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Um espaço sobre cultura literária e cinematográfica

Anderson Guerreiro

Assim como Clarice, um coração batendo no mundo.

O contemporâneo gênero da autoficção e algumas de suas características

A autoficção certamente se destaca entre as chamadas escritas de si, pelo fato de mesclar nas linhas de sua narrativa dois aspectos que, tradicionalmente, são considerados antagônicos: o real e o ficcional. O destaque é a ambiguidade dos fatos e a indecibilidade do leitor entre o que daquilo que está sendo contado é verdade e o que é falso.


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Características próprias de uma sociedade consequentemente recaem sobre sua literatura, em determinados períodos da história. É por isto que a tríade literatura-sociedade-cultura anda sempre junta, e de mãos dadas. Nas grandes obras da literatura, por exemplo, são visíveis os traços sociais e culturais as quais o autor este incluso. Certa vez, Friedrich Engels escreveu a Marx: ”aprendi mais em Balzac sobre a sociedade francesa da primeira metade do século do que em todos os livros dos historiadores, economistas e estatísticos da época, todos juntos”.

Hoje, nossa cultura atual é marcada fortemente pela fragmentação do sujeito, pela necessidade em se expressar, pela forte tendência do narcisismo do homem, dentre outras. É neste sentido que é bastante comum, ao adentrarmos nas grandes livrarias, nos deparar com a quantidade significativa de autobiografias, diários, correspondências, autoficções e toda a gama de textos que retratam o próprio autor. Essa prática de escrita é denominada, entre os críticos, de “escritas de si/do eu”, a partir do filósofo francês Michel Foucault.

Dentre esses textos destacados, um nos chama atenção: a autoficção. Esse gênero certamente se destaca entre as chamadas escritas de si, pelo fato de mesclar nas linhas de sua narrativa dois aspectos que, tradicionalmente, são considerados antagônicos: o real e o ficcional. O destaque é a ambiguidade dos fatos e a indecibilidade do leitor entre o que daquilo que está sendo contado é verdade e o que é falso.

Tal fato acontece uma vez que a autoficção lança-se de especificações próprias desse gênero, o que a faz tornar-se singular, apesar de frequentemente ser confundida com os romances autobiográficos ou até mesmo com as autobiografias. Assim, destacamos algumas das principais características desse novo gênero da literatura contemporânea.

1. A homonímia entre autor, personagem e/ou narrador Isso significa dizer, basicamente, que nas autoficções o nome do autor da obra é o mesmo que o do personagem principal ou do narrador. Esse fato por si já levanta muitas suspeitas ao fato que as peripécias que ocorrerão na trama já foram de alguma maneira vivenciadas pelo autor, dessa forma, o leitor sabe que nem tudo daquele texto é fictício. A homonímia nem sempre acontece com o nome próprio do autor, pode acontecer com o sobrenome, a inicial de seu nome e/ou sobrenome ou mesmo não haver essa homonímia, desde que o leitor perceba as referencialidades entre personagem ou narrador e o autor.

2. A referência e o destaque para o termo “romance” Acima de tudo, a autoficção se encontra no campo da ficção, do romanesco. Há um certo predomínio da ficção nessas narrativas, e podemos notar isto uma vez que na maioria delas o termo “romance” vem logo nas primeiras páginas. O próprio mentor do termo, o teórico francês Serge Doubrovsky, entende a autoficção como uma ficção de acontecimentos puramente reais, ou ainda como abordam outros teóricos, são ficções de si/do eu. A verdade é que esta característica da autoficção é mais um artifício usado pelo autor para se esquivar de qualquer acusação ou comprometimento que sua história pode render. Dessa forma, os autores constantemente trazem o termo para a apresentação de suas obras, muito embora este também deixa claro que são baseados em suas referencialidades.

3. O pacto entre autor e leitor A questão do pacto é abordada desde a obra “O pacto autobiográfico”, de Philippe Lejeune que afirma que nas autobiografias há um pacto feito entre o autor e seu leitor quando este se compromete em contar-lhe tão somente a verdade. De maneira parecida, uma obra para que seja considerada autofictícia é necessário que um pacto esteja presente na obra. Este pacto é chamado é o chamado oximórico e acontece quando fica claro na obra que há essa dupla jogada do autor entre ficção e realidade. É exatamente este pacto que causa a confusão no leitor que raramente consegue contornar os limites entre esses dois elementos.

4. A ficcionalização do autor O objetivo primordial do escritor que pratica a autoficção é se autoficcionalizar. Seja qual o motivo, o autor deste gênero usa sua vida, momentos delas, experiências angustiantes tristes ou alegres, fatos passados ou acontecimentos que lhe marcaram para criar uma história fictícia, a qual este é o próprio personagem e que leva seu próprio nome (na maioria dos casos). Diferente da autobiografia, a autoficção não descreve a vida inteira do escritor, ela se atém em alguns momentos específicos da vida do autor, como por exemplo, uma viagem, a infância, o início de uma nova vida ou acontecimentos marcantes (morte de familiares, separação, reencontro, etc.). Há traços da autoficção também em diversos autores da literatura brasileira e mundial (Clarice Lispector, Lima Barreto, Raul Pompeia, Roland Barthes, Marcel Proust), isso prova que tal tendência era presenciável desde o século passado, quando foi teorizad a partir de 1977 e, embora haja diversidades de conceitos e características até mesmo entre a crítica literária, a autoficção vem crescendo constantemente, garças a essa dualidade, essa ambiguidade e essa indagação pelo público leitor que, além de qualquer curiosidade, busca se encontrar na obra através de seu autor.


Anderson Guerreiro

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