lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/

Desculpe, mas estou de saída

Não vou por falta de amor, mas por excesso. E evito olhar para trás porque corro o risco de nunca mais querer sair.


woman-1675167__340.jpg Eu sei que parece loucura. Justo agora, que a gente já se reconhece nos detalhes, adivinha a música no segundo acorde do assobio e supõe certeiramente os pensamentos do outro mesmo de olhos fechados, chegou a hora de ir.

Bem nesse momento, quando finalmente aprendemos a encarar só o que faz bem, a valorar o tempo juntos e a multiplicar este tempo na memória para quando a distância chega imperativa. Quando enfim parecia que tínhamos entendido a utilidade de secar lágrimas antes delas caírem, de apertar os dedos no sapato e continuar caminhando lento, retendo a vontade de voar. Pois acho que foi isso: a retenção. Ver nosso espaço cada vez mais restrito, enquanto o amor foi se agigantando, inconformado por já ter nascido com asas cortadas. Um amor que cansou de ter seus direitos cassados, enquanto a lista de tarefas a cumprir só aumentava. Ficou exaurido de se esconder nos bastidores, ciente que tinha tudo para roubar a cena.

Um romance para dar certo e também para dar errado. Mas que ansiava pelo direito de ser colocado à prova na vida real, em meio a boletos de pagamento, rotina e toalhas molhadas jogadas em cima da cama. Tenho comigo que seria aprovado, com louvor, nessas matérias: a gente daria conta dos boletos e descobriria que algumas contas não fazem mesmo sentido. Sairíamos de bom astral para enfrentar a rotina porque, ao final do dia, tudo o que a gente não teria seria rotina. E riríamos muito das toalhas fora do lugar, que comporiam um lindo quadro de uma casa viva, digno de uma ilustração contemporânea de Yehuda Adi Devir.

O som das nossas risadas, aliás, uma trilha sonora recorrente. Mas choraríamos também, é verdade, porém, por motivos distintos daqueles que nos fazem chorar hoje, para a conta sempre fechar com saldo positivo. Mas tudo isso pode ser só um pensamento enviesado de quem quer acreditar que o final feliz seria possível. E se existe um lado bom em ficarmos no meio do caminho é guardar o benefício da dúvida: nunca saberemos onde essa estrada, afinal, nos levaria.

Vou sair meio à francesa, sem grandes alardes, contando com o anonimato porque ninguém me viu mesmo entrar na sua vida. E isso não deixa de ser estranho: construímos uma história sem registros e sem pegadas que apontem a direção a seguir, apoiada na linha fina e frágil de um cordão imaginário, que, mesmo partido, nos unirá para sempre.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/ .
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