Luiza Cano

Única razão:
De poeta e louco todo mundo tem um pouco

Antiga carta sobre as lágrimas de uma família

Olhos alagam dois rostos carregados de ingenuidade, de ignorância perante as tragédias da vida. E se todas aquelas lágrimas chegassem ao chão, a plantação haveria de progredir, o rio de transbordar. Estaria acabada, então, a seca no nordeste.


carta.jpg

Maria,

Sou eu, tua mãe, escrevo essa carta porque a saudade que sinto é um castigo; eu não posso mais seguir assim, minha coluna dói, e o peito sufoca tanto que torna a respiração difícil, tão difícil que outro dia cheguei a pensar que morreria, era depois de meia noite e me levaram correndo ao hospital, chegando lá o médico me mandou fazer uns exames. No final das contas eu não tinha nada, nada para mim, para ele tenho crise de ansiedade e preciso procurar tratamento específico.

Todos os dias arrumo seu quarto, porque encontro coisas fora do lugar, é obra de teu pai, que lá fica trancando uma hora mais ou menos. Quando pergunto, ele diz que está apenas procurando uma desenho que fez quando era pequena, ou ajeitando as roupas de cama, mas o escuto resmungando, e sei que é de choro porque é abafado, e tem um tom de lamento. Quando me atrevo a espiar pela fechadura, ele está sentado no chão, com as mãos entre a cabeça. Por isso prefiro não chorar na frente dele, fico segurando até a hora de fazer café, que é bem cedo, e ele ainda está dormindo. Encosto na pia e olho para tua fotografia de escola que fica na parede da sala.

O que eu acho é que a gente chora demais, se fosse todo dia um pouco, menos mal, mas é bastante, e eu fico pensando como não esgotam as lágrimas, mas esgota a água. Fico pensando ainda, será que as lágrimas do Senhor podem fazer chover aqui? Porque se fizessem e ele conhecesse nossa história, talvez chorasse junto e desse jeito nessa caatinga que eu não aguento mais, Maria, e acho que você não aguentou também. Qualquer um fugiria a fim de encontrar lugar melhor pra viver, mas e as raízes? Não digo raízes de plantas, porque elas dificilmente crescem, mas de nossas raízes culturais que crescem por elas. Sou eu aqui, portanto não poderia ser aí onde está.

Agora que te contei o que queria, vou fazer um pedido: Volta para casa, ou faz ao menos uma visita. Sabe, seu Marcelo, outro dia, riu de mim, pois estava falando com a Dona Rosa sobre você, ele me disse para desistir ou então pedir ao Noel que te trouxesse. Mas eu disse a ele que não, porque teria que descer pela chaminé, não é o que eles dizem? E aqui em casa não tem nada disso! Dessa maneira, eu peço direto pra você, filha. Eu deixo uma cópia de chave embaixo do maior vaso, aquele que tua avó me deu com detalhes de cor azul. Pode chegar a qualquer momento que ela vai estar ali, é a cópia que você mesma deixou.

Deve estar achando estranho sua mãe que mal sabe ler enviando uma carta com palavras assim, tão bonitas, não sou eu, deixa eu te explicar: estão com um projeto aqui na cidade, acho que de Boas Festas, eles escrevem tudo que peço e mandam para onde eu quiser, o que eu mais gosto é que já pedi para a moça escrever muitas palavras, estou falando sem parar, mas ela não reclama nem me manda parar.

Já que não posso chegar até aí, e você nunca chega até mim, mando esta carta. Queria confirmar seu endereço, é aquele que me mandou uma vez? “Rua da Saudade, número 42, Bairro das Lembranças.” Pois outro dia pedi para a Dona Rosa ver o preço da passagem do ônibus que chega aí, mas não encontramos nada, talvez esteja faltando alguma coisa, é casa ou apartamento? Como já estou aqui, é nesse que irei mandar, a moça do projeto disse que eles fazem de tudo para que as cartas cheguem ao destinatário, estou crente que logo logo chega até sua casa.

Não tenho dinheiro agora, todavia, metade de mim é amor, e a outra é cuidado.

Um abraço bem apertado, daqueles que esmagam a tristeza e fazem com que ela escorra por entre os corpos. Uma frase muito bonita, não é verdade? Suspeito que todo ser humano que sofre se torna poeta e que o Senhor não sabe ainda da minha história, porque há tempos não chove,

Lucinha.

(Imagem: Google)


Luiza Cano

Única razão: De poeta e louco todo mundo tem um pouco .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious //Luiza Cano