lívia mendes

Alimentando a alma, aquecendo o coração e instigando o pensamento

Lívia Mendes

Arquiteta e urbanista que se apaixonou por observar e registrar as pessoas, a natureza e o construído em convívio. Nas esquinas dos encontros, nos sorrisos espontâneos, na simplicidade do florescer...um ser em descoberta constante.

Para sempre

Em meio a passagens e paradas, sobrevivemos apenas. Deixamos a racionalidade preponderar e ditar as regras, somos quase que seres inanimados que, ligados logo pela manhã, seguimos sem sentir e saber que sempre podemos mais. Ainda bem que filmes, livros e, infelizmente, as histórias das vidas de outras pessoas, podem fazer aquele alarme, proveniente do coração, soar rotineiramente em nossas mentes: você está vivendo e se entregando por completo ou apenas sobrevive?


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É assim, a última linha dos contos de fada termina desse jeito: “E viveram felizes para sempre”. E assim crescemos com a expectativa de que os contos sejam uma réplica da vida. Achamos que filmes e novelas não floreiam um pouco além do roteiro. Criticamos os reveses com os quais tropeçamos e não olhamos para trás.

Em detalhes, por entre as estantes de uma já quase rara locadora, descobrimos um filme. Conhecido por algumas palavras de críticos...Aquele parece bom! – penso, focando o olhar em “Para sempre Alice” (Still Alice).

A gente começa com um certo preconceito a sessão cinema, não tem como. Preconceito sim, atriz “de ponta” (Julianne Moore) e com um tema um tanto dramático.

Comovente é poder sentir as palavras ditas em uma das cenas mais emocionantes. Naquele discurso, passamos pela mente da protagonista e quase nos perdemos de nós mesmos. O que é se tornar cômico diante das pessoas ou ser visto com olhos de pena? E aquela sensação de sentir-se definhando? Ver o tempo desfazendo o que éramos, uma mente brilhante (no caso dela). É um alarme acusando que ainda há um pouco a se viver. A possibilidade de fazer tudo o que queríamos e deixamos para depois, algo que passa por nossas cabeças mesmo que sadias.

Amanhã, amanhã e amanhã...aquilo que não traria dinheiro, que não levaria a uma consequência “mais importante”. Deparamos com a cena em que ela se delicia com um doce e o marido a faz uma pergunta. Havia uma mensagem nas entrelinhas daquela frase finalizada com um ponto de interrogação, apenas uma pessoa com a sua inteligência entenderia. Mas a resposta veio como que a de uma criança:

- Já temos que ir embora, ainda não terminei!

Já não havia a mesma Alice. Mas, ao mesmo tempo, nessa passagem, percebe-se como é possível viver intensamente cada instante. Impressionamo-nos quando a felicidade de uma criança é oriunda de uma ação que parece tão boba para nós, adultos. Até parece que os papéis foram invertidos. Quem está realmente vivendo e se entregando por completo? Quem apenas sobrevive?

Observando o quão breves são os momentos em que podemos sentir a vida por entre o nosso ser, fica explícita a associação do tema com a figura de uma borboleta.

“Quando eu era bem nova, na segunda série, minha professora falou que borboletas não vivem muito, algo em torno de um mês, e fiquei tão chateada. Fui para casa e contei para a mamãe. E ela disse: ‘É verdade. Mas elas têm uma linda vida’.

Das mesmas vozes de onde ecoam críticas eloquentes sobre a grandeza de certas passagens, saem também críticas contundentes sobre a sua superficialidade, mas assim sempre é. Como não somos experts no quesito filmes, ficamos com as lições que podemos levar.

Espero por dias vividos com mais intensidade e menos desânimo. Que haja ânimo por viver o que é simples com a mesma grandeza dos grandes eventos.


Lívia Mendes

Arquiteta e urbanista que se apaixonou por observar e registrar as pessoas, a natureza e o construído em convívio. Nas esquinas dos encontros, nos sorrisos espontâneos, na simplicidade do florescer...um ser em descoberta constante..
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