literatura cinema

Um espaço sobre cultura literária e cinematográfica

Anderson Guerreiro

Assim como Clarice, um coração batendo no mundo.

QUATRO LUAS: UM FILME SOBRE DESCOBERTAS, DESEJOS E, PRINCIPALMENTE, AMORES

Um drama megamente apaixonante, mostrado por meio de quatro histórias inquietantes referenciando, cada qual, uma fase da lua e que se desenrolam, conjuntamente, incitando o espectador à reflexão sobre comportamentos humanos intensos.


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A lua, há bastante tempo, é reputada como a essência de nossa estrutura emocional, determinante de nossas necessidades básicas, de nossas manifestações inconscientes e caracterizadora em nossas expressões de humor e comportamento. Talvez seja esse pensamento a ter levado Sergio Tovar Velarde, escritor e diretor mexicano, a produzir um dos belíssimos filmes sobre descobertas, desejos e, principalmente, amores: Cuatro Lunas (Quatro Luas, 2015).

Um garoto vê-se apaixonado pelo primo mais velho e dele se aproxima a fim de respostas às suas inquietudes e hesitações. Dois velhos amigos de infância encontram-se eventualmente na universidade e a partir daí envolvem-se em um relacionamento discreto, marcado pelo receio das atitudes familiares e sociais. Um casal, casado há dez anos, entra em conflito quando um outro homem entra no jogo e um deles tenta, a todo custo, salvar a longa relação já desgastada. Um poeta aposentado, ao conhecer, numa sauna, um garoto de programa, sente-se obcecado por este, levando a se sacrificar, a fim de preencher suas fantasias e seu vazio sexual. Histórias inquietantes que se desenrolam, conjuntamente, e incitam o espectador à reflexão sobre comportamentos humanos em se tratando de relações emocionais e afetivas.

LUA NOVA

Nesta fase da lua, nos é apresentado a história de Maurício (Gabriel Santoyo), um garoto bem-educado, filho único que cursa os primeiros anos do colegial, vive com seus pais numa família aparentemente tranquila. Ao decorrer das situações ocorridas no filme, percebe-se seu interesse pelo primo mais velho, Oliver (Sebastián Rivera). Ambos estudam no mesmo colégio, e este é sempre atraído por Maurício por meio dos jogos de videogames, os quais habitualmente costumam jogar.

A história do garoto é conduzida ao espectador de uma maneira bastante sensível. Apaixonam-se todos pela inocência da criança em lidar com a situação de sua sexualidade, bem como a descoberta e a confusão emocional que envolve esta etapa da vida. Observam-se os desafios que, a partir de então, atravessam-se por motivo de sua preferência, tendo um pai machista e uma mãe totalmente submissa ao marido, o que lhe proporciona um ambiente familiar não tão favorável, além do medo e do receio em relação à religião que lhe afirma isto ser um pecado bastante grave.

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LUA CRESCENTE

Em lua crescente, conhecemos, para muitos, o casal mais simpático da obra: Fito (César Ramos) e Leo (Gustavo Egelhaaf), dois jovens universitários que, após longos anos, o destino lhes concede novamente o encontro. Após isto, ambos são levados a fortes desejos sexuais e sentimentais. Com isso, os jovens iniciam um breve relacionamento, escondido da família e dos amigos, porém, o medo e as tentativas de esconder o relacionamento, por parte de Leo, acabam por finalizá-lo.

Neste caso, o filme transmite a difícil fase da autoaceitação, vivida pelo personagem Leo, que se acha num novo momento da vida e não deseja transparecer à família por medo de repressão. A família e um ponto discutível nessa fase, pois, se num caso observamos uma mãe carinhosa que aceita e apoia os sentimento e decisões do filho, por outro vemos o indício da família tradicional, ocasionando o medo e o receio da aceitação por parte do personagem Leo.

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LUA CHEIA

Em lua cheia, vêm à tona os dramas da relação de Andrés (Alejandro de la Madid) e Hugo (Antonio Velázquez), um casal casado há dez anos e que, a partir de então, se vê ameaçado pela presença de um outro homem. As difíceis relações, de qualquer casal, em uma união desgastada na qual não há mais interesse por parte de um destes. Também as tentativas idiotas de tentar salvar o casamento que já não há mais o que progredir.

A aceitação das pessoas tal como são, o encadeamento de um relacionamento aberto e a fidelidade são itens difíceis de levar quando não há mais interesse de uma parte em um relacionamento, o que observamos na vida do casal Andrés e Hugo. O que nos chama atenção, é a insistência da outra parte em salvar e dar continuidade ao matrimônio, sendo as tentativas todas fracassadas. Após toda a humilhação, Andrés finalmente despertar-se para o fato, deixando o parceiro, desta vez, sozinho, a refletir.

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LUA MINGUANTE

Na última fase apresentada, conhecemos um poeta idoso, pai, avô. Com uma família aparentemente tranquila, o velho poeta frequenta continuamente uma sauna masculina, na primeira cena, ele conhece um novato garoto de programa, Gilberto (Alejandro Belmonte), pelo qual se torna totalmente atraído e obcecado. Inicialmente, o rapaz o repudia, impossibilitando até de pagá-lo para ter seus prazeres saciados.

Mais uma vez, a traição e a vida sustentada na mentira sobressaem nas cenas deste caso. Com enfoque também nas sobrevivências da sociedade. Um michê, pai de família, que se sujeita a tal vida a fim de voltar a seu país. Um idoso, com uma vida eruditamente prestigiada, que talvez tenha ocultado durante toda a vida sua sexualidade. Ambos têm os destinos cruzados, e apenas depois de um programa, as verdadeiras histórias escondidas nos personagem aparecem, compreendendo, ambos, os dramas de cada um.

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UM FILME MEGAMENTE APAIXONANTE

Cuatro Lunas é uma história cativante e comovente mostrada através dessas quatro histórias intercaladas. Mostra o processo individual de aceitação de quatro personagens homossexuais em um determinado momento de sua vida, utilizando as fases básicas da lua como representação. Não é simplesmente um resumo costurado de diversos personagens, e sim, reflexivas e inquietantes histórias reais que podem ser comparadas com diversas pessoas, independente de suas orientações, pois, antes de tudo, este é um filme sobre pessoas.

A sensação da tranquilidade que se tem no final do filme em que tudo acaba bem é um dos pontos mais confortáveis que raramente outros trazem. Um filme megamente apaixonante, indispensável àqueles que apreciam histórias repletas de reflexões e comportamentos humanos intensos.


Anderson Guerreiro

Assim como Clarice, um coração batendo no mundo..
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