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Um espaço sobre cultura literária e cinematográfica

Anderson Guerreiro

Assim como Clarice, um coração batendo no mundo.

O IMPOSSÍVEL: O RETRATO DE UMA TRAGÉDIA NÃO ANUNCIADA

Uma família espanhola, de férias em um lugar paradisíaco, vivencia uma das catástrofes mais impetuosas que a humanidade já experienciou. Se há quem diga que a realidade sempre supera a ficção dos filmes, então essa é a história que ninguém jamais desejaria vivenciar sequer na tela do cinema.


Ao final de 2012, uma nova produção cinematográfica espanhola era lançada nos cinemas do mundo todo: O Impossível. O Filme é baseado unicamente nas memórias de María Belón, personagem real que sobreviveu a uma das catástrofes mais impetuosas que a humanidade já experienciou, o Sismo do Índico em 2004.

A obra é baseada na história real de uma família espanhola que foi uma das milhares de vítimas da tragédia do tsunami que devastou a costa do Sudeste Asiático, no Natal de 2004. Se há quem diga que a realidade sempre supera a ficção dos filmes, então essa é a história que ninguém jamais desejaria vivenciar sequer na tela do cinema.

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As entrevistas de Maria, protagonista interpretada por Naomi Watts, que foram publicadas, narrando o acontecimento, foi a principal fonte para o roteiro do filme. Ela revelou que embora tivessem que apagar diversas cenas gravadas durante o acidente, ainda restaram algumas demasiadamente reais e trágicas que são capazes de impressionar qualquer telespectador.

O desastre não anunciado proporciona ao filme um caráter bastante reflexivo acerca de uma diversidade de temas centrados desde a necessidade da sobrevivência aos gestos mais despretensiosos de humanidade. Dentre estes, há um que é bastante focalizado na história: a força que podem ter as crianças diante de árduas situações e como podem transmiti-las aos adultos.

A FORÇA DOS FILHOS DIANTE ÀS TRÁGICAS CIRCUNSTÂNCIAS

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Uma família sai de férias no Natal para um lugar paradisíaco, um resort na Tailândia. Ninguém imaginaria o final trágico daquela viagem, até então recreativa e divertida: o devastador tsunami de 26 de dezembro de 2004, que em algumas horas deixou milhares de mortos naquela região. Observamos a forte relação estabelecida entre María, uma das vítimas, e seu filho mais velho, Lucas, quando uma das grandes ondas devasta o hotel e a família (marido interpretado, por Ewan McGregor, esposa e três filhos) é separada.

Maria, depois de ser engolida e ferida com o primeiro impacto da onda, vem à superfície, bastante ferida, assustada, e imagina que toda a sua família está morta. Prestes a abandonar o local, ouve o socorro de seu filho mais velho, Lucas, flutuando como ela e arrastado pela grande corrente oceânica que tomou conta do hotel e da costa completamente. Naquele momento, impulsionada a salvar seu filho, a mãe gravemente ferida retira força de onde não há para tentar socorrê-lo. Quando ocorre o reencontro e a sobrevivência à segunda investida do mar, o filme mostra uma das mais emocionantes cenas retratada do acidente. O momento ainda retrata o instante em que Lucas assiste a sua mãe gravemente ferida, com um peito e coxa extremamente debilitados. A criança fica impressionada e diz à mãe, chorando, que não consegue vê-la naquele estado. Nesse momento, sua mãe lhe dá pela primeira vez um retrato das adversidades que terá que suportar no caminho da vida, esta através das águas que os devastou e os feriu.

O filho acaba tornando-se um herói para a mãe bastante ferida, ele abre caminho, torna-se o chefe da família que fora diminuída. Segue sendo uma criança assustada, o impressionam as feridas de sua mãe, chora, porém quer ir primeiro e ajudá-la a movimentar-se, a subir em uma árvore para se proteger. Os papéis são trocados de uma certa forma. Nas cenas, Maria está em diversos momentos à beira da morte, mas tira forças para seguir em frente e para o seu filho não perder a coragem e disposição, orientando-o a tudo. Lucas logo aprende muitas lições de humanidade e solidariedade com a situação.

Em uma entrevista María Belón, protagonista da história, fala que, depois que se passaram poucos minutos após tsunami, ela se deu conta que seu filho tinha crescido tão de repente, tornou-se um homem com uma força incrível. Também deseja que o filme não seja visto como uma história de uma mãe, de uma família, e sim de milhares de famílias que, como eles, foram capazes de sobreviver, assim como, também, uma homenagem a todos aqueles que ajudaram as pessoas afetadas e uma solidariedade àqueles que morreram no desastre.

UMA HISTÓRIA DE SOLIDARIEDADE

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O filme nos mostra um outro momento bastante impactante que ocorre quando mãe e filho acabam colocando seus pés no chão após o tsunami e ouçam uma criança chorar e pedir ajuda. Lucas só pensa em salvá-los daquilo tudo, mas sua mãe o convence a ir ajudar o pequeno menino: “imagine que seja um de seus irmãos que precisa de ajuda”. Lucas insiste que a sua prioridade é salvá-los, mas sua mãe responde: “Ainda que seja última coisa que fazemos”. Cenas que transcendem a solidariedade ao próximo. Claramente uma mãe não poderia viver com essa carga na consciência em não ajudar uma criança.

Carga de consciência que tampouco suportaram os habitantes desta área da Tailândia, quando, em busca de seus parentes, que trabalhavam nos hotéis, não hesitam em ajudar os sobreviventes que estavam em seu caminho e levá-los para o hospital com os mínimos meios que dispunham.

Talvez essa história seja vista de modo diferente àqueles que não têm filhos ou pelo menos aqueles que não têm uma certa sensibilidade à família. O fato de saber que esta é uma história verdadeira impressiona qualquer telespectador e o impulsiona à empatia que sente-se de imediato com os pais quase vencidos pelo pensamento de perda de sua família e que mesmo assim revidem em sua busca.

O Impossível, além de mães, pais e crianças, aborda uma história de pessoas. Não é um filme-catástrofe trivial. Tampouco é a história de uma família. A história vai mais longe e versa sobre a sobrevivência e a morte de muitas pessoas, da força do ser humano, dos vínculos renovados e reforçados frente a uma situação extrema.

E acima de tudo, àqueles que são pais e têm sensibilidade à família, vocês vão entender e chorar um pouco com o filme. A história relata a memória de um descomunal tsunami, mas ao fim, ele traz realmente à tona a história de um outro tsunami, um tsunami emocional: como os pais podem ser incrivelmente fortes diante de uma desgraça e ainda ter que sobreviver pelos filhos, e como, nestes momentos, incrivelmente forte eles podem se tornar.


Anderson Guerreiro

Assim como Clarice, um coração batendo no mundo..
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