarizasse comigo ou uma câmera escondida para comprovar minha suspeita de pegadinha. Mas não. Todo mundo ali parecia já ter encontrado a porta para si mesmo, mesmo sem um falo incandescente para iluminar o caminho.

Aguentei mais alguns instantes. Apaguei a vela (da maneira tradicional, assoprando...), juntei minhas sacolas e fui me concentrar em comer minha coxinha com catupiry. Por uns cinco minutos, com a fome que eu estava, ali sim não pensei em mais nada.

Nota de rodapé: brincadeiras à parte, acho mesmo que meditar é um dos caminhos sérios para levar a vida com mais sabedoria. Continuo tentando.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/ .
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