VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

Até Um Dia de Fúria

Pequenos obstáculos, discussões, cobranças... Até tudo resultar em um dia de fúria. Obviamente não precisa ser tão explosivo e explícito. O dia de fúria simboliza o limite, o descontrole, o fim dos sinais de alerta reprimidos, a derrocada. Quando os muros que construímos tentando sobreviver começam a esconder nossa humanidade? Com certeza, hoje é um dia diferente.


A pessoa insuportável que te faz querer desistir, desastres em variados âmbitos da vida, estresse, pressão, desespero, sorrisos falsos somados a grosserias, corrupção, todos querendo tirar proveito do próximo, a pia certeza de não haver rumos melhores... E o surto iminente. Hoje é um dia diferente: o ápice de uma sequência crônica e extenuante de acontecimentos.

Todo mundo já quis que um dia acabasse rapidamente. Dias e dias em conversas e reuniões em que preferimos nos calar em uma tentativa por vezes permanentemente frustrada de nos estressarmos menos... Até você se cansar de apenas escutar, é sua vez de falar.

Nas ruas depredadas por onde William Foster passa, a mensagem única: violência, matar, sobreviver, conviver com o estresse, matar, matar... Com seus primeiros ataques de exaustão e reação ao mundo que o cerca, ele se arma cada vez mais. Cansado de apenas ouvir, cansado do medo, era sua vez (de forma deturpada) de falar, agora detentor de uma voz rude e fatal após anos calando a voz suave e harmoniosa que combina com a vida em sociedade (sociedade quando pensamos em quem amamos e em atos de bondade, não nas ruas destruídas e desesperançadas em que ele passa, infraestrutura paradoxal desta cultura).

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Querem algo mais de mim? Não cansaram de me sugar? Eu decido agora o que vocês vão receber... E não vão gostar do meu humor hoje. É basicamente a mensagem de William frente a outros atores sociais tão estressados e absortos quanto ele. Depois de tantos avisos, é possível recuperar a voz mais sábia e harmoniosa?

E, neste cenário novo, como William percebe seu entorno? Até onde foi sua blindagem? Protege-se do estresse de forma equivocada, suprimindo ao máximo toda a pressão que os dias lhe agregam. Ele não só surta como se blinda de sua humanidade em uma tentativa de sobreviver. O que importa agora? William não vê a filha ("sua filha vai muito bem sem você"), está desempregado, exausto, renegado pela ex-esposa, perdido ("aqui não é mais sua casa")... Furioso.

Em um mundo violento, instilando derramamento de sangue e suor em trabalhos negativos, o fim mais provável dos atores é conhecido por quem assiste, exceto talvez por eles próprios em pensamentos ora de negação, ora negligência e ora conformismo disfarçado de valentia: a morte. Atos violentos acarretam mais e mais violência, instigando a vingança disfarçada de justiça. Pessoas que nada tem a ver com tal dia de fúria pagam com a própria vida pelo erro e descaso de outrem.

Os desconfortos a cada minuto poderiam ser lidados diferentemente, não pelo bem exclusivo de quem está nos estressando, mas pelo nosso em conjunto. Na rua, a miséria e desgraça alheia tomam conta do horizonte - seria uma terrível previsão, o futuro que, um dia, baterá à sua porta? Com tantas pessoas à periferia dos olhares, a polícia questiona o que um homem branco aparentemente empregado faz ali. Tanto tempo sem questionar traz à tona infindáveis pensamentos: por que tem que ser do SEU jeito? Por nunca do meu? O que custa? Quanto custa o respeito e o poder? Não sinto ter nenhum direito. Por quê?

Quem está sentindo errado? Será que só com armas vão se calar e me escutar? Uma tentativa desesperada de recuperar o equilíbrio há muito perdido. Resultado de uma vida sempre como coadjuvante, quando não um mero figurante sem falas. O que não justifica suas atitudes, apenas auxilia em um entendimento. Em uma rede de fast food, armado, ele ainda se surpreende com o choque das pessoas frente à violência, já banalizada pelo personagem.

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E William não é o único com uma visão corrompida em busca de soluções que nunca virão desta forma. Ele recebe a infeliz ajuda de quem vê na morte o fim de uma vida miserável e o começo de uma era melhor, claro que este não estaria inclusivo nas vítimas... Interessante.

"Somos iguais você e eu".

"Não somos iguais... Eu só quero ir para casa no aniversário da minha filha". "Porque na América temos liberdade de expressão".

A liberdade de expressão para William inclui o direito ao seu dia de fúria particular, a todo e qualquer custo.

