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Anderson Guerreiro

Assim como Clarice, um coração batendo no mundo.

FLORBELA: A EXPRESSIVIDADE POÉTICA DE UM CASO HUMANO

"E se um dia hei de ser pó, cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder...pra me encontrar..."


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Ela estava exausta, insatisfeita, doente, sem “gestos novos, nem palavras novas”. Trancada em seu quarto, na madrugada de 7 para 8 dezembro, dia em que completava seus trinta e seis anos, Florbela talvez esperava, como regalo, unicamente, consolo à sua atordoada passagem ao mundo que a vida lhe encarregara. Ela mesma se brindou com tal. Dois fracos do sonorífero Veronal, encontrados abaixo de sua cama, foram-lhe predestinadamente fulminante. Nada pode ser feito. A morte lhe foi um oásis.

No dia seguinte, toda a imprensa portuguesa anunciava a morte da poetisa. A partir, e apenas então, manifestou-se o interesse às publicações, críticas e estudos acerca de sua vasta obra, escrita até então. Lembrando Kafka, Van Gogh e Rimbaud, a factual expressão “só se dá valor depois que se perde”, encaixa-se, perfeitamente, também no caso Florbela Espanca. Hoje, inúmeras são as investigações e análise em volta da vida e obra desta singular poetisa que viveu ousadamente um período que não lhe era favorável. Foi a expressividade poética de um caso humano.

A PEQUENA FLOR BELA

O nascimento de Florbela aconteceu em dezembro de 1894, numa pequena vila da cidade de Évora, região do Alentejo de Portugal. O fato ocorreu depois que Antónia da Conceição Lobo, mãe da poetisa, foi a escolhida do republicano João Maria a lhe conceder filhos, visto que sua legítima mulher não era apta. Florbela foi batizada apenas com o nome da mãe, apesar de ser criada junto ao seu pai. O mesmo ocorreu com seu irmão, Apeles, dois anos mais novo.

Aos cinco anos, Florbela ingressa na escola primária. Precocemente, aos oito anos de idade, escreve seu primeiro poema: A vida e a morte, já despontando traços que atravessarão e seguirão toda sua produção poética. E Florbela sempre almejava por mais, sendo assim umas das únicas a terminar a escola secundária, aos dezessete anos, no Liceu de Évora, levando sua família a mudar-se para a cidade para viabilizar sua permanência. O casamento aconteceu quando completara dezoito anos. Alberto de Jesus Moutinho, seu colega desde a escola primário, foi quem a recebeu como esposa.

O matrimonial iniciou-se na cidade vizinha de Redondo. Após alguns meses, e acometido de uma grave crise financeira, o casal regressa à casa dos pais, por quem são sustentados por um determinado período, nesta época os dois lecionam aulas de português a fim de ajudar nos importes.

Sempre irreverente e ousada e após ter produzido diversos poemas, Florbela seleciona uma quantia de 85 e reuni-os em uma coletânea. O resultado foi seu primeiro livro Trocando Olhares, lançado em 1915, com uma pequena tiragem de duzentos exemplares, alavancado tão somente à sua própria custa. Com indícios das cantigas medievais de amigo e amor, com forte tendência ao panteísmo e a força telúrica, os versos florbelianos inovaram no que se refere aos elementos composicionais da poesia, trazendo, dessa forma, uma excessiva propensão ao lirismo amoroso.

SUA VIDA FORA DE REGRAS

Aos 22 anos de idade, Florbela é uma das 14 mulheres a ingressarem na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, um número relativamente baixo ao que se refere o de homens, 333. Vivendo em Lisboa, a poetisa passa a conhecer o estilo artístico da capital do país. Momentos esses em que ocorria na capital portuguesa o Modernismo, a geração Orpheu, e, embora Florbela conhecesse um dos integrantes, em nenhum momento ela tivera conhecimento do movimento que alvoroçava a literatura da época. A tendenciosidade deixou de lado a presença de uma das figuras com poesias tão recorrentes, tais quais as de Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa e seque ela foi apresentada ao meio.

Após levar uma vida ócia, desregrada, fora dos padrões e numa alegre boêmia, manifestam-se os primeiros sintomas da doença herdada da mãe e que lhe acompanhará até sua morte. O fato a obrigou a abandonar o curso e a vida boemia em Lisboa, e então partir para Quelfes. Na cidade, Florbela continua a produzir, ao mesmo tempo em que se torna explicadora particular de português.

Data-se de 1921, o decreto do fim de seu casamento de sete anos. Petulante e ousada, dois meses depois, Florbela casa-se novamente em Porto com o alfares de artilharia António Guimarães, com que vinha a divorciar-se, novamente, em abril de 1924. O fato fez com que sua família lhe voltasse as costas. Num Portugal conservadorista, o divórcio não era tão recorrente e tampouco bem visto.

Lançado seu segundo livro, o Livro de Sóror Saudade traz a temática da fuga da realidade e inconsistência no amor, o teor fúnebre é sempre associado ao amor e à vida. Suas escritas partem, por tantas vezes, de suas próprias experiências e vivências que a vida lhe acarretara. Neste período, Florbela divorcia-se de seu segundo marido, nove meses depois, casa-se novamente, desta vez com o médico Mário Lage.

SEU DIÁRIO DO ÚLTIMO ANO

O ano é 1927, Florbela encontra-se ainda produzindo, traduzindo romances franceses e passa a colaborar com algumas revistas femininas e periódicos, os quais estampam algumas de suas belas poesias. Após ter finalizado seu livro de contos, O Dominó Preto, que será lançado, apenas depois de sua morte, Florbela tem conhecimento da mais dura e difícil perda de sua vida. O hidroavião Hanriot 33, em que Apeles, seu irmão, pilotava, cai drasticamente sob o rio Tejo.

À memoria do irmão, a poetisa dedica uma gama de poemas e o livro As máscaras do destino. Neste período, a poetisa acha-se novamente adoentada. Encontra-se perduravelmente depressiva e infeliz, neurótica, abusando do cigarro e definhando-se perceptivelmente.

A vida lhe findava em 1930, período de alvoroço em Lisboa, para onde Florbela desloca-se algumas vezes. Neste período, ela produz aquele que seria seu último manuscrito: Diário do último ano, nele observa-se o estado de solidão em que a escritora estava mergulhada. Seu Diário se encerra em 2 de dezembro, a última frase “e não havendo gestos novos nem palavras novas!” traduz exatamente o que estava por vir. Após o suicídio, a poetisa foi enterrada em Matosinho e, 34 anos depois, seus restos mortais foram transportados para sua cidade Natal, Vila Viçosa.


Anderson Guerreiro

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