VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

Mil e Uma Noites negras

Como suportar os baques do dia a dia? Até onde vai a humanidade? Até quando persistir? Como aprendemos com as desventuras, com a VIDA? O quão perigoso é um jogo e até onde o mais habilidoso sabe que pode perder? Até onde você iria por um filho?


Que o cotidiano, os livros, filmes, novelas, seriados, todos ensinem algo. Concordando, discordando... Pensando em um assunto antes despercebido e questionando nossas verdades e o que conhecemos como vida.

Pois bem, essa é uma história peculiar para muitos de nós, porém, minimamente, lembra a todos que há diferentes, extensas e profundas feridas em cada trajetória. Das mais trágicas às mais estranhas, cada vida contada dá um livro e todas as obras ganham serventia, todas as páginas merecem atenção.

São tantos os personagens que nos servem de bandeja histórias interessantes, intrigantes e surpreendentes. Falarei de uma delas: a história de Şehrazat Evliyaoğlu da novela “Mil e Uma Noites” (“Binbir Gece” no título original), embalada ao som de Scheherazade, sinfonia composta pelo russo Nikolai Rimsky-Korsakov.

Ainda pequena, Şehrazat perdeu a mãe. Antes dos vinte anos de idade, perdeu o pai para o câncer. Casou com seu grande amor, Ahmet Evliyaoğlu, a contragosto da família do rapaz. Após uma discussão com a família sobre Şehrazat, Ahmet morre em um acidente.

Todos os seus planos e seus sentimentos mais puros se esvaem com mais esta calamidade, a única coisa boa que fica é sua esperança e amor absoluto pelo filho. Desde então, toda a família de Ahmet nega a existência da viúva e finge que o neto (Kaan) não existe.

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Tendo que ser a família toda de Kaan por anos, Şehrazat é outra vez devastada pela notícia que o filho pequeno tem leucemia e morrerá se não receber um transplante de medula. Após muito esforço para encontrar alguém compatível, outro baque surge: ela não consegue dinheiro suficiente para o transplante e o tempo corre inexoravelmente contra ela.

Em meio à chuva, vai até a mansão dos Evliyaoğlu pedir clemência pela vida de Kaan. Pela primeira vez em tantos anos, Şehrazat vai até os sogros e não se importa de se humilhar pela salvação do filho. O que recebe é um sonoro não. Não bastasse isso, o pai de Ahmet diz que, se dependesse de sua vontade, Kaan morreria.

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Desesperada, vai até o patrão pedir o altíssimo empréstimo, estando na empresa há somente 3 meses – fato jogado em sua cara. Mesmo assim, ela pede, suplicante. Conseguiu o trabalho mentindo, em uma sociedade que não dá oportunidades de emprego às mulheres, muito menos com um filho para criar - por mais talentosas que elas sejam (Şehrazat é uma premiada arquiteta).

Sem chorar, cansada, pede sem jeito, impedida de sair correndo. O xeque-mate (do persa "shah mat" - "o rei está morto" -, frase bem convidativa, aliás) vem da proposta do chefe Onur Aksal. Ele diz que emprestará o dinheiro, porém “não sairá de graça". Com uma pausa dramática, ela sorri, aliviada, até que ele prossegue: "Mas vai passar uma noite comigo".

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Em entrevista, os atores confirmaram considerar a cena uma chave imprescindível para toda a novela, levando horas para ser feita.

Nos bastidores, quando Bergüzar Korel começou a chorar durante a cena, Halit Ergenç (Onur) pediu para parar e refazer sem lágrimas no rosto de Şehrazat, admitindo que não conseguiria fazer o acordo vendo o estado da personagem.

O mundo de Şehrazat cai, ela mantém a capacidade de ainda se surpreender com a humanidade (ora um talento, ora uma maldição). Sai, sentindo-se desrespeitada, e chora na escada, sem forças para descer.

Entretanto, ela volta! Por Kaan, a coisa mais importante de sua vida, ela se sacrifica. Şehrazat engole o orgulho e aceita o trato. Como mãe, ela aceita. Mais uma noite negra entre tantas!

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Os olhares na trama chamam a atenção. Até então, Şehrazat se rebaixa e não ousa olhar nos olhos do chefe, que a encara. Depois, é Onur quem tem vergonha e arrependimento. Ele não ousa olhar para ela, já a protagonista o desafia com os olhos.

