VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

INDOMÁVEL (e admirável) SONHADORA

“Indomável Sonhadora” é um filme de 2012, triste, reflexivo... Real. Logo nos perguntamos: qual o lugar mais lindo do mundo? O quão importante é uma pessoa?


A sonhadora é uma menina de 6 anos, Hushpuppy, que usa fragmentos perpetuados em sua realidade e os transforma pela mente a fim de compreendê-los enfim: a doença e impaciência do pai, o fato de não ter uma mãe e outras situações além do que uma realidade infantil pode e deve suportar. A imaginação fértil ora a auxilia com aventuras e encoraja, ora aparenta piorar as desventuras.

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Todo o universo depende que todas as peças se juntem corretamente, em harmonia; uma peça fora desmonta tudo o que houver. Entretanto, colocando e mantendo as peças em seus devidos lugares, tudo fica bem. É esta a premissa da curiosa menina.

O pai de Hushpuppy também usa uma versão própria da realidade - um tanto desconexa e menos pessimista (menos realista?) -, não há certeza se ele realmente acredita na sua interpretação dos fatos ou apenas tenta desesperadamente crer e que, assim, torne-se uma verdade para ele e para a filha.

Hushpuppy falava coisas sem nexo ou exageradas e irracionais para quem ouve pela primeira vez, porém percebemos o amplo conhecimento que a criança vem adquirindo e que mesmo as frases e preocupações aparentemente sem lógica têm, sim, um ponto de razão para terem nascido em sua cabeça.

Com uma arma e uma garrafa de bebida, em meio à forte tempestade, o pai a deixa na precária casa para “lutar” com a intempérie. Seria para deixar uma impressão maior de controle à filha? Bem, fracassou e fica a dúvida se seria esta a intenção. Ele atuava para a filha ou se escondia dos próprios fantasmas como podia, muitas vezes esquecendo seu papel de pai? Estaria em uma tentativa frustrada e distorcida de ir direto ao encontro de sua função protetora de pai ao lutar com as armas que possuía, que achava ingenuamente serem uma boa defesa?

Após a noite atordoada, ficaram os destroços da natureza e a silenciosa e vazia busca por vida. A partir de que momento devo ensinar alguém a sobreviver? A ir de encontro com o que tem? Como fazer isso sem extirpar os sonhos, como desconstruir a vivência com uma vida não tão bonita de se ter?

Durante os vastos períodos difíceis, Hushpuppy usa o pensamento e o conhecimento que agregou para ver, entender e reconstruir as "verdades". Várias vezes ela procura a mãe ao se sentir sozinha ou escutar um barulho, revelando sua necessidade instintiva de encontrar a mãe, deixar claro que “está sendo uma boa menina” e retomar do ponto de parada: é a vontade de amar e ser amada. hush3.jpg

As histórias da vida e as da mãe enchiam os dias e noites, ao mesmo tempo em que fugia da realidade, sentia um saudável (quando não cruel) poder sobre o futuro e, portanto, o agora. Chorar pelos que se foram? Não, era proibido. Seria uma forma de mudar a percepção da menina sobre o que havia, a não sofrer pelo imutável e intransferível? Seria a forma de o pai tentar impedir que a filha expresse fraqueza ao cruel mundo em sua interpretação? Ainda não sei.

Em seguida, quando ia usar um talher, o pai deixou claro: comer feito bicho, família de bicho. Para sobreviver? Para saber seu lugar frente aos demais? Hushpuppy também não compreendeu, mas quis orgulhar o pai nem que para isso precisasse deixar de ser gente. Um pai perdido, que desconta as frustrações na filha e bate como única forma que conhece de ensinar algo, infelizmente.

Aliás, tudo o que a garota faz é pensando na reação do pai, no que o agradaria e como ela seria útil. Alguém devia aprovar, alguém precisava AMAR... “Às vezes a gente quebra uma coisa de tal jeito que não dá para consertar”. Valeria para relacionamentos, para escolhas? Com raiva, tristeza e frustração, Hushpuppy não aprendeu a se expressar oralmente tão bem; ela joga as coisas para o alto, bate, quebra, fica agressiva e destrói - assim como o pai.

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Ela sabe, vê, pode até não ter permissão para chorar (o pai não consegue pensar que fracassou ou seja lá o que chorar signifique em sua visão), todavia a pequena entende o que acontece! Por mais que tentemos nos enganar, no fundo, as crianças sabem e perguntam do nada o que estava em suas cabeças há tempos: "se você morrer eu morro? O que acontece se ninguém cuidar de mim? O que eu faço para você me amar?" Palavras que, quando proferidas, entram como a lâmina mais afiada no peito e dilacera o que mais dói.

São todos colocados em um abrigo, não parecia a prisão que desenharam em seus sonhos, era um aquário sem água, um lugar que não tem tudo, porém sem dúvida já tem algo. O pai, doente e com prognóstico ruim, tenta deixá-la com os amigos para que seja cuidada. Ele acaba revelando que irá morrer e não quer que ela veja, talvez o momento mais paterno, a tentativa de demonstrar amor dentre o que considerava suas possibilidades, fossem certas ou não.

Hushpuppy não o abandonaria, outro encargo para suportar, ela sabe que não havia jeito fácil naquele momento. É um desafio convencer e ajudar alguém a criar um filho quando essa pessoa tem certeza absoluta que não tem chance de fazer um bom trabalho, que mal pode cuidar de si mesmo...

Até que ponto sua escolha de vida pode restringir a de uma criança? A opção “menos errada” não seria dar o máximo de opções para que o filho escolha seu caminho? Se este quiser o mesmo que você, que seja, mas que tenha a opção. Até que ponto devemos influenciar a vida de um filho e a partir de que momento fazemos concessões para que eles alterem a nossa?

Personalizando seus temores e encargos como animais já extintos que ameaçam sempre voltar à vida e destruir tudo o que conhece, ela para, cansada de correr por medo, cansada de mudar os planos, de fugir do que mal conhece, Hushpuppy para e encara o animal como amigo com algo a ensinar, vencendo os obstáculos invisíveis que a impediam de viver em uma ação tão madura que demanda uma coragem rara.

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Sua jornada revela a existência de realidades distorcidas, pessoas desorientadas - algumas gerando consequências desastrosas -, mas também as bem-intencionadas, que mudam os rumos da vida e dão motivo para não deixarmos de acreditar em algo melhor. Que, ao menos, Hushpuppy não perca a esperança, os sonhos, o amor e olhar terno à vida e o desejo de abraçar o mundo.

Hushpuppy entende que é uma peça do todo e, portanto, essencial, ela tem importância no mundo e não precisa parar por nada. Onde estiver, desde que não desista, será o lugar mais lindo do mundo.


VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história.
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