lívia mendes

Alimentando a alma, aquecendo o coração e instigando o pensamento

Lívia Mendes

Arquiteta e urbanista que se apaixonou por observar e registrar as pessoas, a natureza e o construído em convívio. Nas esquinas dos encontros, nos sorrisos espontâneos, na simplicidade do florescer...um ser em descoberta constante.

Das inutilezas

Ontem era a cobrança sobre boas notas na escola e ótimos resultados no vestibular. De uma boa aluna, veio a cobrança por um emprego de salário digno. O carro do ano aliado à casa bem planejada foram conquistados. O corpo perfeito de modelo de capa de revista já era cobiçado. E por fim, perguntava-se: quanto de vida há nessa história que construí?


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Havia uma nova cidade, uma outra incrustada em uma maior. Era tão grande e bela como a noticiada nos jornais; tão intensa quanto a apresentada pelos turistas. O litoral era recortado e verdes montes destacavam-se em meio a um belo azul cristalino de suas águas. As pessoas caminhavam no calçadão e as crianças sentiam o frescor da leve brisa. Muito esporte e pouco sedentarismo. Uma áurea de muito glamour desfilando por suas ruas, muitos flashes em qualquer canto. Muito bronze na pele de seus habitantes e o inconfundível “esse” acentuado das palavras, havia localidade no ar.

Ideias predeterminadas confundiam a mente dos paulistas e mineiros. Corra, espie, olhe para trás, não vá só, não dê bobeira...e mais e mais cautela. Cautela para não tropeçar no seu próprio medo. Não é para manter o descuido ou para se entregar a qualquer sorte, mas não se esqueça de viver e sentir a beleza natural. Trancafiado em um apê de menos de 50m² e acostumado a visualizar todo o seu entorno em uma simples piscadela, deixou de saber o que poderia vir a ser liberdade. Liberdade em respirar um pouco mais do que o comum, em sentir prazer mesmo sem retirar da carteira alguns poucos trocados, em ouvir o silêncio.

Diríamos que são inutilezas, mas que inutilezas úteis essas!

Quanto tempo você já arremessou para o alto ouvindo o cantar de um sabiá? Ou melhor, você sabe o que é um sabiá? Quantas palavras você deixou de dizer para escutar o que um vendedor ambulante teria para dizer? Quantos sorrisos você deixou que apaziguassem seu coração? Quantos cânceres você já evitou respirando fundo antes de referir-se a alguém com ódio em suas palavras ou com sangue nos olhos?

Pode-se dizer que são inutilezas, porque priorizamos na vida tudo o que apresenta uma finalidade concreta. Trabalhar para obter dinheiro; praticar exercícios físicos para apresentar o corpo perfeito; privar-se de certos alimentos para estar nos moldes do manequim. Aí sim, transformar o ser humano em uma máquina perfeita, livre de momentos para manutenção, elogiável por pessoas de status.

Poderia ser até uma equação sem desigualdades, onde se encontraria a solução para se levar uma vida completa sem quedas emocionais, capazes de anular todo o esforço restante, uma destruição desenfreada. Doentes de alma, nós, seres humanos, chegamos ao fim em pouco tempo, caímos no abismo infindável. Não há escapes, não há um momento divertido para compartilhar com queira ouvir sua voz emaranhada de experiência. Não há pensamentos ou descobertas, que ocorrem em momentos de devaneio, em meio à natureza, à tranquilidade.

Sempre há tempo para respirar. Escrever nem sempre compra o pão de cada dia, mas pode causar alegria. Uma alegria contagiante que esclarece objetivos e desmonta a tristeza de alguns instantes.

Dizem que é preciso estudar quatro idiomas ao menos, que dançar é perda de tempo, que aquele livro não apresenta conteúdo do vestibular, que música é distração, que somos imbecis. Se todos eles estivessem certos, não estariam reclamando pelas consequências que suas escolhas geraram. Talvez não existam certezas, apenas a de que não há verdades absolutas. Enquanto ganhar o suficiente para sobreviver pode ser o cúmulo da pobreza para uns, outros se alegram em poder comprar o seu alimento todas as vezes em que precisam. Enquanto uns dividem o pão com seu próximo, outros esperam um tempo que pode nem mesmo chegar e se corrompem com os excessos.

Ainda falta perceber que não existe um cartão de crédito que parcele os ganhos de um dia bem vivido e sentido.


Lívia Mendes

Arquiteta e urbanista que se apaixonou por observar e registrar as pessoas, a natureza e o construído em convívio. Nas esquinas dos encontros, nos sorrisos espontâneos, na simplicidade do florescer...um ser em descoberta constante..
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