E percebemos no percurso do protagonista (ou será que hoje ele é o vilão?) como a violência é uma semente que precisa de pouco para frutificar, ou melhor, apodrecer. Da mesma forma, pessoas somente gentis com uma arma apontada, não poucos nutrem parcimônia não por gentileza e bondade, e sim pelo instinto de sobreviver. Ouvimos junto a William discursos falsos, palavras bonitas que escondem pensamentos grosseiros. Além disso, as crianças entendem mais de armas que o protagonista. Talvez porque a violência seja divertida, enquanto irreal e longínqua. Irreal e longínqua desde quando?

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Do outro lado da história, temos um policial. Sua aposentadoria é invejada por muitos, simbolizando o fim do descaso, do cansaço e medo, fim de uma era sem falar, uma era em que você só escuta o que os demais têm a dizer e sobrevive em um inferno até então sem data para acabar. Pessoas que se deixaram reduzir a economicamente viáveis ou não, sentindo ter dado anos de suas vidas a um lugar por nada.

O policial Martin também começa a questionar o que tem feito na vida, ele e todos que passam pela história de William Foster. Há vida de qualidade depois da perda de um filho? Com uma vida mecânica, não esquece suas perdas, perdeu a crença em si mesmo. Por que não voltar no tempo? Apenas o presente é moldável.

Ele faz sacrifícios sem receber muita gratidão ou reconhecimento. É obrigatório o reconhecimento? E o sacrifício? O inconciliável e inconsolável desejo geral vem à tona: ser lembrado, a luta contra a maior das derrotas - cair no esquecimento depois de tudo.

Martin tem como sua última saga descobrir o que leva William a seu dia de fúria. O policial permanece perplexo por William não roubar nada. Em sua lógica, mesmo dando tiros e aterrorizando a população, ele estava em seu direito e, portanto, pagaria pelas coisas, “nada contra a lei”. Nada? O direito a um dia de fúria leva em conta que fúria?

Qual o ponto final? Mais assustador: como ele chegou até isso? Assistimos a vídeos de épocas felizes, cheias de amor, blindadas (aparentemente) das influências negativas e tristezas. E aos poucos percebemos a paciência se esvaindo, a demanda por perfeição a todo momento estragando qualquer resquício de felicidade. O perfeito não existe e o estresse não é algo que se pode matar com um tiro. Ou aprendemos a lidar e conservamos o essencial à vida ou nos damos um tiro diariamente.

IMG_2049.JPG "Acha que quero machucar a sua família? Eu tenho a minha família".

Tentando ferir quem nos ofende, nós nos jogamos de um precipício assistindo à perda do que mais importa. Se nosso dia gira em torno de outro, jamais seremos protagonistas. Perdemos o paraíso por não reconhecê-lo a tempo. O dia de fúria coincidiu com o aniversário da filha, o paraíso já esteve muito perto e hoje nunca ficou tão longe... "Eu sou o bandido? Como isso aconteceu? Eu fiz tudo o que me mandaram...".

William é reduzido ao louco, ao desvairado com uma arma, uma existência que se resume a um dia específico pelos demais, um dia de fúria extrema e irrecuperável. Todos estão estressados. Não há mais paciência, não apenas William está sufocado, a diferença é que o seu dia de fúria teve proporções astronômicas, envolveu mais do que um manifesto de revolta controlado e minimamente ofensivo, tirou o direito dos outros a terem dias de fúria e, mesmo assim, viverem em harmonia após o ápice do cansaço e comprometimento psicológico.

O que deveria torná-lo especial é sua história, sua filha, seus amores, não o dia de fúria, não apontar uma arma para quem aparecesse. Vida desperdiçada? Por que se fixar nos desgostos, intrigas e brigas? E agora estava tirando vidas direta ou indiretamente. William já sabia como terminaria. Questão de infelizes escolhas. De um dia simples ao fim de uma fúria mortal. Por isso, William não teve direito a ter e prosseguir com seu dia de fúria, ele queria levar mais gente ao inferno no suposto caminho de seu paraíso.

O engraçado deste inferno é a persistente fixação de que você está certo, mesmo beirando a loucura por se inserir continuamente no inferno dos outros. William só desejava voltar para casa depois de um dia de trabalho. Não conseguiu. Mas nós podemos. Ainda conseguimos voltar para casa, para aqueles que nos amam.

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Não precisamos viver pelo que os outros pensam, pelas ordens infindáveis, precisamos viver, respeitar e ter voz. Manter aquela voz harmoniosa, serena e sábia viva. Colocar em primeiro lugar o paraíso. Apenas desta maneira nos afastamos do inferno alheio que querem nos vender.

E você, como chegou até aqui? vick.jpg


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