VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

Matilda

Desenvolvendo o que ninguém pode tirar de você: a MENTE. Uma obra fantástica escrita por um autor que você deve conhecer muito, só que não sabe. Tudo pela mente, que molda o universo das crianças e a realidade.


Roald Dahl (1916-1990) foi um talentoso escritor reconhecido por suas obras infantojuvenis.

Seu primeiro livro para crianças foi um velho conhecido da cultura popular: "Os Gremlins", que tratava de pequenas criaturas folclóricas malvadas. Além de “Mathilda” (título original), Dahl escreveu também "James e o pêssego gigante" (1961), que recebeu adaptação em 1996.

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Outro clássico de autoria de Roald foi "Charlie e a fábrica de chocolates" de 1964, adaptado para o cinema em 1971 e 2005. Outra menção honrosa é um livro que mistura fantasia infantojuvenil com histórias de terror, o inesquecível "The Witches". Não conhece? Mas, provavelmente, se você assistia à TV nos anos 1990, viu o filme "Convenção das Bruxas" com a maravilhosa Anjelica Huston e digno da participação mais do que especial de Rowan Atkinson (nosso eterno Mr. Bean!).

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Um adjetivo para o filme "Matilda"? ENCANTADOR. Ou melhor, encantadoramente reflexivo e divertido.

A história gira em torno de Matilda Wormwood, uma menina inteligente que sobrevive sem incentivo, aprovação ou atenção alguma de seu pai desonesto e distante, Harry (Danny DeVito), e sem poder contar com algum conselho sábio ou estímulo da mãe, Zinnia (Rhea Perlman), ou com o apoio do irmão mais velho, Michael.

Tendo que se virar sozinha desde pequena, Matilda toma a iniciativa de mudar sua vida com apenas 4 anos de idade. Matilda, muito pequena, percebe que nada será feito para melhorar sua vida a não ser que ela tome as rédeas de sua existência. Um grande encargo jogado em sua costas cedo e percebido muito precocemente.

Em uma fuga da realidade nua e crua, Matilda busca um abrigo existencial - uma forma inédita de ver a vida real sob um prisma criativo, esperançoso e encorajador -: os LIVROS. Em pouco tempo, a menina não só pega gosto pela leitura como desenvolve criticidade, criatividade, amor por pensar e vício pelo que mais lhe dava prazer à mente: VIAJAR.

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Dahl recorda uma das fases que deveria ser das mais belas da vida de alguém (pena não ser sempre assim). Um estágio cheio de AVENTURAS, LIBERDADE, VOOS ALTOS (asas íntegras, sem cortes), FANTASIAS, idealizações e uma busca incessante por REFERENCIAIS (com livros expondo heróis e pessoas boas, que dão gosto doce à vida; além, claro, de um ou outro malvado, trazendo à tona as consequências de atos egoístas e cruéis).

Matilda faz da biblioteca seu ABRIGO e dos livros, seus COMPANHEIROS. Por anos, ela foge para um lugar acolhedor que lhe dá PODER. Poder esse de escolha, de vida, de voar, concedendo-lhe um direito inato que deveria ser intocável: o de SONHAR, tão alto que passa o céu e não tem limites!

Insistindo que já tinha 6 anos e meio (seus pais já haviam parado de contar, até de se importar se duvidasse), conseguiu ser matriculada em uma ESCOLA (enfim!). A diretora, Agatha Trunchbull, uma mulher amargurada, trata a escola como local de tortura e válvula de escape para sua raiva alheia.

Depois de tanto idealizar o que mais parecia, na realidade, um presídio para crianças, uma luz surge: a professora Jenny Honey (Embeth Davidtz).

Sensível, que ama loucamente ensinar crianças, a senhorita Honey logo percebe a grande inteligência e avidez pelo saber de Matilda. Entretanto, nota uma triste realidade (não tão incomum): uma família que não a entendia, não a estimulava e tratava a escola como DEPÓSITO DE CRIANÇAS (uma prisão tal qual parecia). O objetivo? Deixar os filhos para que não atrapalhem a vida dos pais, que dependem de, pelo menos, meio dia sem ouvi-los ou vê-los.

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Quando a senhorita Honey vai elogiar Matilda, Harry deixa claro sua opinião e, inclusive, torna-se quase um porta-voz de vários outros por aí: "se ela deu problema, não quero saber. AGORA, ELA É PROBLEMA DA ESCOLA”.

Problema? A partir do momento que vai à escola, A VIDA DESSA CRIANÇA E SUA EDUCAÇÃO NÃO MAIS DEPENDEM DOS PAIS? Quem disse? Já é época de questionar mais firmemente certas ideias e dar mais responsabilidades a quem têm fugido dos encargos mais essenciais.

Chega de correr! Por mais que uma escola deva melhorar, a FAMÍLIA ainda é (e sempre será) a BASE da sociedade. Tudo o que uma escola pode construir pode ser destruído em casa. Assim como pode melhorar, consolidar-se e FRUTIFICAR (fica a esperança e a reflexão).

