VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

A ÚLTIMA DANÇA

Hoje, utilizarei frases curtas. Os pensamentos mais longos, mais complexos passam pela minha mente lembrando o que já pensei, não há tempo suficiente para descrever... Mas as lembranças que passam por um curto espaço de tempo pela minha memória são valiosas, atravessam pelo meu peito como um profundo sopro de vida, um toque para acordar. Estaria eu dormindo? Acho que sempre foi isso que almejei ao viver: ter recordações. Eu queria este momento dentro de mim sem saber.


Era uma manhã, levantei-me, porém não lembrava como havia parado ali ou o que tinha feito nas últimas horas. Parecia outra versão da minha vida. Levantei, já planejando o que faria e percebi que não seria mais necessário. Já estava vestida, não tinha fome, apenas algo apertava meu coração. Estava com um lindo vestido azul, comprido, não me lembro de ter este vestido. Com certeza saberia se tivesse, era lindo, era perfeito, era para mim.

Sai da casa e avistei um jardim, vazio. Parecia que o mundo tinha acabado, todavia a sensação não era plausível. Em um mundo sem sinal da presença de alguém, sentia ter encontrado todos. Não faz sentido algum! Foi então que avistei uma menininha, ela sorriu para mim. Não fiquei com medo e nem a reconheci, apenas sabia que poderia sorrir para ela também, sabia que ela queria me ajudar.

Segui a menina que sorria e brincava enquanto esvoaçava com o vento seu vestido lilás. A menina não falava nada, seu olhar podia dizer tanto. Ela estendeu as duas mãos e começou a dançar comigo. E eu, como uma criança no primeiro dia de escola descobrindo o mundo, compartilhei daquela alegria. Todos estão me esperando, minha família e amigos, mas eu preciso ir com aquela menina. Não tenho mais dúvidas, enquanto ficamos de mãos dadas nos arrodeando, todo o sofrimento que já passara por mim se esvai lentamente e eu agradeço por ela ter vindo.

Giro e entro no vazio do universo, em um milissegundo sinto meu corpo voltar à vida, à existência de tudo. Sinto fazer parte de dois mundos opostos e complementares, experimento e valorizo o todo sempre que mergulho no nada. Assim como ápices de felicidade em meio ao caos. Era a sensação mais estranha, inimaginável e plena. Tanto o nada como o tudo convergiam em um sentido enquanto girava: minha mente, minha história. “É tempo de recordar e conhecer, não é?”, pensava. E o mais incrível era a menina me responder com o olhar. E nenhum estranhamento racional surgia dentro de mim, eu sabia. De alguma forma, eu entendia o que estava acontecendo.

Por que eu? Por que estou aqui? Não queria rodopiar hoje, não queria a visita daquela menininha. Olho para ela e a calma transborda. Encaro-a e não posso deixar de rodopiar, de dançar naquele ambiente fantástico. Estou velejando em ondas de imagens que surgem frente a meus olhos, imagens que vi, imagens de como os outros me viam. Velejo, viajo, rodopio e danço, busco o equilíbrio enquanto flutuo na imensidão do pensamento.

Repetindo os gestos e palavras da menina, rezo ao vento e lembro-me de todos os fardos que carreguei. Senti a imensidão, é como se estivesse encarando uma grande piscina ou até o oceano de certa altura. É um dia bonito, com sol ameno, porém o vento está forte e frio. A paisagem é linda, como se pudesse ver o céu na Terra, as ondas parecem se inspirar nas constelações, na profundidade e mistério, na mais pura poesia do universo. Eu quero pular, eu quero descobrir a sensação que me trará, contudo sinto medo e, se eu deixar, ele me domina.

Segundos de decisão e, apesar do vento, das ondas mais violentas, mergulho naquela água. A princípio, gelando meu corpo, logo encontro paz e harmonia com meus sentidos. Essa é a imensidão que percebo agora, o contato com a criação. Essa é a plenitude que jamais imaginaria, nem mesmo nos sonhos mais quiméricos. Depois disso, nada me atinge. Eu sei que posso ajudar quem eu amo daqui, eu sei que posso trazer pequenos lapsos de plenitude a quem deixo por enquanto. Agora possuo uma liberdade imaculada.

