literatudo

O sentido literal das subjetividades do mundo.

Stephannie Campos

Escrever é libertar o insólito.

Mulher: Proprietária de si mesma

Sim. A mulher sente necessidade de ficar sozinha, sente vontade de aproveitar a sua própria companhia, tem o desejo de ser dona dos seus momentos de solidão. Somente a ela, cabe a autoridade sobre as suas próprias atitudes, entretanto, não pode, em hipótese alguma, permitir ao outro a responsabilidade da realização dos seus desejos. A mulher deve, portanto, caminhar através dos seus próprios passos, sejam eles dados de salto ou não.


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Ela estava naqueles dias em que a crise existencial toma conta do corpo e da mente. Precisava de mais espaço, precisava de mais tempo, precisava de um estado pleno de reflexão que permitisse reorganizar a sua vida. Concomitantemente, a doçura do prazer de estar sozinha era insubstituível. Em razão das experiências que tivera durante a jornada da sua vida, aprendera uma lição: a de curtir a sua própria companhia. Para ela, a solidão era primordial para obter as suas melhores ideias, era necessária para se inspirar, era indispensável para sanar qualquer crise que a vida às vezes lhe impõe.

A moça, acomodando-se em uma cadeira estofada de bar, debaixo de uma luminária que atribuía ao ambiente uma característica boêmia, observava o lugar e procurava atentamente um garçom que estaria mais acessível para poder atendê-la. Levantou o braço e acenou ao que estava mais próximo. Rapaz jovem, olhos claros e com gestos gentis que denunciavam a sua humildade, aproximou-se da garota. “– Boa noite. Você está sozinha?”. Tal questionamento levantaria uma série de reflexões acerca dos motivos pelos quais uma mulher sairia para beber sozinha em um bar. A presença solitária da moça causou no jovem garçom um estranhamento e inquietude. A moça, por uns segundos, pensou sobre a pergunta do rapaz, que também lhe causara um impacto, e, logo em seguida, percebeu que o moço estava esperando a sua resposta e esboçou um sorriso para retribuir a gentileza: “– Boa noite. Estou sozinha sim.” Fez o seu pedido.

Sentada de pernas cruzadas e com um olhar descompromissado dirigido ao ambiente em que estava, a moça consumia o seu drink distraidamente. A cada gole, o prazer de se sentir plena e completa tomava conta de si mesma. Estava se sentindo livre de amarras e dos problemas da sua vida, estava se sentido leve ao sentir a brisa que entrava pela janela próxima à sua mesa. Era uma noite de ventania, as nuvens corriam no céu de modo que indicasse uma chuva que estaria chegando aos próximos instantes. Enquanto ocorria o deleite do momento pela moça, todos os garçons e a maior parte dos fregueses já haviam notado a moça sozinha. Olhares espantados, curiosos, fixos. O garçom em questão a observava frequentemente com um olhar de desejo, como se a moça tivesse pedindo por uma companhia. As outras pessoas a olhavam com uma curiosidade escandalosa, pois, os fregueses, principalmente os de sexo masculino, estavam perplexos ao ver a moça sentada em um bar, tomando bebida alcoólica e, ainda, sozinha, como se isso fosse algo incomum, raro, indevido, proibido.

A independência feminina e o poder da mulher de agir por si mesma geram impacto em uma sociedade que mascara o machismo. Mascara porque a maior parte das pessoas diz que o machismo é coisa do passado, é coisa que já foi esquecida e que não existe mais. Mas ao ver uma mulher sozinha em um bar, um homem ainda se sente no direito de pensar que aquela mulher está esperando por alguém (com segundas, terceiras, infinitas intenções e que está “fácil”), ou que ela não pode em hipótese alguma ficar sozinha em um lugar público se há homens que podem “tomar conta” dela, tornando-a uma propriedade. Esses olhares de incompreensão dos fregueses e o olhar de desejo do garçom só provam que o machismo, infelizmente, ainda está arraigado em nossa sociedade. À mulher, ainda é atribuída a obrigação de estar acompanhada de alguém, a obrigação de fazer com que o seu lazer dependa de um homem e de que o seus momentos de satisfação plena sejam providos por outrem.

O desejo de solidão da mulher não é propriedade de ninguém, o espaço da mulher é somente dela. A mulher deve ser dona dela mesma, deve ser dona dos seus próprios momentos, das suas próprias palavras e atitudes. Portanto, a vontade de uma mulher de ficar sozinha é única e exclusivamente dela.


Stephannie Campos

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