Uma mudança tão marcante quanto à da coragem da vítima Fatmagül de, enfim, inverter a situação e encarar seus agressores (agora passivos e derrotados). Evidencia-se, aqui, um grande recurso da dramaturgia.

A força do olhar é grande, uma expressão atemporal do que sentimos em nosso âmago. Sorrimos, choramos, amamos e odiamos sem perceber, tudo pelos olhos.

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Após a noite negra, Burhan Evliyaoğlu, o avô de Kaan, telefona dizendo que dará o dinheiro. Şehrazat - entre o susto, indignação e humilhação - nega a quantia e comenta que a criança sobreviverá, APESAR do avô, não graças.

Com o tempo, após a cura do menino, Burhan pede perdão e ela concede. Perdão esse pensando no filho, que merece uma família que se importe e cuide dele caso algo aconteça com a mãe (quem sabe o dia de amanhã?). Kaan vem em primeiro lugar.

Outra relação que muda da água para o vinho é com o cunhado Ali Kemal, que lhe falou grosserias no funeral de Ahmet e a culpava pelo acidente. O perdão acabou vindo dia a dia, com atitudes.

A cunhada Füsun teve que trocar o ódio e inveja por amizade e agradecimento do apoio e relacionamento construídos. Füsun tinha inveja por Şehrazat ter dado um neto homem a Burhan (algo muito valorizado na Turquia. E no Brasil?). Essa inveja passa para a amante do marido, uma história à parte.

Onur fez a proposta tentando denegrir a imagem de mais uma mulher que ele julgou não digna de seu afeto. Acostumado a passar uma noite e jogar mulheres fora, desde uma grande decepção do passado, Onur se enganou.

Vocês devem imaginar como o mundo dele caiu ao descobrir o real motivo do pedido de dinheiro... Quem acaba humilhado é Onur Aksal. Quando deu seu xeque-mate, nem imaginava que o rei era ele, não ela.

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Agora, Şehrazat deve repensar sua vida, agradecer por Kaan ter sobrevivido, lidar com Onur, rever a relação do filho com a família paterna, sobreviver à maldade alheia... E isso sempre sendo questionada e desvalorizada como mulher e mãe (sem marido) trabalhando.

Esse capítulo merecedor de reflexão na vida de Şehrazat ocorreu por amor ao filho, a despeito de sua moral, honra e dignidade. Que outra solução?

É mais uma noite negra. Mais uma dentre tantas que a vida lhe deu. As mortes, o abandono e várias outras tragédias que a permeiam e muitas causadas por seus inimigos (uma trajetória emocionante).

E outras questões despontam. Para que lutar contra o inevitável, o impossível de se solucionar? Ainda assim, devemos aceitar o destino?

Uma das coisas mais tristes que pode haver é alguém se habituar a fazer sacrifícios, a viver dramas infindáveis. Crucificar sua vida, acostumar-se com a desilusão e morte... Que vida é essa? Quando o sobreviver e persistir se tornam o próprio ser e o hábito?

Até que ponto aguentamos os baixos da vida e persistimos? Até onde a resiliência é resiliente?

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Outro fato interessante é que a “mocinha” (como os demais personagens) também tem defeitos, comete injustiças, tem momentos egoístas. Tem seu bem e seu mal, não é perfeita, não é 100% boa nem 100% má.

A cada dia, suas decisões e atitudes moldam consequências sofridas por ela e por outros. Não podemos concordar sempre com alguém, e muitas vezes nos pegaremos concordando com o inimigo.

Não há santos nem absolutos pecadores, há seres humanos vivendo, tentando acertar e errando sem querer na tentativa de serem felizes. Talvez a melhor definição seja a de anti-herói, é “bom”, mas sempre falta um atributo moral, gostamos apesar de não concordarmos. Espero, claro, que seus erros não tenham real intenção negativa. Seria possível?

É estranho - apesar de um tanto verdadeiro - começar a pensar nos personagens (e pessoas!) que gostamos sob tal óptica: não se enquadram na imagem de herói, que idolatramos; há decisões movidas por egoísmo, vingança, vaidade; enfim, sem um sentimento altruísta no todo. Quem não?

Enfim, a história trata de mais um infortúnio por mais alguém dirigido a mais uma pessoa. Vidas e mais vidas andando pelas ruas, indo de suas casas para o trabalho, às vezes atravessando a Ponte do Bósforo em busca de um novo destino em dias atordoados. E outra noite negra...

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VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história.
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