Ela solta minhas mãos bruscamente e quase caio no chão. A menina, então, começa a correr. Em um impulso irracional, decido ir atrás dela. Olho mais uma vez para trás, não posso evitar estes ímpetos originados do mais profundo espaço dentro de mim. Eu sei que eles estão me esperando e eu aqui, sem ter explicado nada, indo com a garotinha sem previsão de retorno, porém pensar nisso não dói como deveria, eu sei que ainda os verei novamente, eu sei agora.

Não preciso mais fingir, não preciso mais mentir. Nunca precisei, todavia não consegui evitar, das maiores mentiras, fingir que não tive desgostos ou problemas... Por que eu me preocupei tanto em esconder? Tanta coisa perdeu o sentido, como se todas as razões que eu nutria caíssem em um abismo interminável e negro. E o mais engraçado é que não me sinto mal por isso, não tenho vontade de resgatá-las. Adeus às razões que eu deixava que me segurassem com medo de sair do chão e voar.

A menina correu de mim, olhou para trás algumas vezes, esperando que eu a seguisse como em uma brincadeira. Ela saiu do jardim e foi passando pelas árvores. Todas diferentes, todas com uma história. História de alguém? A natureza foi dominando o ambiente enquanto avançávamos. Havia lugares lindos, pareciam de mentira. Também havia regiões mais densas, escuras, amedrontadoras. Até a maior das curiosidades e espírito aventureiro teriam seu momento de questionamento para entrar ali. Que histórias estavam ali? Eu quero mesmo saber?

E a ventania começou. Não era qualquer vento, não era qualquer momento. As árvores tinham algo além de sua essência, continham lembranças. Eu sentia, e agora podia ver. As folhas se transformavam em imagens, fotografias de uma existência. Eu podia tentar escapar, mas a ventania trazia direto às minhas mãos e aos meus olhos as fotos de uma vida. A menina que teve suas primeiras conquistas, que sobreviveu, que aprendeu, andou e avançou. A criança que chorou, viu o que não queria, entretanto prosseguiu. O ser humano que honrou sua vida entre o que - em sua estrita visão - considerava vitórias e fracassos, entre erros e acertos. Errei tentando acertar e, com estranho orgulho e contentamento, tive grandes acertos com a certeza de que havia falhado. Hoje, agradeço aos acertos, aos propósitos, planos, acidentes e o que, em meu pensamento até então, foram falhas.

Assisti a cenas minhas, ora felizes ora achando que estava desamparada, mal sabia eu que jamais estivera só, apesar de tudo... Uma personagem certa e errada, triste e feliz, por vezes sem rumo e, em outras, esperançosa. A cada instante, uma nota diferente; dependendo do acontecimento, sábia, inteligente, negligente, ignorante – todas e uma só. Momentos alegres, comemorações, muitas que jamais dera o valor que hoje percebo que mereciam ter. Momentos de desilusão, de um cruel acordar. A pergunta não é se foi fácil ou se eu gostei de tudo, e sim se valeu a pena.

De repente, cenas que não apenas não recordava, cenas que não aconteceram... Esta deve ser uma das partes mais difíceis deste caminho que estou tomando. Todavia, é diferente agora. O olhar mudou, o contexto mudou, as opções mudaram, a vida agiu. Observei a criança que fui e queria segurar em meus braços, tentar dar uma aula impossível sobre a vida. Outra ilusão... Vi a mocinha cheia de sonhos e desejei que ela realizasse todos ou, ao menos, não matasse nenhum. Observei a mulher que luta todos os dias e quis entrar naquela fotografia e conversar com ela. Reaprender o que perdi e ensinar o que só uma hora de vida a mais te fornece. Entretanto, aquele momento que vivia era único e não podia ser traduzido, atrasado ou adiantado. Contar de nada valia em comparação ao estar ali.

Então, chegou até mim a imagem da idosa, com um menininho do lado e toda a família reunida. Queria agradecer por tudo o que ela fez, por ter lutado e vivido. Queria pedir desculpas por tudo de ruim que havia feito e todo o trabalho que dera a mais. A criança, a moça, a mulher, a idosa... Fiz o que pude, espero que tenha sido o suficiente, espero ter orgulho de mim mesma, da nossa história. Eu sou todas elas e espero que nenhuma se importe de ter sido eu.

