lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/

Boneco de neve

Vamos começar o ano fazendo faxina? Desgarrando de objetos, sentimentos e pessoas que não combinam mais com o resto de nossas vidas?


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É um boneco inflável gigante, desses made in China, que comprei com a desculpa de alegrar meu sobrinho em um dos primeiros natais de casada, mas que, na real, veio para satisfazer meus anseios infantes tardios. Achava legal ver o monstrengo no terceiro andar, todo iluminado, ocupando quase metade da varanda. Por poucos anos ele foi presença marcante por ali. Porém, ficamos minimalistas com o tempo. Em um determinado 1º de dezembro, do alto da escada e com metade do corpo dentro do maleiro, apalpei a caixa sem muita convicção:

- Baixo o boneco este ano?

Diante da negativa do meu marido, o empurrei para o fundo do armário e ali ficou esquecido até este ano, quando decidimos por uma espécie de faxina natalina. A conclusão de que o boneco iria dançar parecia óbvia. Afinal ele – assim como as bolas vermelhas com laços dourados, os festões e dezenas de pisca-piscas – não era usado há séculos. Porém, nossos apegos passam longe da obviedade. Os festões e as bolas foram para o lixo reciclável, assim como as luzinhas. Mas a caixa com o boneco jaz há mais de uma semana em cima da mesa da sala de jantar. Nenhum dos dois teve coragem de dar-lhe o destino final. E digo que ele corre um sério risco de voltar ao fundo do armário, mesmo que nunca mais o vejamos.

Independente do diagnóstico de doenças sérias, que levam pessoas a praticar a acumulação, a maioria de nós guarda objetos demais. Talvez porque o embrião desse tipo de patologia seja mais comum do que imaginamos. Uma tentativa de fazer o tempo parar travestida de “nossa, está tão novinho e funciona”.

Na verdade, não funciona: quando para de fazer sentido, de trazer alegria não está mais funcionando. Mas é difícil aceitar o transitório quando falamos de coisas, pessoas e sentimentos. Buscamos o definitivo o tempo todo, uma imortalidade que frustra e emperra as novas vivências. Enquanto nos cercamos de tudo que já não nos traduz, criamos uma espécie de forte apache, que nos defende erroneamente de projetos originais.

Histórias devem ocupar o lugar de histórias, contada no tempo passado, sem pesar na fala ou no coração e sem esquecer que, aqui e agora, deveríamos nos ocupar produzindo as lembranças do amanhã. Colecionar materiais com o objetivo de forçar uma memória afetiva pode ser um exercício tosco e sem sentido: só fica preso no coração aquilo que, espontaneamente, se aninhou por ali.

Poderia falar em treinar o desapego, mas acho simplista. É mais amplo: não precisamos desapegar daquilo que faz feliz, seja um livro velho, com novas mensagens ao ser folheado pela milésima vez, ou um LP com capa de arte, que, mesmo arranhado, toca as músicas que a gente ainda quer ouvir, desse jeito: com todas as falhas acústicas. Essas são renúncias desnecessárias porque agregam.

O importante é saber separar o que importa daquilo que só atravanca e tomar cuidado para que os bonecos de neve não congelem nossa capacidade de escrever os próximos contos de Natal.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/ .
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