VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

AS FIANDEIRAS

A bela e triste arte de tecer o fio da vida.


Entre armas e gritos, ora de ira, ora do mais puro medo, era possível avistar um homem destemido e forte, lutando por sua vida e a dos demais. A surpresa de ter que ir à guerra trouxe melancolia e tristeza ao seu coração, ambas transformadas em ódio na batalha.

Estava casado há pouco tempo, sua mulher descobrira recentemente que estava grávida, a mãe desamparada tinha pulsos de alegria ao vê-lo e todos o idolatravam e agradeciam pelas gentilezas que fazia.

Mas, para a guerra, nada disso importa, a única coisa levada em conta é o derramamento de sangue e as lágrimas dos que ficam. Mesmo sem entender o porquê de estar ali, ele luta bravamente. Luta para manter a resiliência e a fé no retorno; luta pela vida. Observando atentamente a tudo estavam as três irmãs fiandeiras, as moiras, pertencentes à primeira geração divina.

Cloto assistia à cena sem largar o fuso e jamais se esquecendo de tecer continuamente o fio da vida. Láquesis, por sua vez, segurava o fio que a irmã lhe dava. Já Átropos, de quando em quando, cortava o fio que lhe era atribuído.

A vida estava à mercê das transformações, inconstâncias e do movimento eternos exigidos. Ora aclamadas, ora amaldiçoadas, as mudanças eram sentidas tanto pelos homens na Terra como pelas três irmãs usadas como meio para alcançar o auge e a depressão, a vida e a morte.

As fiandeiras faziam parte do imaginário daquele mundo. Para os mortais, Cloto era uma moça feliz em dar à luz todas as pessoas. Láquesis seria uma mulher melancólica ao sentar próxima à morte, tentando preveni-la a todo custo e trazendo bênçãos e felicidade às vidas que passavam por suas mãos.

A terrível Átropos, por outro lado, era vista como uma mulher muito idosa, feia e amargurada – tudo o que a humanidade evita –, que via prazer em destruir o que o homem havia construído, matando-o.

- Grande erro, grande injustiça.

Era isso o que se ouvia de quem já estava no outro plano, eles é que sabiam a aparência e índole de cada moira. Cloto não era a mais nova, e sim a mais velha. Experiente, fiava com tristeza profunda no coração, uma mãe torturada por ter que jogar os filhos no caos, sem poder lhes garantir nem o básico.

Láquesis era a mais nova das três, desinibida e despreocupada, várias vezes deixava o fio cair no chão. Sua maior diversão era testar o próprio poder, intercalando a existência humana entre o ódio e o amor, a alegria e o infortúnio, a separação e a união. Faltava ar à Cloto tendo que assistir aos mandos e desmandos, tentando intervir constantemente pelas vidas afetadas; e Láquesis ria como se não houvesse amanhã.

A injustiçada Átropos era, na verdade, uma mulher bela, a irmã do meio. Ela já não esperava reconhecimento algum e sabia que, para qualquer decisão que tomasse, seria apedrejada pelos que tanto ama. Enfurecida com sua incumbência, inúmeras vezes questionou sua função e, triste a ponto de ela mesma querer morrer se pudesse, Átropos trabalha.

- É a hora dele. Vamos dar um descanso ao rapaz, já brinquei demais com este fio. - Falava brincando Láquesis ao se virar para a irmã. - Pegue!

- Por que esse fio? - Cloto questiona.

- Ora, todos são importantes para você. E não me olhe com essa cara! Sabe que não estou passando o fio para Átropos sem motivo. Ele também fez suas escolhas... Você tece a vida e pode até tocar meu coração de vez em quando, mas não pode afetar tudo, irmã. Não pode tirar a escolha do homem sobre o caminho que tomará.

- Quem escuta pode achar até que você nem brinca com estes fios.

- Sabe que uma coisa não desmente a outra, Cloto. – Repreendeu, agora séria, Láquesis.

Láquesis estava acostumada com a reação de Cloto. Pensava, inclusive, que a ira da irmã frente às fatalidades da vida estavam em sintonia com a mesma sensação das mães do mundo. Só não sabia se era Cloto que influenciava o humor das mães ou o contrário.

Átropos permanecia quieta, imóvel, ciente de sua posição irremovível. A fiandeira resistiu até que foi jogado em sua mão o fio da vida do herói. Suas lágrimas caiam no fio como se estivessem preparando o guerreiro para a morte e conferindo a ele aquela estranha e reconfortante paz do fim dos dias. Sua mão tremia, o que tornava um tanto incerto o exato momento em que a pessoa morreria.

Cloto, a que viu a vida daquele homem nascer, como mãe apegada, vai até Átropos e toca gentilmente em sua mão.

- Conceda um pouco de toda a misericórdia que tem a este homem.

- Como? - Perguntou, interessada.

- Você tem uma escolha a fazer. Pense em tudo o que ele viverá a partir de hoje e forneça um final feliz ao herói, ao nosso filho.

Descendentes da Noite (Nix), tinham funções específicas e, unidas, personificavam o destino dos homens. Sem grandes pormenores, Cloto fiava, Láquesis mediava e Átropos cortava os fios. Entretanto, assim como pessoas no mundo, uma interferia na existência da outra.

As três mediavam a vida direta ou indiretamente com seu jeito e comportamento; as três interagiam para o corte do fio; e, claro, as três eram, querendo ou não, fiandeiras. O que restava ao final era o caráter da humanidade - a sobreviver junto e apesar da existência das moiras.

Ainda receosa e dolorida, Átropos compreendeu o pedido de Cloto e a função requerida por Láquesis. Com o coração esvaindo, agora sem forças, Átropos deixa de lado sua posição de deusa para abrir sua íntima “caixa de Pandora” e sentir o que um humano sentia. Como em um ritual, as três dão as mãos. Aos prantos, Átropos corta o fio da vida.

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