Luiza Cano

Única razão:
De poeta e louco todo mundo tem um pouco

O dia em que tive um Encontro Marcado com Fernando Sabino

O homem nasce a partir da Literatura, seu primeiro contato com ela o faz existir, possibilitando novos mundos, e com eles, a devastadora perdição do ser


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Eu me dei conta de que a Literatura é o nascimento dos homens como sendo Universos totais.

“Esta é a história de um jovem em desesperada procura de si mesmo e da verdadeira razão de sua vida. Quase absorvido por uma brilhante boêmia intelectual, seu drama interior evolui subterraneamente, pondo a nu os equívocos fundamentais que vinham frustrando sua existência e sufocando sua vocação (...)”

Fernando Sabino, em sua obra “Encontro Marcado” (1956), criou o drama de uma geração, e que ainda perdura, talvez, por ter sido uma composição semi autobiográfica, ou por ter sido uma narrativa repleta de espelhos, na qual o leitor consegue entrever-se a todo o momento. A narrativa conta a história de Eduardo Marciano, ela permeia desde sua infância, passando por suas fases de crescimento, artimanhas e experiências marcantes, como por exemplo, tudo que o levou a ter seu primeiro contato com a Literatura; Até a fase adulta, onde já envolto por esta, perde-se em uma rotina boêmia na cidade do Rio de Janeiro, local de suas maiores peripécias.

A ocorrência é que o drama só é de uma geração se ele diz respeito à ela.

Talvez seja difícil imaginar sozinho, naquela madrugada em que você se joga no sofá para assistir aquele episódio introdutório de qualquer série; ou naquela manhã corrida: academia, louça, comida pronta, essas e outras coisas que são compreensíveis, já que somos todos Eduardos à procura. E, quem sabe um dia, em tempos de encontro.

Espere, respire fundo e não se desespere antes da hora fatal.

O autor não poupou-se ao escrever o Romance, entre relatos cotidianos, aprofundou-se, descortinando as formas, dilacerando o corpo e descobrindo o âmago, mostrou-nos o preço pago por Eduardo Marciano ao deparar-se com a arte da leitura e escrita, que durante todo o Romance procura angustiadamente a si mesmo, mas não se dá conta do maior recôndito: só existiu a partir da Literatura. Ou seja, se nós somos Universos inteiros, a Literatura é o famoso Big Bang, e Fernando Sabino mostrou-nos isso com êxito.

O livro é dividido em duas parte, a primeira: “A procura”; a segunda: “O encontro”. Na primeira, apesar de diversas situações que imploram por reação, Eduardo passa alheio pela vida, cercado de momentos intensos, inclusive o suicídio de seu melhor amigo. Ao sentir-se incomodado como espectador adquire a percepção de que nunca havia tido um encontro consigo mesmo. E é aí que entra o Não-ser: não vivendo a vida integralmente, a existência fenece.

Ainda na primeira parte, Eduardo em uma busca incessante por si e então pelo sentido da vida, depara-se com a Literatura, a leitura e escrita. À vista disso, ao ganhar uma máquina de escrever dá início à sua existência, já que criando contos, criava a si mesmo, e lendo o que quer que fosse chamado de Literário, expandia os limites internos.

Ele não era nulo, era quase isso: um projeto de existência que necessitava de uma única movimentação para iniciar seu nascimento enquanto Ser, bastou uma explosão! Então Eduardo tornou-se Universo, e comparado ao que era quando semente literária, passou a sentir-se enorme, no entanto, insignificante, pelo fato de que tantos outros universos diferentes expandiam-se igualmente, uns maiores, causadores de inveja; outros menores, causadores de piedade. Então, o conflito aumenta à medida que o espaço diminui. O combate inicial é externo.

Na segunda parte: Ao passo que existia, perdia-se.

Eduardo continuou a encher suas estantes, adquirindo bibliografias, a fim de nutrir o vícios de explorar mistérios, criar mundos obscuros, cada um à sua maneira, composto de matérias específicas. Ele descobre esses mundos, e não contente, experimenta-os alvoroçadamente até devastar suas superfícies rúpteis; arrasado por perceber que os objetos mais importantes faziam parte dele, mas não o eram, entra em flagelo sufocante. O combate nesse momento é interno.

Para entender o que supostamente Sabino trouxe nessa obra, é necessário tão somente trazer para o próprio cotidiano. Nossos primeiros contatos profundos com a literatura nos fazem nascer; já não somos dinamites, como Friedrich Nietzsche mesmo dizia ser, explodimos e tornamo-nos parte do cosmos. Não é preciso ser cientista ou teórico para saber: a literatura foi o Big Bang que nos criou. Os livros são mundos plenos. As estrelas, líricas primorosas.

Peço que leia o livro, e desde já escrevo as palavras que Eduardo Marciano deixou de dizer e faço-as minhas e de quem mais ansiar: Que perdoem-nos os já escritores, Universos formados e superlotados de conteúdos poéticos, fundamentações teóricas, conhecimentos científicos, ou dons artísticos; Pecamos no pensamento e na atitude de escrever, carecemos de tudo e mais um pouco daquilo que grandes autores tinham: a aceitação do preço a ser pago pela Literatura; a dor de ver-se intrinsecamente, de não poder ser individual onde há vários de nós que devem ser respeitados como outros, e por isso perceber que estamos e estaremos sozinhos, de nascer para encontrar-se e no segundo seguinte ascender na loucura até perder-se por completo, como Eduardo Marciano, como o próprio Fernando Sabino.

Caso tenha lido, permita-me lhe fazer um adendo, lembro-me que despedia de Sabino quando ele repetiu palavras que tornaram-se conselhos: “Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”


Luiza Cano

Única razão: De poeta e louco todo mundo tem um pouco .
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