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Um espaço sobre cultura literária e cinematográfica

Anderson Guerreiro

Assim como Clarice, um coração batendo no mundo.

O poder que a literatura ainda possui

Italo Calvino, em seu livro “Seis propostas para o próximo milênio", acreditava no futuro da literatura porque, segundo ele, há coisas que tão somente ela, por meio de seus meios específicos, é capaz de proporcionar ao homem.


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Quantos livros em média já lemos durante este ano? Qual foi o último e quanto dias já se passaram? Quando foi a última vez que ouvimos alguém falar sobre literatura, discutir sobre um livro, um conto ou uma poesia? Essas indagações servem para se fazer um mapeamento de como anda a literatura na nossa sociedade contemporânea em meio a tantos outros atrativos que disputam lugar na sociedade, como a internet e a televisão, por exemplo. A resposta, infelizmente, não é das mais agradáveis.

O espaço que a literatura possui na sociedade está cada vez mais escasso. Podemos observar isso nas escolas, na imprensa e no lazer cotidiano. Na escola, por exemplo, onde a literatura deveria estar sempre presente, nem sempre está. Os livros estão progressivamente mais distantes dos estudantes, empoeirados nas bibliotecas, uma vez que não há incentivo por parte de alguns educadores que, com a falta de comprometimento e estímulo do poder público, a cada dia se esvaecem. Na imprensa, que também atravessa sua crise, as páginas literárias (contos, crônicas, cartas do leitor) que antes eram itens essenciais, agora estão a desaparecer, dando lugar a notícias de nível sensacionalista para chamar atenção dos leitores. Já nos lazeres familiares, até nos lares onde a literatura sempre foi importante, agora vêm perdendo espaço, graças aos atrativos das novas tecnologias.

A partir desse triste quadro em que se acha a literatura, é importante discorrer e mostrar o poder que a literatura sempre teve (e ainda tem) em nossa vida e na sociedade em geral. Italo Calvino, em seu livro “Seis propostas para o próximo milênio”, acreditava no futuro da literatura porque, segundo ele, há coisas que tão somente ela, por meio de seus meios específicos, é capaz de proporcionar ao homem.

O filósofo Francis Bacon, no ensaio “Of Studies” sempre acreditou que o ato da leitura transforma o homem, torna-o completo, preciso. Para ele, a cultura literária torna a sociedade melhor, mais reflexiva e instruída. A verdade é que, hoje, para aqueles que leem, mesmo sendo um ato indispensável para se viver, a vida torna-se mais clara, mais ampla, mais cômoda que para aqueles sem o hábito de ler. Bacon ainda dizia que a leitura faz com que o homem não recorra à dissimulação, à hipocrisia e/ou à falsidade.

Dessa forma, ilustraremos, dentre tantos outros, três poderes que a literatura ainda possui em nossa sociedade, baseado no que o crítico literário Antonie Compagnon dissertou em novembro de 2006, no Collège de France1.

1. A literatura deleita e instrui

Esse é um dos poderes mais antigos que perpassam à literatura. Podemos observar desde Aristóteles2 quando dizia que é graças à mimesis (termo traduzido hoje como ficção) que a sociedade se capacita. O filósofo queria revelar que o homem é capaz de aprender muito através da leitura de textos literários de ficção. Ele ainda diz que a imitação é instintiva e nata dos seres humanos e por meio dela o homem adquire as primeiras experiências e deleita-se em seus prazeres.

A verdade, já a muito observada, é que a literatura instrui deleitando. Le Fontaine, escritor francês, autor de inúmeras fábulas, observou que “as fábulas não são o que parecem ser. Nelas, o animal mais simples ocupa o lugar do mestre. Uma moral nua traz tédio; O conto transmite o preceito com ele. Nesses tipos de fingimento é preciso instruir e deleitar. E contar por contar me parece pouca coisa”3.

