literatura em movimento

Escritos sobre escritos, falados, (re)pensados.

Jéssika Laranjeira

Por que amar as obras de Lygia Bojunga?

Considerada um dos grandes nomes da literatura infantojuvenil brasileira, Lygia Bojunga traz em suas obras um reflexo poetizado das belezas e angústias dos seres humanos e sociais que somos, por isso ela ganha cada vez mais espaço não apenas nas nossas estantes, mas nos nossos corações.


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Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena os livros me deram casa e comida. Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo; em pé, fazia parede, deitado, fazia degrau de escada; inclinado, encostava num outro e fazia telhado. E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá dentro pra brincar de morar em livro. De casa em casa eu fui descobrindo o mundo (de tanto olhar pras paredes). Primeiro, olhando desenhos; depois, decifrando palavras. (BOJUNGA, p.8)

Lygia Bojunga é uma artista muito talentosa e querida pelos brasileiros, na literatura infantojuvenil está sua consagração como escritora, ainda assim, há quem a desconheça, por isso estão listados alguns motivos para amar suas obras:

Ela escreve muito bem

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Fui crescendo; e derrubei telhados com a cabeça. Mas fui pegando intimidade com as palavras. E quanto mais íntimas a gente ficava, menos eu ia me lembrando de consertar o telhado ou de construir novas casas. Só por causa de uma razão: o livro agora alimentava a minha imaginação. (BOJUNGA, p.8-9)

Aquela ideia de que para um texto literário ser bom tem que ter palavras difíceis não funciona com Lygia Bojunga, as obras dela são de um português claro e simples, quase como na oralidade, assim a leitura é fluida e até rápida. No entanto, mais do que conseguir escrever um bom texto usando palavras simples (até porque as obras dela comumente são voltadas para o público infantojuvenil), um fator que encanta é a incrível habilidade no uso de metáforas cativantes que, parando pra observar, são geniais! Dá vontade de abraçar cada metáfora e não soltar nunca mais.

As obras podem ser polêmicas e sensíveis ao mesmo tempo

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Todo dia a minha imaginação comia, comia e comia; e, de barriga assim toda cheia, me levava pra morar no mundo inteiro: iglu, cababa, palácio, arranha-céu, era só escolher e pronto, o livro me dava. (BOJUNGA, p.8)

Um ponto interessante em uma análise mais abrangente das obras é a presença de temas considerados polêmicos. Em "Sapato de Salto" e "O Abraço", por exemplo, nos deparamos com importantes questões a serem discutidas sobre a sexualidade na infância e o abuso que muitas crianças podem sofrer e/ou sofrem. Em "A Bolsa Amarela" notamos claramente as discussões de gênero diante da vontade da protagonista, Raquel, de ter nascido menino, bem como em "Tchau", quando uma mãe abandona os filhos (considerando que mães são muito mais julgadas por isso do que pais agindo da mesma forma). Em "Meu Amigo Pintor" temos a experiência de uma criança com a morte de uma pessoa querida, exemplo singular no que diz respeito ao caráter mais existencialista nas obras da autora. Em "O Sofá Estampado" podemos refletir sobre como estão nossos relacionamentos na modernidade, o quanto somos tomados pelo sistema sem nem perceber, o quanto modificamos nossa essência por qualquer motivo. Em "Os Colegas", primeira obra publicada, entendemos ainda mais a importância de ter amigos. Tudo sem muita "moral da história", a mensagem está lá por si só, ali pelas entrelinhas, as obras vão além, não são nem de longe adotadas medidas pedagógicas só porque são mais voltadas para crianças. Não mesmo. Muitas discussões acadêmicas são levantadas por conta disso, mas prefiro me ater à literatura pura e simples, por isso é melhor destacar: nas obras de Lygia tudo é muito encantador e escrito de uma maneira sensível, o que, muitas vezes por representações muito simbólicas (não digo nem por causa de eufemismos), termina por deixar o texto numa sensibilidade ainda mais forte.

Geralmente trata o mundo sob a perspectiva da criança

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Foi assim que, devagarinho, me habituei com essa troca tão gostosa que - no meu jeito de ver as coisas - é a troca da própria vida; quanto mais eu buscava no livro, mais ele me dava. (BOJUNGA, p.9)

O público de Lygia Bojunga geralmente é classificado como infantojuvenil, na verdade, ela é consagrada como uma autora de livros para esse público específico, sendo a primeira na América Latina a receber o prêmio Hans Christian Andersen, considerado o prêmio Nobel da literatura infantojuvenil. Estas classificações são discutíveis porque a obra de Lygia é universal, é para todo mundo, nem todas as obras são ao menos catalogadas como "infantojuvenil", como é o caso de "Aula de Inglês". O que talvez a faça mais conhecida como autora de um público infantil e jovem é o fato de a maioria de suas obras ser protagonizada por crianças. Este é um fator interessante porque algumas obras não apenas são protagonizadas por crianças como são narradas a partir do ponto de vista delas, a partir da forma como a criança enxerga e sente o mundo, como a criança age e tudo o mais que ela até não gosta mas que os adultos acham que ela adora (ser tratada com vários "inho" e "inha" o tempo inteiro, por exemplo). Esse aspecto não é regra, mas em boa parte das obras é muito presente e é lindamente desenvolvido.

Ela fundou uma editora que é casa de todas as suas obras

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A "Casa Lygia Bojunga" fica no Rio de Janeiro e foi fundada pela própria autora para abrigar suas criações. Desde a fundação da editora, todas as obras da autora foram relançadas com padronização de capa e formato, o que eu achei bem bacana porque, ao menos pra quem é ligado nesse lado estético dos livros (como eu), todas as obras juntas ficam como uma grande coleção muito gostosa de ver. Além disso, o modelo dos livros é simples, então são uma versão mais concreta da própria escrita de Lygia: simples e muito bonita! É legal também seguir a leitura da obra completa da autora porque pode acontecer de você encontrar referências à personagens de uma obra em outra, como acontece em "Os Colegas" e "Corda Bamba"; deste modo, visitando a "Casa Lygia Bojunga" (coisa que que ainda não fiz, mas é uma das minhas grandes vontades que acredito nem caber numa bolsa!), é possível encontrar um museu das obras, personagens, autora, todo mundo. Deve ser lindo!

Ela conversa com seus leitores

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Mas como a gente tem mania de sempre querer mais, eu cismei um dia de alargar a troca: comecei a fabricar tijolo pra - em algum lugar - uma criança juntar com outros e levantar a casa onde ela vai morar. (BOJUNGA, p.9)

Nestas novas edições, quando você etá ali no maior deleite lendo a obra, de repente surge um novo capítulo que corta o caminho da narrativa em alguns livros dizendo: "Pra você que me lê". Esses espaços são uma beleza... Simplesmente Lygia utiliza esse intervalo pra contar um pouco sobre o processo de criação, sobre alguns sentimentos e tudo mais que estreita a relação autor-leitor. Tem como não amar? Não, não tem. Além do mais, há uma obra inteira em que Lygia narra sua trajetória como leitora e como escritora, essa obra chama-se "O Livro - um encontro" (trechos dele estão espalhados por esse texto), ela já fez até espetáculo utilizando essa obra (a Lygia é atriz de teatro também), bem como "Dos Vinte e 1" e "Intramuros", belos reencontros na mais genuína essência do que é amar os livros.


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