Caminhei avistando a vida passar. Passei por trilhas difíceis e obstáculos que julgara intransponíveis, a vida nos ampara e impulsiona. Comecei a alcançar a menininha até ela parar de frente ao penhasco. Lá de baixo, eu via o mar azul com suas intempestivas e incrivelmente belas ondas, idênticas às de minha imaginação. As pedras dissipavam a corrente de água e davam nova forma ao oceano, assim como eu mexi na trilha e ela mexeu comigo.

A menina sorriu para mim de uma forma tão pura e inocente que apenas uma criança o faria. Enfim reparo que não é a única ali, havia várias delas. Tive uma estranha certeza de estar com anjos, não existe descrição, não há razão que justifique aquele sentimento, simplesmente veio e tomou conta do meu peito como uma bela surpresa que não pede para acontecer. A inquietação que ainda era tão persistente se dissipou dando lugar à paz e completude.

Quem diria que esta doce menina teria que me visitar logo hoje, estender sua mão e me pedir para rodopiar e dançar com ela. E eu fui, não é culpa dela, aposto que essa menininha esperava me encontrar em outro momento, como aquela senhora idosa satisfeita com tudo o que viveu, com seus filhos grandes e aquele neto lindo. Mas não foi assim. Quem diria que hoje, com a menininha, tive minha última dança.

Deixo o sofrimento de lado, levo o que aprendi, a única coisa da qual vale a pena lembrar e chorar é dos que amo e que tenho que deixar por enquanto. Uma última dança para esquecer a dor e valorizar os momentos. Enquanto isso, as árvores acompanham o vento com seus galhos e flores. E as folhas - substituídas por imagens da minha vida - voam junto ao vento sem permitir que as árvores percam suas delicadas flores, seus tesouros. Ora vão de encontro ora escapam do meu pensamento, mas estão lá, firmes e fortes, à minha espera.

Neste peculiar passeio, os maiores combustíveis são a esperança e a consciência nesta caminhada. Um doce sofrimento como oportunidade, uma chance para me arrepender, para refletir, para ficar triste e para agradecer por tudo... Tudo o que eu dei valor e pelo que não dei valor, pelo que nem notei, mas foi importante e agora eu sei.

Nenhuma homenagem seria maior, nenhuma dança ganharia dessa. Comecei dançando e dei os passos ao infinito, infelizmente abandonando meus planos, porém nunca a esperança e o sopro de vida que me originou. Uma jornada de autoempoderamento, autoconhecimento e liberdade. Agora, é diferente. Agora, apenas as consequências do que plantei e a nostalgia do que deixo. Consciência, esperança, conhecimento.

Do que vou me orgulhar? Como posso ter direito para vislumbrar as estrelas? Como posso almejar essa sensação de totalidade, de reencontro com os meus? Neste instante, deixo muita coisa para trás. Não foi minha escolha, não é minha culpa, desculpe-me. Algum desejo? Apenas que quem eu amo viva intensamente e não se aprisione à culpa ou ao pessimismo, estamos acima disso. A eternidade pode parecer um grande prêmio, no entanto nada mais é do que uma troca justa frente ao maior dos presentes, à melhor das oportunidades: viver. Que sejam apreciadas as conquistas, as paradas e igualmente o que nos dá medo, a velocidade do tempo... Até porque o tempo pode carregar para a história os acontecimentos e pessoas, nunca apagar. Essa capacidade é humana.

Olho para o caminho que percorri e me encontro peregrinando continuamente até chegar aqui. Sorrio para todas as versões de mim mesma; sorrio para quem estou deixando. Eles já não podem mais me ver, minha imagem dissipava-se aos poucos, dou a mão para a menininha e deixo as memórias por meio de uma única lágrima aos que amei.

Lágrima não de tristeza, remorso ou prostração. Lágrima de orgulho, de amor. Deixo meu corpo suspenso, como uma pessoa deitada e amparada pelo mais profundo oceano. Sinto pela primeira vez que posso mover o céu, o dia e a noite enquanto danço embalada pelo vento. Não deixarei nenhum adeus, apenas um singelo e humilde até logo. É a única frase que pode exprimir as respostas que obtive. Minha última dança, jamais meu fim.

Victória Ampessan Damas

Waiting-by-the-Swing-jpg


VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious //VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS
Site Meter