VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

Inocência

Desde a criação do homem, a inocência talvez seja um dom. Uma perspectiva única da vida que as pessoas à nossa volta podem valorizar, mas igualmente destruir, dando à inocência a denotação de defeito, não virtude. E, claro, a dramaturgia não se esquece dessas nuances que se criam.


Por que torcemos para Candinho "acordar" pouco a pouco, abrir os olhos e perceber quem são seus verdadeiros inimigos? Talvez porque o personagem da novela “Êta Mundo Bom” nos traga um ar inocente perdido meio a pessoas, no mínimo, desiludidas e sem expectativas frente à desonestidade, criminalidade e mentira (pouco atual?).

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Em seu significado, inocência é pureza, falta de culpa, o atributo da pessoa que não consegue cometer um ato ilícito; condição de quem não é culpado. Candinho – desprovido de malícia – evoca essa faculdade.

Uma análise que me chamou atenção diferencia inocência de ingenuidade. Inocência é uma virtude enquanto que a ingenuidade, não. Há quem diga que o inocente é fraco, mas talvez seja o mundo que enfraquece dia após dia uma pessoa forte, que se enche de esperança e amor à vida aos poucos, recuperando-se no trajeto.

Foi assim com Candinho. Quando roubaram o medalhão que o faria encontrar a mãe, entristeceu-se, perdeu o brilho no olhar e se afundou em pensamentos negativos. Nesse momento, todos fazem questão de tornar a inocência uma lástima a ser extirpada. Candinho deve mudar, não a mentira e desonestidade vigentes.

Mas o enfraquecimento não precisa durar a vida toda, é preciso abrir os olhos e erradicar o que há de mal. Tanto que o mantra do personagem, eterno (espero que) otimista, sobre a vida é: “tudo que acontece de ruim é para melhorar”.

E nós, que o assistimos, torcemos para que cada desafio seja enfrentado com grandeza e sem desistências. Queremos para o personagem o que queremos que NÓS façamos, personificamos nossa vida na dele e nossa vontade mais profunda na torcida.

O inocente, em algumas análises, é visto frente às tentações e “cruzes” do cotidiano, em que este encontra força de vontade para fazer o certo e, assim, sempre será mais forte do que o ingênuo (exemplificado posteriormente).

O instinto de proteção própria (existente em todos) é respeitado no inocente, insistindo para nós a diferença do que é certo e do que é errado, ainda mais em questões morais.

Nesse sentido, “Êta Mundo Bom” pode ter acertado nos diferentes rumos - até agora - que Candinho e sua amada Filomena tomaram. Candinho seria mais um inocente, que tenta se proteger (mesmo que de forma inadequada para os telespectadores) a todo custo, às vezes inclusive se protegendo de quem não precisa, de quem, sem ele perceber, só lhe quer bem.

Já Filomena tem agido mais como uma ingênua; seja na fuga para a cidade ou ao insistir nas boas intenções e integridade de Ernesto (apesar dos momentos óbvios de desonestidade) e assim por diante.

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E, dessa forma, vai sofrendo - desde então - as consequências de seus atos (uma conhecedora e forte negligenciadora destas). A cascata de justificativas não auxilia sua situação – apesar de as circunstâncias temporais não cooperarem em nada.

A consciência de nossos erros pesa e podemos ou admitir e mudar ou mentir mais e mais, justificar mais e não admitir nem mudar. Kerim, um personagem da história de “Fatmagül”, não era inocente; foi, na pior das hipóteses, ingênuo (culpado apesar dos pesares) ao negligenciar Fatmagül na pior noite de sua vida.

Quando se pratica um mal, nunca é por inocência. Aquele que se alia a pessoas más (percebendo uma intenção ruim implícita) não é inocente e, nessa lógica, tem culpa.

