literatura cinema

Um espaço sobre cultura literária e cinematográfica

Anderson Guerreiro

Assim como Clarice, um coração batendo no mundo.

EU MATEI MINHA MÃE: O REAL FICCIONALIZADO NO CINEMA

Em "Eu matei minha mãe", confunde-se personagem e produtor, que se mesclam no protagonismo de um relato factual e inverossímil, criando um personagem ambíguo e indefinido.


fig 1.jpg

Autobiografia e ficção são dois elementos tradicionalmente considerados antagônicos, nós podemos pensar, por exemplo, uma obra ora fictícia ora (auto)biográfica. As curiosidades levantadas à figura daquele que produz narrativas textuais e a construção de uma estreita relação, por parte do público, entre seus personagens e a sua pessoa, fizeram autores proliferarem diversas advertências como “esta é uma obra de ficção baseada na livre criação artística e sem compromisso com a realidade” ou “esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”.

Por outro lado, amplamente em voga na literatura contemporânea, o real e o ficcional têm se manifestado lado a lado na construção das malhas textuais, sobretudo nas dos romances. Esse fenômeno é denominado, na literatura, autoficção. No sentido amplo, é a junção de “autobiografismo” e “ficção” em uma narrativa, ou seja, o autor de uma obra deste gênero embaralha ficção e (sua) vida real à composição de seu enredo. Ao mesclar esses dois elementos, a autoficção, como característica própria, não contorna as margens entre ambos, confundindo o leitor ao discernir até onde tal narrativa é ficção e o que daquilo que está sendo contado é verídico.

Recorrente na literatura, a autoficção agora também tem alcançado o ambiente cinematográfico. Um grande representante deste gênero é o filme J'ai tué ma mère (Eu matei minha mãe), 2010. O longa escrito por Xavier Dolan, quando adolescente, é baseado nas suas experiências de vida e nas relações mantidas com sua mãe, o próprio afirmou em entrevista que a história contada no filme flerta com sua biografia, no entanto tudo aquilo não deixa de ser ficção. Desenvolvido em forma de uma narrativa fictícia, um documentário com relatos autobiográficos e flashes de momentos de sua infância, o filme é por muitos considerados um desabafo cinematográfico, especialmente por trazer como roteirista, diretor e personagem principal uma única pessoa: o próprio canadense Xavier Dolan.

Eu matei minha mãe retrata a história de Hubert (Xavier Dolan), adolescente que mantém uma problemática relação com sua mãe Chantale (Anne Dorval). A trama é desenvolvida mediante o cotidiano de mãe e filho, personagens incapazes de conviverem em consonância. Hubert sente-se incomodado e impaciente com as atitudes da mãe, desde o jeito como mastiga os alimentos às atividades que o obriga a fazer. O rapaz sente-se bem mais confortável na companhia de seu namorado Antoine (François Arnaud) e de sua professora Julie (Suzanne Clément), pessoas que lhe dão apoio e forças. Chantale, por sua vez, sente-se desnorteada com as atitudes do filho, revela-se ora desvairada ora autoritária, personalidades que causam ainda mais a repulsa de Hubert. O filme é repleto de intensas discussões, xingamentos e inconformidade por parte de mãe e filho. Importante destacar que o ato expresso no título do filme é uma metáfora em relação à inexistência, por Hubert, da figura maternal em Chantale, que por vezes é “morta” pelo filho. Apesar disso, em partes da história, aparecem momentos de afeição entre ambos, o que deixa claro um sentimento de amor e de estima fraternal.

Na literatura, uma narração para ser denominada autoficção deve envolver algumas características que seguirão visíveis no enredo. No cinema, o mesmo acontece. Assim, mostraremos as marcas da realidade visíveis no filme, denominado ficção.

fig 2.jpg

A trama do filme foi escrito por Xavier Dolan, o próprio anunciou publicamente, desde as gravações do filme, que o enredo foi produzido quando contava 16 anos, baseado em sua própria experiência. Em entrevista, Dolan confidenciou que, quando garoto, era violento e impulsivo, personalidades que o fizeram ser expulso de vários colégios.

