literatura em movimento

Escritos sobre escritos, falados, (re)pensados.

Jéssika Laranjeira

Sou graduada em Letras - Língua Portuguesa e quase especialista em Língua Portuguesa e Literaturas.

Um olhar sobre Rita Baiana

Rita Baiana, personagem de "O Cortiço" de Aluísio Azevedo, é a projeção do estereótipo de "mulher mulata brasileira", a mulher bonita e sedutora moldada pela sociedade. Além da mera figura, porém, a partir de Rita Baiana temos começos de muitos caminhos de discussões no naturalismo brasileiro. Afinal, o que é que a Baiana tem?


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A priori, a palavra “naturalismo” foge do conceito comum da natureza que envolve fauna e flora e sua constante elevação nas obras literárias. Na verdade, o Movimento Naturalista trata do caráter natural do ser humano, por vezes instintivo quando este age fora dos princípios morais que a sociedade acredita que se deve cumprir, onde se eleva o aspecto científico antes mesmo do social, o que lhe é inato.

Na segunda metade do século XIX, a sociedade burguesa ascendia e, influenciada pelo positivismo de Comte, pelo determinismo de Taine e pela teoria da evolução das espécies de Darwin, procurava pelo caráter científico e realista do mundo, então, acompanhando tais mudanças sociais e, consequentemente, ideológicas. Aos poucos o Naturalismo, junto ao Realismo, começou a ser mesclado na literatura. Poucos aspectos separam os dois movimentos citados, tendo em vista mais semelhanças que diferenças entre ambos, enquanto o Realismo mostrava o natural do homem, mas em maior interação ao meio social e, talvez, maior racionalidade, o Naturalismo mostrava o homem de uma maneira mais animalesca, instintiva e inconsequente mesmo em meio social, considerando a hereditariedade e o meio em que se vive como justificativas para tais características, tornando-as meros fatos impossíveis à mudança.

Um dos maiores representantes do Naturalismo no Brasil, assim como o paraense Inglês de Souza, foi Aluísio Azevedo (por vezes influenciado pelo poeta português Eça de Queiróz). Dentre muitos escritos naturalistas de destaque (“O Mulato”, publicado em 1881 e “Casa de Pensão”, publicado em 1884), é a obra “O Cortiço”, de 1890, o foco da discussão neste espaço, mais especificamente a personagem Rita Baiana. Considerada uma das mais venturosas do movimento, “O Cortiço” expõe a miséria econômica e social especialmente do negro e do mestiço explorados diante da crescente burguesia do país sem muitas encobertas, sendo um romance tanto social, quanto crítico-político.

A calorosa mulata de "gamma circus"

Rita Baiana é o comum estereótipo da mulher brasileira: bonita, sensual, atraente, alegre, sociável, gosta de pagode, de danças, bebidas e de estar cercada de amigos. Rita, que como diz o nome, veio da Bahia, do princípio do Brasil colonizado, representada na bandeira do país pela estrela "gamma circus", uma das mais brilhantes da constelação do Cruzeiro do Sul, por conta disto, Rita pode ser interpretada por tal conexão vexilológica e astronômica que a descreve bem como mulher que “brilha”, encanta os homens e desperta em muitas mulheres a vontade de tê-la como amiga (e o contrário) ou a indagação de onde viria tanta simpatia e tanta beleza de todas as formas.

Cercavam-na homens, mulheres e crianças; todos queriam novas dela. Não vinha em traje de domingo; trazia casaquinho branco, uma saia que lhe deixava ver o pé sem meia num chinelo de polimento com enfeites de marroquim de diversas cores. No seu farto cabelo, crespo e reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um pedaço de baunilha espetado por um gancho. E toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril baiano, respondia para a direita e para a esquerda, pondo à mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador. Acudiu quase todo o cortiço para recebê-la. Choveram abraços e as chufas do bom acolhimento. (p.38-39)

Neste trecho é descrita a chegada de Rita Baiana no cortiço depois de alguns meses sumida do local. A recepção explicita o quanto ela cativara seus vizinhos. Rita não é uma protagonista como João Romão, mas também não é uma personagem secundária como é Botelho, Rita é uma personagem “anáfora”, ou seja, só é realmente entendida com o desenrolar do conflito em sua relação com as outras personagens, é o “objeto desejado” (para Firmo e Jerônimo), segundo a classificação de Sourian e Popp (ver “A personagem” de Beth Brait, 1998), mas que de certa forma também conduz o conflito predominante do proletariado da narrativa; enquanto João Romão e Miranda conflitam pela burguesia, Rita conflita em meio ao cortiço, em meio aos cavoqueiros e às lavadeiras. Assim, mais uma vez o caráter naturalista de o meio fazer o ser.