Outro exemplo que a dramaturgia nos traz dessa diferença? O Doca (Cássio Gabus Mendes) da novela “Meu Bem, Meu Mal” (1990), que aceita conquistar uma moça por dinheiro fingindo que não fará mal algum a ninguém - nem mesmo à garota que está sendo usada para uma vingança em uma história da qual não tem nada a ver.

Admiro muito os autores que exploram esses momentos de escolha na vida. Deixo aqui uma pergunta importante a fazer: você se importa com o significado de suas ações? Pensa no que seu apoio e sua negligência a alguém causam?

"Não sou tão importante assim", alguns dirão. Não é ou não quer acreditar ser? Dê mais importância a si mesmo e faça algo difícil a todos, sem exceção: assumir a responsabilidade (o poder) de sua vida, de suas escolhas. É uma tarefa árdua, porém gratificadora, acredite se quiser.

Engraçado querermos e valorizarmos tanto o poder, e, na hora de assumirmos o encargo por nossa existência, amedrontamo-nos.

Enquanto isso, a vida persiste (alguém tem que perseverar) abrindo portas e Filomena, como tantos por aí, fechando-as na primeira dificuldade (em geral, frente à maldade alheia...).

Mentir para nós mesmos na ilusão de enganar a própria consciência é um hábito ferrenho - a exemplo de Mustafa também da novela “Fatmagül”. A arte, aliás, ama esses aspectos mundanos em busca de prazer momentâneo e alívio de chagas que só se agravam.

Você pode fugir de muitas coisas (ou, ao menos, acreditar nisso), mas uma hora ou outra verá quem se tornou no espelho (lembrei-me de Dorian Gray...).

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Muito se pode analisar em “Êta Mundo Bom”. Será que só quando Filomena admitir seus erros, arrepender-se e entender que deve assumir as rédeas de sua existência, ela terá um final feliz? Seria uma falta de resiliência e paciência que a atrapalhou? Até onde nós (e ela) deveríamos ir?

Será que Candinho alcançará a felicidade em absoluto (ou o mais próximo disso, obviamente) quando, enfim, enxergar a verdade? Ele conseguirá abrir os olhos sem perder a ternura e inocência que o acompanham juntamente à esperança? Há como desvencilhar tudo isto?

Até onde seu otimismo o auxilia? Uma bela discussão à parte, levando em conta a obra “Cândido, ou O Otimismo” de Voltaire, na qual Walcyr Carrasco de baseou.

Só sei o que mais desejo para Candinho (e tantos outros... E para mim mesma). Espero que ele decida sobre sua vida, que seja feliz e, especialmente, AUTOR de tal felicidade. Que a última palavra seja a sua, uma palavra embasada pelo seu coração, pela sua história e vontade.

Que os outros ajudem, não ditem! É importante e sábio pedir a opinião dos outros. Da mãe, do companheiro (o filósofo Pancrácio), dos amigos mais próximos, de quem ouve sua história de relance, até dos inimigos! Que sugiram, opinem, falem abertamente, mas só.

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Não podemos calar nossa voz (mas fazemos e muito!), encobrindo-a atrás das cortinas enquanto penduramos nas paredes o discurso dos outros. É preciso exercitar uma difícil prática: distinguir o que vem dos outros e o que é nosso, sem medo das represálias.

Nossos sentimentos, nossas vontades, nosso instinto, nosso coração. Quem melhor do que você para saber o próximo passo tendo em vista o que quer e o que teve? Não encarem como uma apologia ao egoísmo, há uma diferença em ter benefícios e só você se beneficiar, além de causar dano aos outros.

Talvez esteja imaginando uma utopia. Na vida real, ao parar para pensar, sinto até uma impotência. Por que é tão difícil tirar os desejos da cabeça e do papel? Seria o medo da reprovação ou do arrependimento – a fobia do que há de mais comum, errar?

Minha torcida fica para que se acabem as amarras mentais e que seja encontrado discernimento (e, assim, a felicidade).

Que haja valor no dia a dia para Candinho, para quem está lendo, para mim...

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Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história.
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