lívia mendes

Alimentando a alma, aquecendo o coração e instigando o pensamento

Lívia Mendes

Arquiteta e urbanista que se apaixonou por observar e registrar as pessoas, a natureza e o construído em convívio. Nas esquinas dos encontros, nos sorrisos espontâneos, na simplicidade do florescer...um ser em descoberta constante.

Precisamos de símbolos trágicos para sermos movidos?

A situação dos refugiados, que tem presença constante nas manchetes dos jornais, foi escancarada diante de uma imagem. Sem voz, o silêncio falou por todos e contagiou os habitantes de uma mesma pátria, os seres humanos.


Refugiados.jpg Desenho pela própria autora

Os primeiros dias de setembro de 2015 foram marcados pela imagem de um pequeno garoto encontrado morto em uma praia turca após o naufrágio da embarcação que o levava, assim como a sua família e outros tantos imigrantes, em uma viagem em direção a um local chamado esperança.

Arraigados somos com relação ao nosso lar e família, sentimos o pertencimento e sabemos que, mesmo viajando a passeio ou estudo, temos o nosso refúgio nos esperando naquele mesmo local. Sentimos o mesmo com relação ao país em que vivemos, associando-nos à língua utilizada, como que tivéssemos uma marca inconsciente que nos faz querer estar naquele aglomerado de pessoas para nos completarmos.

Quando nos deparamos com o noticiário ou com as imagens que circulam todos os meios de comunicação em uma rapidez indescritível, não deixamos de nos perguntar: qual é a realidade vivida por aquelas famílias que arriscam tudo o que têm (material e moral) para tentar liquidar o passado?

Pode até parecer que trata-se de uma pessoa que se isolou dos acontecimentos recentes e se esqueceu de acompanhar os desastres provocados por guerras, por fanatismos, por intolerância perante a opinião do próximo, por querer impor a sua verdade a toda uma nação. Mas não, quem não está por lá, fica distante da realidade.

Como deixar seus companheiros de jornada, seu trabalho, sua casa conquistada com tanta luta, sua língua, sua cultura, seu cotidiano e tentar o incerto sem hesitar? Você precisa estar preparado por se afirmar apenas com o pouco que pode ser levado, esquecer quem é, deixar o seu "nome limpo" para trás porque estará infringido as regras, se o seu plano der ou não certo, será um ilegal.

Como conversar com seus filhos pequenos, de 3 e 5 anos, que agora a realidade vai ser outra e que partirão para uma viagem na qual permanecerão por um tempo maior fora de casa; que os coleguinhas não os verão mais; que, na escola, a professora não mais explicará os exercícios com as mesmas palavras; que os tempos mudaram? "E o futuro não é mais como era antigamente", parafraseando Renato Russo.

Como é afirmar com toda convicção para a sua esposa que o plano B é o próximo passo, depois de perceber que encarar mais um dia naquela realidade não é possível, sendo que em seu interior, um coração apertado se contorce para não extravasar a tristeza que nele se aloja ao proferir cada uma de suas palavras.

Como é para uma pessoa saber que a felicidade do irmão, pautada exclusivamente em sua família, foi interrompida no mesmo instante, em três apagões? Saber que a ajuda financeira não foi suficiente para atravessar as quatro vidas para um local adequado à liberdade humana?

Hoje todos choram por dentro e querem uma nova realidade, todos se sentem acorrentados ao mar de lágrimas que que inunda a alma em busca de respostas práticas para transformar a realidade. As mesmas águas que carregaram os corpos do pequeno garoto, de seus familiares e de seus conterrâneos lavam o nosso ser e nos enchem de vontade de mudar o futuro, de revolucionar os seres humanos que habitam a Terra.

Esperança temos que o desejo em sermos melhores não se perca em meio às notícias diárias, mas que busquemos começar em nós mesmos a revolução que tanto desejamos. Não adianta querer consertar o mundo sendo que ainda somos reféns de sentimentos de intolerância e preconceito. Como querer a paz dentro das nações se não sabemos lidar com sabedoria com as palavras que deixamos sair de nossas bocas, capazes de desencadear conflitos e sentimentos de ódio?

Que o pequeno garoto possa sentir-se orgulhado dos próximos capítulos da História, da transformação das atitudes humanas que ele próprio pode semear em nossos corações.


Lívia Mendes

Arquiteta e urbanista que se apaixonou por observar e registrar as pessoas, a natureza e o construído em convívio. Nas esquinas dos encontros, nos sorrisos espontâneos, na simplicidade do florescer...um ser em descoberta constante..
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