Mas se o adulto não toma a iniciativa, Matilda descobriu uma forma de ajudar. Vivendo em sociedade, bem cedo ela entrou em contato com princípios (ou a falta deles) e iniciou a construção do senso de justiça e, claro, de punição. E, para variar, os adultos dão o exemplo.

Matilda aprendeu que se uma pessoa é má merece uma lição. Pessoa, não criança! Se uma criança é punida por um ato, ela pode fazer o mesmo com os pais quando eles cometem os mesmos erros? Vivemos em um mundo que teoriza acima de tudo que os ADULTOS NÃO ERRAM (ao menos, não na frente das crianças). Se eles são os educadores, eles têm a razão e, portanto, passam conhecimento e moldam a vida em sociedade.

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Mas e se essa teoria é falha? E se o exemplo não está certo? E se o adulto erra? Matilda desenvolve sua lógica a partir do que presencia na realidade. Acaba usando sua inteligência e criatividade ilimitadas, juntamente a uma habilidade extraordinária que descobriu - a telecinese -, para PUNIR OS ADULTOS.

Outro problema na vida de Matilda é o ambiente, ao qual ela RESISTE até suas forças acabarem (HAJA FORÇA!). Em uma família despreparada, que propaga valores invertidos e desvaloriza tudo o que a educação pode trazer, é incrível ela não sair como o irmão Michael, um claro REFLEXO DOS PAIS e da educação deficitária pouco ou nada estimulada.

Isso nos faz pensar sobre a atenção da criança no período ainda PRÉ-ESCOLAR como forma de amenizar déficits e melhorar a educação. A estrutura familiar, os relacionamentos mais primordiais da vida, os conselhos (dos pais), o exemplo de nossos primeiros modelos, a importância da opinião de quem amamos e acreditamos nos amar... A base da vida e, portanto, da sociedade: a FAMÍLIA.

Os pais tinham dificuldade em entendê-la e em demonstrar que a amam (somente no final do filme um momento de ternura põe em xeque o que construímos do casal Wormwood quanto à caçula). Essa versão menos idealizada de família ainda assim é um LUXO para uma criança.

Ter alguém que se importe e que te ame não é regra, infelizmente. Muitas crianças insistem na UTOPIA que a sociedade lhes conta sobre o amor e carinho dos pais, todavia, apesar de persistirem perante enormes provações, são tantas as que não recebem um único bom sentimento!

Matilda rapidamente começa a se perguntar até onde vai a MALDADE de alguém. A diretora Trunchbull não apenas humilhava, punia severamente e era grosseira, ela tinha PRAZER com aquilo. A menina doce mas justa descobre o calcanhar de Aquiles dos adultos com quem convive: o dinheiro dos pais; o orgulho e arrogância dos policiais; a consciência da diretora Trunchbull...

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Então recordamos dos livros que acompanharam Matilda, com heróis e também vilões que, no fundo, morrem de (ou deveriam ficar com) MEDO DAS CONSEQUÊNCIAS de seus atos.

É utilizando a culpa pela morte do irmão que a aterrorizante figura da diretora se esvai e um final feliz se aproxima. O PESO DAS CONSEQUÊNCIAS dos atos podem não ser conscientes para aquele que os pratica, porém um dia será cobrado seu preço e, então, será tarde demais. Talvez VALHA A PENA torcer, ser bom, acreditar.

Quiçá o ato mais nobre (e, portanto, menos egoísta) de Harry e Zinnia tenha sido deixar Matilda com a senhorita Honey para desenvolver todo o seu potencial. Pena que eles – os PAIS – não criaram tais circunstâncias. Às vezes um simples "você consegue, vá em frente" já bastaria (não só para crianças). Todavia, para alguns, isso é um verdadeiro sacrifício.

No fim, Matilda pôde aproveitar sua fase de aventuras, coberta por sonhos que não devem ser destruídos por uma realidade nua e crua (ao menos ainda não). A menina é mais uma criança que passou pela descoberta da maldade, porém foi RESILIENTE - um nobre valor que as crianças cultivam ao lado do amor e esperança sem que percebamos -, tentando a todo o custo ENCONTRAR HERÓIS E PESSOAS BOAS, no mínimo na ficção...

Ainda bem que os referenciais de Matilda não ficaram apenas entre os papéis escritos e sua frutífera mente. A busca por BOAS REFERÊNCIAS obteve também personagens reais e finais felizes...

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Enfim uma "família adorável" que a incentivaria em seus gostos, descobrindo seus interesses, formando sua personalidade e, principalmente, amando-a. NÃO HÁ RECEITA para o sucesso de alguém, há empenho e companheirismo.

Amor sem motivo, sem pedir nada em troca. Amor verdadeiro, amor de família (algumas...), amor simplesmente por você existir e fazer da vida um lugar mais feliz. Amor por amar, amor sem barganhas, amor inteiro e não em migalhas, sem restos do que ninguém usa. Amor para CRESCER, FLORESCER, DAR FRUTOS E PERSISTIR. É isso o que Matilda queria. É isso o que as crianças querem. É isso o que todos precisam. Apenas AMOR.


VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história.
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