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Um espaço sobre cultura literária e cinematográfica

Anderson Guerreiro

Assim como Clarice, um coração batendo no mundo.

O engajamento social em forma de literatura no Brasil

Diversos escritores têm produzido um tipo de literatura comprometida não somente com o estético, com o entretenimento, mas também com os problemas sociais presentes de forma injusta, desumana e injustificável nas sociedades e que poucas vezes vêm à tona. A isso, denominamos literatura engajada, também conhecida como literatura denúncia, a muito praticada tanto em séculos passados quanto atualmente.


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O conceito de engajamento está estritamente ligado às intensas relações entre política e sociedade, assim sendo, essas relações perpassam pelos estudos e reflexões da economia, filosofia, sociologia e literatura. Cada qual desses campos entendem e tratam o ato de engajar-se sobre diversas perspectivas, de forma que na literatura ele é entendido como uma prática muito comum e quase que natural entre os escritores de diversas épocas e de diversas maneiras. A poesia e o romance constituem os dois principais gêneros literários usados, por autores, como instrumento de denúncia e manifestação a uma luta social referente, sobretudo, a questões políticas e sociais.

Entende-se por engajar-se o ato de colaborar, direta ou indiretamente, em prol de uma causa, um ideal, geralmente político-social. É por natureza o ser humano ter em si ideais, sentimentos, aspirações, ideologias, ilusões. Tudo isso faz parte da realidade e não se vive sem, assim, é inevitável um escritor, no momento da sua criação, transpor às suas linhas narrativas ou poéticas parte de suas ideologias. Ninguém está imune a isso, dessa forma, toda literatura é em parte engajada. Enquanto alguns escritores a fazem de maneira singela, há outros que fazem de forma mais radical e acabam produzindo um tipo de literatura comprometida não somente com o estético, com o entretenimento, mas também com os problemas sociais presentes de forma injusta, desumana e injustificável nas sociedades e que poucas vezes vêm à tona. A isso, denominamos literatura engajada, também conhecida como literatura denúncia, a muito praticada tanto em séculos passados quanto atualmente.

Referindo-se às narrativas, quando estas deixam explícita uma certa denúncia a um problema social, sobretudo de política pública, enfocando os conflitos, as desigualdades sociais e os descasos políticos, estamos lidando com a prática do engajamento na literatura. Em voga contemporaneamente, este tipo de prática literária foi bastante praticada no início do século XX, no período que antecipava o modernismo na literatura brasileira (1900-1922). São exemplos deste tipo de literatura: Os Sertões de Euclides da Cunha, romance regionalista o qual retrata a vida do sertanejo e a Guerra de Canudos, na Bahia, em 1896; Vidas Secas de Graciliano Ramos, um dos clássicos da literatura brasileira, é na verdade, uma forte crítica à vida miserável de centenas de família de retirantes obrigadas a se deslocar de tempos em tempos para áreas menos castigadas pela seca no sertão nordestino; O Quinze, de Rachel de Queiroz, obra a qual retrata a realidade dos retirantes nordestinos na grande seca que assolou o Nordeste em 1915, o romance contém um forte teor social que, além de enfocar na realidade das pessoas do local, retrata a fome e a miséria nessa região do Brasil; Cidades Mortas de Monteiro Lobato, livro que contos que retrata e faz uma crítica ao Ciclo do Café, Lobato ainda traz à tona em diversas de suas obras a realidade subumana do caipira do interior de São Paulo.

O Quinze e Vidas Secas são dois livros que se assemelham muito quanto ao enredo e ao cenário, isto é, a fuga de nordestinos da grande seca que assolou a região no século XX. O Quinze foi escrito e lançado em 1930. Rachel de Queiroz, que vivenciou esse período com sua família, desenvolveu uma narrativa regionalista, com temática social e característica psicológica. A história tem como pano de fundo a saga da família de Chico Bento pelo Nordeste, fugindo da seca que assolava o Ceará em 1915 (daí o título do livro). O livro contém cenas características dessa região e descreve as dificuldades e sofrimento dos moradores e retirantes nordestinos. A autora exprime intensa preocupação social e, dessa forma, descreve no sentido psicológico os personagens, especialmente o homem nordestino, sob pressão de forças naturais que o impelem à aceitação fatalista do destino. Há uma tomada de posição temática da seca, do coronelismo e dos impulsos passionais, em que o psicológico se harmoniza com o social.

Vidas Secas, que se tornou uma obra clássica da literatura brasileira, é um dos expoentes em tratando-se de literatura denúncia e regionalista da segunda geração modernista. A grande diferença entre esta e as demais obras deste estilo, nesse período, trata-se da apurada técnica que Graciliano tinha e usou em sua narrativa, como o uso de narrativa não-linear, discursos indiretos livres, os nomes dos personagens, etc. essas técnicas, juntamente com a temática regionalista, descrita de forma cuidadosa com diversos adjetivos, evidenciam os aspectos denunciativo das mazelas sociais sofridas pela população nordestina naquela ocasião.

Desde o título, já nos sensibilizamos com a desumanização que a seca proporciona aos personagens. Além do sofrimento advindo pela falta da chuva, soma-se ainda as mazelas sofridas pela influência social, retratada pela extorsão dos ricos proprietários de terra aos mais pobres. Dessa forma, o livro traz uma sequência de acontecimentos que fazem o leitor ter toda a noção de miséria daquela família. Fabiano, o pai, é oprimido e seus direitos são retirados pelo proprietário da fazenda em que trabalha. Sua família vive em péssimas condições de vida, sem acesso à boa alimentação, saúde, educação e lazer, itens essenciais ao ser humano. Graciliano consegue sensibilizar seus leitores e denunciar as condições subumana em que passam centenas de famílias retirantes naquele período.

Pelo fato de a literatura ainda ser uma recorrente prática social, a qual alcança diversos leitores, sensibilizando-os, humanizando-os é que os escritores veem nessa arte um importante e forte instrumento para denunciar as mazelas, as injustiças sociais, os descasos do poder público e a real situação (muitas vezes desumana) a qual vivem as populações mais marginalizadas. É dessa forma que a literatura engajada atualmente ganha, cada vez mais, espaço socialmente, dessa maneira, observamos que essa prática literária não foi somente uma tendência no início do século passado, uma vez que cada período histórico tem suas crises e desafios e a literatura serve, de uma certa forma, para que, no mínimo, a população tenha conhecimentos desses problemas a muito ser enfrentados.


Anderson Guerreiro

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