O ato de instruir que a literatura possibilita favorece sobretudo, mas não somente, as crianças. Em seus primeiros anos, elas estão abertas a todo tipo de conhecimento, portanto aquelas que leem fábulas, contos, crônicas certamente terão um conhecimento e uma imaginação mais ampla, mais aberta e mais fértil. Em contrapartida, o adulto que lê ampliar seus horizontes e conhecimentos, vivencia períodos e momentos históricos que não seria possível sem a leitura de determinados livros, porque na verdade cada obra traz consigo aspectos da sociedade e do momento em que foi construído. Dessa forma, Compagnon observa que, por exemplo, “um ensaio de Montaigne, uma tragédia de Racine, um poema de Baudelaire, um romance de Proust nos ensinam mais sobre vida do que longos tratados científico”4, uma vez que além dos ensinamentos nos traz recreação.

2. A literatura cura e liberta a sociedade

Esse poder designado à literatura tem raízes desde o Iluminismo, no século XVIII, sendo aprofundado como o Romantismo. Nesse sentido, a literatura se ocupa em libertar o sujeito de submissões às autoridades, tanto religiosas quanto políticas. Isso porque, o Iluminismo pregava a liberdade dos indivíduos. Assim, a literatura foi concebida como um instrumento de justiça e de tolerância, características que contribuem para uma certa libertação da sociedade.

Para Compagnon, “a literatura é de oposição: ela tem o poder de contestar a submissão do poder”5. Por isso, não raro, observamos diversos períodos em que livros foram queimados em praça pública e autores perseguidos e mortos, uma vez que a literatura tem esse poder de contestar uma verdade absoluta, um discurso pregado. É dessa forma que hoje, assim como antes, a literatura dota o homem de uma percepção que o leva a resistir às restrições impostas à sociedade.

A literatura de resistência, por exemplo, ilustra exatamente esse poder que a literatura tem, quem as lê tem um pensamento mais aberto, sendo capaz, a partir de então, de não se submeter às autoridades, sobretudo religiosas e políticas.

3. A literatura brinca e corrige a linguagem

Os dois primeiros poderes colocados anteriormente dos quais a literatura possui são tidos como definições clássicas e românticas, respectivamente. Um projeto moderno acerca do poder advindo da literatura diz respeito ao uso particular que ela faz da linguagem. Ao construir um texto literário, uma poesia por exemplo, o escritor emprega a linguagem de forma diferente da qual costumamos usar no cotidiano. Compagnon observava que a poesia brinca com a língua, ultrapassando suas submissões e assim “visita suas margens, atualiza suas nuanças e enriquece-a violentando-a”6.

Quando temos acesso aos textos literário, consequentemente, observaremos um jeito particular de uso da língua e, a partir daí, somos levados a instigar sobre os diversos possíveis usos da linguagem. Roland Barthes7 dizia que “a literatura, trapaceando a língua, salvava-a do poder e da servidão”. Para Compagnon, por meio da literatura somos ensinados a não sermos enganados pela língua, ela nos torna mais inteligentes, ou diferentemente inteligentes. Ou seja, se na perspectiva do poder do Romantismo, a literatura curava os males do homem na sociedade, esse poder, observado na modernidade, cura o homem das inadequações da língua.

Para finalizar, é elementar atentar-se sempre para a importância e a dimensão dos poderes que a literatura teve e ainda tem em nossa sociedade e que, apesar do seu enfraquecimento, eles continuam pertinentes. Privilegiados aqueles que conseguem enxergar e usufruir deles. Italo Calvino8 nos diz que as coisas que a literatura pode nos proporcionar são poucas, mas são insubstituíveis: a maneira de ver o próximo e a si mesmo; de atribuir valor às coisas pequenas ou grandes; de encontrar as proporções da vida e o lugar do amor nela.

Referências: 1 - A conferência de Compagnon foi transcrita e traduzida para o português por meio do livro Literatura par quê?/Editora UFMG (2009). 2- Em seu ensaio Arte Poética, presente no livro Retórica e Arte Poética/Ediouro (2005). 3 - Presente na fábula O pastor e o leão, contida no livro Fábulas de La Fontaine/Villa Rica (1992). 4 - Literatura para quê, p. 26. 5 - Idem, p. 34. 6 - Idem, p. 38. 7- Presente no livro Aula/Cultriz, p. 16. 8 - Citado por Compagnon, p. 45.


Anderson Guerreiro

Assim como Clarice, um coração batendo no mundo..
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