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Literatura e outras artes

Jéssica Cassemiro

Literatura e outras artes

dormi com scott, acordei com zelda

Sob o famoso jargão "a vida imita a arte", Scott e Zelda Fitzgerald foram a personificação da obra O Grande Gatsby e da obsessão por uma vida badalada e tempestuosa. E o preço que se paga pela escolha da vida que se leva, pode ser mais parecido com a arte do que se imagina.


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Francis Scott Fitzgerald (1896 - 1940) tornou-se um nome de peso na história da literatura americana após a publicação de sua maior obra O Grande Gatsby, em 1925, dando início a uma proeminente carreira literária. Ele e sua esposa, Zelda Fitzgerald, juntaram-se à elite intelectual da época, conhecidos como Geração Perdida, cuja criação foi inicialmente atribuída à Gertrude Stein, e era composta por expoentes do mundo das artes que, após o final da Primeira Guerra Mundial, encontraram na Europa o refúgio necessário para criarem novas discussões criativas, expressões artísticas e manifestações literárias.

Apesar de toda a popularidade conquistada por meio da publicação de seus trabalhos, é no estilo de vida que Scott e Zelda realmente se destacavam e que lhes rendeu a reputação que permaneceu viva ao longo dos anos. Sob o estilo a vida imita a arte, Scott e Zelda levaram uma vida semelhante à dos protagonistas de O Grande Gatsby. A prova disso é a anedota famosamente conhecida, cunhada por Woody Allen, que soube captar a essência dos ícones da Geração Perdida “Francis Scott e Zelda Fitzgerald voltaram pra casa, após uma tresloucada festa de réveillon. Era abril”.

Scott e Zelda viviam à maneira de Gatsby - em meio a suntuosas festas, luxuosas companhias e rodeados pelo glamour da elite - pouco importando se voltavam para casa quase sempre bêbados o suficiente para não se lembrarem de nada do que aconteceu na noite anterior. Mas era no dia seguinte – aquele que muitas vezes protelamos para que chegue - que morava o real drama dos Fitzgerald e, também, de Jay Gatsby. Isso porque o mundo da luxuria e dos devaneios inconsequentes e superficiais tem seu preço e o custo para mantê-lo é alto. Ao final da festa, após o apagar das luzes e os dispersar dos convidados, mora uma solidão extrema, uma sensação de isolamento e de incompreensão. Pouco importava a Gatsby – ou Scott – quanta farra podiam ter em uma noite, pois o vazio que restava, o sofrimento que ninguém conhecia, era o que os assombrava dia após dia.

Scott e Zelda protagonizaram um casamento obsessivo. Grande parte dos conflitos versavam sobre o uso do relacionamento dos dois e de cartas e fragmentos do diário de Zelda como peça principal das obras de Scott. Zelda sentia que sua capacidade e esforços literários eram diminuídos pelo marido e o acusava constantemente de plagiar sua vida para produzir seus escritos.

Gatsby e Daisy viviam à mercê do passado, das possibilidades que poderiam ter mas não tiveram. Queriam resgatar um sentimento que ficou para trás diante toda a opulência da vida que levavam, tornando-se irremediavelmente obcecados pela possibilidade do reencontro.

Na arte, Gatsby morreu. Vítima das próprias escolhas, da falta de sensibilidade alheia, e da prepotência daqueles que o cercavam. As festas homéricas não foram suficientes para que caísse no esquecimento e no abandono quando de sua morte.

Na vida, Scott sucumbiu ao alcoolismo e Zelda rendeu-se à loucura, caindo no ostracismo. Apesar do imaginário coletivo acreditar que Scott e Zelda representavam o casal ideal da Era do Jazz, na realidade – assim como Gatsby e Daisy – os relacionamentos construídos na superficialidade e no ímpeto de ostentar para o mundo exterior uma felicidade inexistente, cobrou um preço alto, transformando potenciais relações bem-sucedidas em uniões cheias de amargura e comiseração.

Anos após da publicação de Gatsby e da morte de Scott e Zelda, parece que vivemos repetidas vezes o mesmo dilema, sempre voltando ao mesmo ponto. O mundo parece não ter percebido que a felicidade não vem em taças de champagne, mansões gigantescas e festas de arromba. Pelo contrário; é exatamente no silêncio que muitas pessoas procuram evitar que a felicidade reside. A lição que se pode tirar é que pouco importa o carro que outro tenha, a casa que o outro more e a vida que o outro aparenta ter, no fim das contas, no fim do dia, é quem somos e, principalmente, quem fica ao nosso lado quando as cortinas do show se fecham que realmente vale. Mas, como Scott diria, “(...) E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado”.

Talvez, lá no fundo, muitos sejam Scott à meia-noite e Zelda pelas manhãs. Sempre querendo uma vida estrondosa, que nos tire da rotina e do comodismo, nem sempre aceitando a realidade quando a vida dos bastidores dá as caras e mostra o que é de mentira e o que é de verdade.


Jéssica Cassemiro

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