literatudo

O sentido literal das subjetividades do mundo.

Stephannie Campos

Escrever é libertar o insólito.

A desvalorização do trabalho do estagiário

Muitos estudantes universitários vêem uma vaga de estágio como uma grande chance de iniciar suas carreiras profissionais, porém, muitos deles passam por experiências negativas em relação à desvalorização do seu serviço prestado e acabam frustrando-se com a expectativa depositada no trabalho. Neste sentido, o estagiário encontra-se desmotivado e tenta com muito esforço superar suas crises, sejam elas do âmbito profissional, financeiro e até mesmo pessoal.


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Cinco e quinze da manhã o celular despertava e eu me levantava para estagiar. Sete e dez era início do horário do expediente. Lá ia eu distribuir as provas aos alunos. Agitados. Sonolentos. Fatigados. A maratona típica de avaliações que esgota qualquer ser em formação humana, os alunos eram uma espécie de máquinas de responder questões para que fossem preparados para uma vida futura recheada de avaliações tais como vestibulares, concursos, exames, e etc. Mas e se quando crescessem alguns dali optassem por não seguir as orientações deste tipo de instrução? Poderiam se tornar alunos de ensino técnico, poderiam trabalhar no negócio do pai ou até mesmo fazer o seu próprio negócio, poderiam ser vendedores, atendentes, operadores de caixa, jardineiros, caminhoneiros, faxineiros, ou qualquer outro tipo de profissional cujo ofício não demandasse tanta avaliação para critério de admissão. Mas a escola acreditava que entupir os alunos de provas era o caminho correto para uma boa formação, sabe como é, escola de elite.

Um pensamento utópico, porém válido. Se eu fosse dona da escola, permitiria somente uma avaliação por semana, ou uma avaliação a cada quinze dias, ou nenhuma. A minha ideia era a de implantar a reflexão e o aprendizado por meio de práticas menos estressantes, não fazendo com que o aluno estudasse um conteúdo por obrigação.

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E o horário de início tinha que ser exatamente as sete e dez. Se eu não começasse neste horário eu recebia olhares de reprovação e pensamentos com críticas negativas da minha superior. Mas eu nunca começava neste horário, sabe por quê? Porque nenhum aluno estava na sala as sete e dez, sim, eles chegavam depois, e eu não podia controlá-los desde a casa deles até a porta da sala de aula. A chefia não entendia, ou fingia que não entendia.

Além da aplicação de provas eu tinha que assistir aulas. Para a corporação, lugar de estagiário é dentro da sala de aula. Até aí não havia problema. O problema começava quando eu procurava o meu posto. O posto da estagiário não existia. Tudo o que eu encontrava eram cadeiras quebradas ou até mesmo nenhuma cadeira, e a partir de então o posto que me restava era o chão. Dias de sorte eram aqueles em que algum aluno faltava e sobrava uma carteira, e então eu fazia dela um posto provisório, momentâneo. Também não posso me esquecer que, algumas vezes, as professoras tinham a gentileza de ceder o espaço delas para eu assistir às aulas, porém elas nem sempre podiam fazer isso por mim porque elas também precisavam do espaço para trabalhar, e eu as entendia, obviamente. Eram nestes raros momentos citados que eu cumpria a minha função com excelência, agindo de acordo com a regra que mencionei a pouco que diz que lugar de estagiário é na sala de aula.

Mas eu também tinha outra função: corrigir tarefas e redações. Eu amava. Texto é comigo mesmo! Adorava corrigir os trabalhos dos alunos, tentava compreender cada ideia, cada palavra, cada frase, cada sentimento expresso naquelas folhas de caderno do Homem Aranha ou da Minnie. O divertimento e o brilho nos olhos eram garantidos ao deparar-me com a criatividade daqueles adolescentes. Desta forma, eu fazia as devidas correções dos textos, com observações quando necessárias ou elogios quando merecidos.

Só para lembrar mais uma vez: lugar de estagiário é dentro da sala. Estagiário tinha que realizar as correções dentro deste mesmo âmbito. Mas de que maneira eu cumpriria as minhas obrigações se eu não tinha nem cadeira, muito menos uma carteira para trabalhar? Esperar sobrar uma carteira não dava porque o serviço acumularia muito. Sentar no chão para corrigir? Impossível. Indigno.

Era neste momento que eu ia contra a maré da chefia. Não para desobedecê-la ou para provocá-la, mas porque eu não tinha outra saída. Eu comecei a procurar outro âmbito da escola em que houvesse uma cadeira e uma mesa para trabalhar. Isso era o pior erro que uma estagiária poderia cometer, porque afinal de contas, lugar de estagiário é dentro da sala de aula.

Nas reuniões com os estagiários, só a chefia falava. Se alguém ousasse a falar um “A”, seria automaticamente interrompido, contrariado ou ignorado e, por causa disso, numa destas reuniões eu fiquei calada do começo ao fim. Estagiário, além de não poder ter uma carteira, não poderia se manifestar sobre a falta dela. Não exercia o meu ofício com eficiência (na visão da empresa) porque eu dependia da eficiência de outros setores. Não trabalhava com eficiência porque não era oferecido a mim um recurso material mínimo para que eu trabalhasse de acordo.

Escrevo este texto e não penso somente em mim, mas em todos os estagiários que viveram ou vivem situações análogas (que são muitos) em seus ambientes de trabalho. Serviço puxado. Mão de obra barata. Salário baixo. Dedicação redobrada. Falta de reconhecimento. Desvalorização. DESMOTIVAÇÃO. Todos esses elementos citados permeiam o universo não somente de estagiários, mas de subordinados em geral.

Todavia, apesar disso tudo ter ocorrido no meu mísero início de carreira, carrego as melhores das lembranças: As piadas e as conversas descontraídas com os colegas na hora do intervalo e a tão preciosa e rica experiência com o universo escolar.


Stephannie Campos

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