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Literatura e outras artes

Jéssica Cassemiro

Literatura e outras artes

TOLSTÓI EM TEMPOS MODERNOS

Em tempos de modernidade líquida em uma sociedade inegavelmente doente, viver a experiência de ler Tolstói é um sopro rumo à libertação das mentes condicionadas e um mergulho profundo para dentro de si mesmo.


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O escritor russo Lev Tolstói (1828-1910) foi – e permanece – um dos maiores nomes da literatura mundial. Apesar de ser reconhecido como grande romancista, Tolstói angariou seguidores na Rússia por suas convicções políticas e filosóficas, além de sua luta pacifista e seus ideais contra a violência. Seu senso crítico em relação às instituições sociais como Estado e a Igreja revolucionaram pensamentos à época. Tolstói é considerado um escritor à frente de seu tempo, objetivando uma literatura realista, não hesitando em aprofundar e explorar temas moralmente complexos, deixando o papel de simples escritor e tornando-se um pensador social.

Além disso, dedicou anos de sua existência e grande parte de suas obras em busca do sentido da vida e por diversas vezes, contestou o papel da arte e da literatura, chegando a acusá-los de legitimadores de desigualdades sociais. Quando essas questões se tornavam sufocantes, Tostói permanecia longos períodos sem produzir ou escrever. Por esse motivo, o igualmente genial Ivan Turguêniv, em seu leito de morte em 1883, escreveu a Tolstói: “Faz muito tempo que não lhe escrevo porque tenho estado e estou, literalmente, em meu leito de morte. Na realidade, escrevo apenas para lhe dizer que me sinto muito feliz por ter sido seu contemporâneo, e também para expressar-lhe minha última e mais sincera súplica. Meu amigo, volte à literatura!” Desse apelo surgiu a inebriante obra A morte de Ivan Ilitch.

É inegável perceber como Tolstói fez - e faz - diferença no mundo literário. Seus trabalhos permeiam uma extensa gama de relações sociais, desde convívios conjugais e familiares de forma geral, como a tênue e delicada relação entre o sentido da vida e a iminência de morte.

São esses cenários explorados pela mente de um gênio que, em tempos de modernidade líquida, produzem marcas indeléveis e deletérias em nossas almas. Em tempos em que nada é feito para durar e que as pessoas deixam de sentir para apenas existir, Tolstói capta a essência e a verdade humana, esquadrinhando desde o lado mais puro do ser humano até seu perfil mais subversivo.

Seus personagens extremamente bem construídos, com sentimentos expostos à flor da pele como um ferimento impossível de remediar, nos remete às nossas reflexões mais profundas que por muitas vezes deixamos de lado sem darmos o verdadeiro valor ao seu significado. Afinal, em um mundo tão tecnológico como o que vivemos, em que sempre se objetiva o efeito para o mundo exterior – e pouco sobra para o eu interior – ler Tolstói é um grito de liberdade em meio à desordem humana.

No profundo caos instalado atualmente, encontramos um pingo de sanidade em seus trabalhos, seja para narrar um cenário de guerra, como em Guerra e Paz, seja para relativizar os presságios da morte como em A morte de Ivan Ilitch ou para colocar em xeque a perspicácia humana como em Anna Karenina. De um jeito ou de outro, Tolstói busca, por meio da complexidade, atingir o âmago das questões mundanas, trazendo à tona dúvidas e sentimentos esquecidos pelo homem.

Estamos em uma grande era digital de acesso tecnológico, mas nunca confundimos tanto os valores. O que hoje parece importar é a forma como a sociedade nos vê e como precisamos arduamente provar quem somos, e o preço que se paga por aceitar essa condição é o de relações cada vez mais distantes e automáticas. Pouco se sente em uma sociedade que sobrepõe o material à moral, que prioriza tecnologia às relações humanas e, apesar da sensação de estarmos conectados uns com os outros o tempo todo, estamos, na verdade, profundamente distantes. É por isso que Tolstói é tão atual. Apesar de suas obras se ambientarem por volta do final dos anos 1800, em um contexto econômico-social diferente do que vivemos hoje, a construção dos pensamentos e de seus personagens resgatam a profundidade das relações humanas, nos levando ao questionamento sobre o que é felicidade, lealdade e fidelidade. É o que retrata esse pequeno trecho retirado de sua obra, Anna Karenina: “Logo se deu conta de que a realização de seus desejos lhe proporcionara apenas um grão de areia na montanha da felicidade que havia esperado. Tal realização revelara a ele o eterno engano cometido pelas pessoas que imaginam alcançar a felicidade por meio da realização dos desejos ”.

Tolstói preocupava-se com a colocação das situações, todas as intempéries e dissabores de uma vida, todo o livre arbítrio que nos leva ao nosso melhor e ao nosso pior. Quando entramos em seu mundo, temos a sensação de que suas obras falam diretamente com a nossa alma, com nossos segredos e desejos que, não raras vezes, deixamos de lado por que a vida passa rápido demais ou exige demais. A bem da verdade, Tolstói nos mostra que diante de uma sociedade cujas imposições sociais se sobrepõe ao desejo individual, não podemos nos apequenar perante nossos sentimentos. Precisamos desesperadamente deles para encontrarmos o sentido da nossa vida e só assim, vivenciarmos a real experiência de existir.


Jéssica Cassemiro

Literatura e outras artes.
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