VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

Ela tem uma história

Ela podia ser sua mãe, sua irmã, sua esposa, sua filha... E ela está machucada.


Entendo que há, sim, homens com boa intenção (tentando não ser desrespeitosos) e que simplesmente querem que as mulheres saibam que são bonitas. Eu imagino que estes homens não queriam ofender, que são maridos, irmãos, pais, filhos, amigos... Mas, na rua, sozinha, sem conhecer, eu não sei disso, nem tenho como saber!

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É assim que o medo se instaura. O que ele quis dizer com o assovio? Estou em perigo? Vivo em um mundo que as notícias nos mostram homens que, quando querem, fazem de tudo para conseguir o que lhes interessa. Imagino (persisto - apesar de tudo - imaginando, esperando!) que haja pessoas bem intencionadas. Mas como os diferenciar dos agressores? Não tem como!

Um “elogio” só é agradável de quem a gente conhece, quando sabemos as reais intenções daquilo. Se um amigo elogia minha roupa, eu agradeço e fico contente. Gosto de ouvir coisas bonitas de um irmão, do pai, do filho... Deles! Os que me querem bem, que fornecem um contexto seguro (por mais triste que isto soe).

Um assovio que seja se torna um pânico enquanto caminhamos para o trabalho. Parece drama para algumas pessoas, mas pense bem: se alguém viesse tomar iniciativa com você, logo pensaria no pior. Querem assaltar, pedir resgate, bater... Talvez isso elucide, especialmente aos homens, a sensação que muitas mulheres têm na rua.

Pode ser a melhor pessoa do mundo querendo fazer um agrado. Mas como saber? É essa a aflição. Por isso os pedidos para que simplesmente não façam. Para você, mais uma pessoa e mais um dia. Para uma mulher, pode significar um abismo entre a liberdade e a prisão psicológica do medo.

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Piora ainda mais com o sentimento de culpa que tentam colocar nas mulheres (não responsabilizando apenas os homens, muito mesmo todos eles. Sei que é um grupo que tem dado uma má imagem ao todo).

Quando uma mulher se arruma, ela quer, sim, ser notada. Notada por quem a ama, por quem a quer bem. Não pelo primeiro que passa. Da mesma forma que, em geral, não mandamos para aquele lugar o cidadão, gostaríamos que alguns sentimentos e opiniões ficassem guardados. Não estamos interessadas.

Podemos estar de minissaia, vestido, calça, blusa decotada, burca... Acho que, dentre as mulheres, apenas as freiras são respeitadas (espero!). Não importa o que usemos, sempre haverá alguém que se acha no direito de fazer um comentário (“linda” é o mais suave!).

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Às vezes, pergunto-me: “será que ele não pensa que podia ser alguém da família ou do convívio dele?”. Quem sabe esse seja o problema. Se fosse a mãe ou a esposa dele, aposto que elas iriam gostar. Saberiam que era amor, que era amizade e companheirismo. Não interesse. Não ameaça!

“Mas minhas intenções não eram ruins!”. Eu sei. Mas entenda que nem todos pensam assim e, culturalmente, fica inevitável não se sentir presa, insegura. Da mesma forma que o médico desumano pode denegrir a imagem de toda uma classe; como o policial corrupto dificulta o trabalho de muitos heróis por aí; o homem mal intencionado destruiu a imagem dos demais.

Não são as mulheres que estão calando a opinião dos homens quanto a outras mulheres, são outros HOMENS que o estão fazendo. Se há inimigos, são estes – tantos das mulheres quanto dos bons homens.

Peço para que continuem refletindo sobre isso. Para que esse texto não seja um testemunho da sua mãe, sua irmã, sua esposa, sua filha...

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Antes de cantar “She’s not just a pretty face”, certa vez, Shania Twain contou de sua infância. Das noites em que a mãe levava sempre as crianças ou outra pessoa para abastecer o carro por medo. Medo do desrespeito, da dor, da maldade, da desumanidade que a humanidade insiste em demonstrar (por maior que o paradoxo seja - e é!).

O título é bem provocativo, “Ela não é APENAS um rostinho bonito” - o que não significa que não deva ter um:

“Ela apresenta um programa de TV; Ela monta no rodeio; Ela toca baixo em uma banda; Ela é uma astronauta; Uma manobrista de estacionamento; Uma fazendeira trabalhando a terra; Ela é uma campeã; Ela ganha o ouro; Ela é uma bailarina; A estrela do show;

Ela não é só um rosto bonito; Ela tem tudo que precisa; Ela tem uma linha fashion; Uma jornalista da "Time"; Treina um time de futebol; Ela é uma geologista; Uma escritora de romance; Ela é mãe de três; Ela é uma soldada; Ela é uma esposa; Ela é uma cirurgiã; Ela salvará sua vida

[...]

Ela é a mãe da raça humana

Ela não é só um rostinho bonito

[...]

Ela é toda mulher no mundo”.

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Outra música que lembra o valor da mulher (que não compete com o do homem) – da mãe, da esposa, da amiga – é “Eagle When She Flies”, cantada por Dolly Parton:

“Ela viu e fez de tudo

[...]

Seu coração é tão suave como penas

[...]

Um caleidoscópio de cores

[...]

Mas você nunca vai mantê-la para baixo

Ela é uma amante, ela é uma mãe

Ela é uma amiga e ela é uma mulher

E ela é um pardal quando ela está quebrada

Mas ela é uma águia quando voa

Suave como a magnólia doce

Forte como o aço, a sua fé e orgulho

Ela é um ombro eterno

[...]

Ela se machuca profundamente e, quando ela chora,

Ela é tão frágil como uma criança”.

E termino com a eterna esperançosa Delta Dawn, que se interessa e busca um homem (não qualquer homem, o que ama):

“Delta Dawn, que flor é essa que você segura

Poderia ser uma rosa murcha de dias passados

[...]

Ela tem quarenta e um anos e seu pai ainda a chama de "seu bebê"

Todas as pessoas ao redor de Brownsville dizem que ela é louca

Porque ela anda pela cidade com uma mala na mão

À procura de um misterioso homem de cabelos escuros”.

Porque todas têm uma história. ela6.jpg


VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história.
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