No filme, Hubert, o personagem principal, interpretado pelo próprio Dolan, conta sua história quando adolescente, também aos 16 anos. Todas as características acima apontadas aparecem também no personagem. A impulsividade do garoto torna-o solitário, com apenas a presença de seu namorado Antoine e sua professora para consolá-lo. Nesse sentido, são visíveis as características do “eu” autoral (Dolan) manifestadas no “eu” ficcional (Hubert). As angústias de Hubert são resultados sempre das atitudes da mãe que o priva de suas vontades, que o obriga a diversos atos, como frequentar um colégio interno. Como resultado, vemos um adolescente rebelde, que se irrita facilmente com sua mãe. A relação de ambos é transmitida ora com amor, ora com ódio.

Um pouco que o ator revelou sobre sua mãe a posiciona como uma boa pessoa, porém não totalmente idônea à maternidade. Parte da relação de ambos foi referência para a criação da história. Na verdade, o ponto central do filme é discutir e mostrar essa relação, considerada pelo garoto diferente dos demais relacionamentos maternais. Quanto ao pai, Dolan afirma que teve pouco contato com este, uma vez que se separou de Geneviève Dolan, sua mãe, quando ainda era criança, tendo ele sido cuidado somente por ela.

No filme, Chantale aparece como uma mulher aparentemente tranquila, ela trabalha, se diverte com uma amiga, resolve os problemas domésticos. No entanto, seu problema é dentro de casa, especificamente com seu único filho. Observa-se claramente que Chantale não sabe e nem soube lidar com o filho, assim, usa de sua autoridade para impor-lhe limites, o que não há efeito. Além de se irritar facilmente como o rapaz, verifica-se uma mulher descontrolada e desiquilibrada diante às atitudes do filho.

O pai, assim como o do autor, também é separado de sua mãe e quase nunca mantém contato com o filho. No filme, ele aparece em uma cena apenas, quando convida Hubert para um almoço, estranhamente o rapaz aceita, no entanto trata-se do comunicado de que iria para o colégio interno. A figura do pai é mostrada somente para levar ao telespectador a informação de que se separou de sua mãe aos sete anos, e a parti daí não manteve contato com o filho, drama também vivida pelo diretor Xavier Dolan.

Último destaque se refere à sexualidade de Dolan. Abertamente homossexual, o ator conta que desde os 11 anos de idade já tinha consciência de sua orientação e acredita que, bem antes de revelá-la, sua família já a presumia. O cineasta é conhecido por explorar temáticas homossexuais em seus filmes, em 2012, depois de lançar seu longa Laurence Anyways, Dolan obteve, do Festival de Cannes, o prêmio Queer Palm, o qual contempla os melhores filmes com temáticas LGBT.

Na trama, Hubert é homossexual e tem um romance com Antoine. No entanto, devido a difícil relação, sente dificuldade em expô-lo a Chantale, que por sua vez tem conhecimento de tal episódio por meio da mãe de Antoine. Não se sabe a relação do diretor com a mãe referente a essa questão, no entanto no filme, Chantale é indiferente, o que a deixa triste é a escolha do filho em esconder.

Em Eu matei minha mãe, confunde-se personagem e produtor, que se mesclam no protagonismo de um relato factual e inverossímil, criando um personagem ambíguo e indefinido. Dessa forma, o telespectador não consegue definir os limites entre realidade e ficcionalidade, isso talvez porque o produtor mantém o desejo narcisista de falar de si, mas conserva-se na impossibilidade de exprimir um verdadeiro “eu” no filme, usando, desse modo, os artifícios autoficcionais.

"Saindo dos anos de adolescência e de pós-adolescência, não sinto como se estivesse sendo elevado por algo e quero ser desafiado. Então escrevi este filme pensando que vou dirigi-lo, porque se fizer isso ninguém poderá dizer 'não, não queremos aquele'. Então me tornei diretor, só para poder me expressar como ator."

- Xavier Dolan, sobre o filme


Anderson Guerreiro

Assim como Clarice, um coração batendo no mundo..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Anderson Guerreiro