Com a chegada de Jerônimo, um português zeloso por sua mulher e filha que precisou afastar-se dos dois para estudar, Rita Baiana, a esta altura amigada à Firmo, fez do português um homem apaixonado desde que a vira dançar numa noite de festejo entre os amigos; Jerônimo tomou os costumes dos brasileiros e tinha preferência pelos feitos de Rita aos da mulher Piedade, que sofria silenciosamente a medida que percebia o sentimento do marido. Rita, a princípio, rejeitou o português, mas com isso o atiçava mais, provocou o ciúme de Firmo, pouco importou-se com Piedade e acabou cedendo aos sentimentos por Jerônimo, estando agora disposta a ficar com ele que, a esta altura, estava em observação num hospital depois que Firmo o feriu numa briga gerada por ciúme.

Rita, de certa forma, poderia evitar tantos conflitos por sua causa, mas saber que dois homens lutavam à morte por ela a agradava, soltando leves sorrisos em cenas de ciúme. Rita, Firmo e Jerônimo estavam instintivos como animais selvagens, onde a fêmea espera que o macho mais forte mate o mais franco e tenha por merecimento seu corpo e sua fertilidade. Assim se sucedeu: Jerônimo matou Firmo. Ao encontrar com Rita após o acontecido, já tendo evitado Piedade que não dormiu de preocupação pelo seu sumiço, Jerônimo diz que cometeu tal assassinato e Rita não se choca, não reclama ou repudia tal atitude, mas acata sem pestanejar enquanto prepara-se para sua primeira relação sexual com o homem que agora a merecia, sentindo-se, de certa forma, privilegiada por este ser europeu enquanto ela era uma simples mulata brasileira; assim surge outro caráter naturalista: a hereditariedade determina o ser.

Rita baiana, Rita brasileira

A crítica por detrás da personagem levanta questões de estereótipo muito discutidas em diversos artigos, um deles, “A trajetória do negro no Brasil”, de Simone Rezende, Rita é citada como sensual, como objeto de desejo, partindo do pressuposto que a negra ou mestiça nascida no Brasil tinha esse papel erótico, enquanto as mulheres brancas seriam bem menos fogosas. Além das características a nível sexual, há também a maneira de lidar com as pessoas e a rebeldia de pensamento para a época: Rita não quer casar, “casar pra quê?”, dizia ela, contradizendo totalmente a mulher exposta no movimento anterior ao Realismo/Naturalismo, o Romantismo, onde a mulher era submissa e “intocável”. A este respeito pode-se classificar até mesmo Bertoleza, que era submissa mas que reclamou seus direitos quando descobriu os planos de João Romão a seu respeito, traçando, mesmo sendo essa sua maior e mais significante fala em toda a narrativa, o caráter realista/naturalista da personagem.

Nos anos 70, John Neschling e Geraldo Carneiro compuseram a canção “Rita Baiana”, cantada por Zezé Motta; a canção é inspirada na personagem e retrata de uma forma descontraída a sensualidade e a fogosidade da mulata. Segue um trecho:

Olha meu nego / Isso não dá sossego / E se não tem chamego / Eu me devoro toda de paixão / Acho que é o clima feiticeiro / O Rio de Janeiro que me atormenta / O coração / Eu nem consigo nem pensar direito / Com essa aflição dentro do meu peito / Ai essa coisa que me desatina / Me enlouquece, me domina / Me tortura e me alucina / E me dá/ Uma vontade e uma gana dá / Uma saudade da cama dá / Quando a danada me chama / Maldita de Rita Baiana

Deste modo, Rita é a clara representação do constante idealização de mulata brasileira, sorridente não importando as mazelas da vida, ela é a sedução, a exaltação da beleza e do preconceito velado, na época, pelas comprovações científicas da inferioridade do negro e seus mestiços combinadas a comum aceitação do branco europeu como mais forte. Em 1890 Rita Baiana ganhava forma definitiva na escrita de Aluísio Azevedo. Ela não é mais mutável. Ela é o que está escrito. Ela é uma representação. Uma projeção do pensamento popular da época. Rita é uma crítica a ser lida, a ser refletida, a ser repensada. A questão agora é: Passados 127 anos de “O Cortiço”, como não dizer, infelizmente, que o mesmo estereótipo da “mulata brasileira” ainda é usado como uma espécie de “cartão postal” do país? É questão para fazer pensar, um dos poderes da literatura.


Jéssika Laranjeira

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