VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

ALGUÉM QUE SE IMPORTE

Que saiba o que é verdadeiramente merecedor de atenção e o quanto.


Todos os dias, Rodrigo chegava à sua casa e ia se deitar, com a certeza de que tudo estava certo e que todos estavam ao seu lado. Ele chegava para a esposa e falava:

- Hoje meu dia foi difícil. Trabalhei muito e aquele babaca continua no serviço. Vou ter que me esforçar mais. Até ele desistir ou ser demitido... Não aguento trabalhar com ele. Estou exausto.

- Bem, que difícil. Sabe que eu...

- Estou cansado, vou para a cama. Conversamos amanhã.

E o amanhã nunca chegava. Até que um dia, não da vontade de Rodrigo, o amanhã chegou, mas tarde demais. Já não era para diálogo, e sim um final. Ele foi para casa e as coisas não eram mais as mesmas. “Os objetos dela que estavam em cima da mesa não estão mais aí? Desde quando?”, pensou, e não se lembrava há quanto tempo a casa podia estar assim, não prestava mais atenção em nada.

- Querida, o que está havendo?

- Quer mesmo saber? Quer ao menos fingir que se importa? Ou quer falar o que tem vontade e subir para se deitar sem escutar uma palavra se quer? “Amanhã conversamos”...

- Vamos conversar.

- Não. Chega. Não foi uma nem vinte vezes, foram todas! Não é legal quando só um escuta, nem quando só um fala. Tem que haver parceria. Não quero ser a única a falar, porém não posso ser a única a ouvir também.

- Eu consegui que aquele babaca fosse para a rua!

- Parabéns! Você está mesmo de parabéns, Rodrigo. Está feliz por isso? Era a única solução? E se ele tiver família? Essa é a solução para nossos problemas? Por pior que ele fosse, não podia trabalhar com isso e continuar vivendo? Teve que transformar o centro da sua vida neste “babaca”? Talvez ele não seja tão ruim assim se virou a sua vida. Valeu mesmo a pena? – Ela continuou descendo as escadas com as malas.

- Onde você está indo? – Ele falou pasmo. – Você não pode me deixar. Não agora.

- Não agora por quê? Por que agora o “babaca” do trabalho não está mais lá? Agora o único que tem é você aqui? Agora eu importo? Se eu não fiz diferença nos últimos tempos, não vou fazer agora.

- Você não entende. Agora tudo vai melhorar.

- Estava tão ruim assim? Mesmo que fosse no trabalho, a nossa casa nunca foi ruim, hostil, babaca. Você nos puniu, você se transformou no babaca do trabalho! Você se afetou tanto por ele que se transformou nisso, lutou tanto que se tornou o que tanto "abominava". E nem quis escutar, e eu tentei... Todos tentaram. Agora o babaca foi demitido e eu vou me separar do outro.

- Como isso aconteceu? – Rodrigo continuava perplexo, querendo pegar a mala da mão da esposa em desespero. – Você tem que me amar.

- Eu amei! Onde você estava enquanto isso? Claro, estava pensando no “babaca do trabalho”! O problema é que você só pensou nisso, viveu para isso. – Ela foi até a porta, olhando uma única vez para trás, fitando-o nos olhos.

- E o que eu faço agora?

- Bem... Se eu fosse me basear no que vi e ouvi ultimamente, talvez seja bom você se ocupar com alguma coisa. Rever suas prioridades na vida, focar no que realmente importa... Foi o que eu fiz. Às vezes é útil, dolorido, mas reavivador. Quem sabe, ao fim, você até queira que recontratem aquele babaca. Quem sabe...

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