VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

O show da VIDA – liberdade a todo custo

Até que ponto queremos aparentar a vida perfeita? E tê-la? Quando isso realmente começa a interessar a algum público além de nós mesmos? Até onde o entretenimento pode ser soberano frente à vida? Em que ponto a mentira e a atuação deixam de ser aceitáveis?


Truman Burbank tem uma vida simples, sem grandes problemas para lidar. Uma esposa bonita, um emprego fixo, uma mãe que o ama, uma linda casa, clientes generosos e vizinhos agradáveis. Nada do que reclamar. Assim passa seus dias, fixado ao solo, sem preocupações, sem desafios... Porém, é inerente e inevitável que dia após dia ele questionasse seus hábitos, escolhas e, inclusive, as pessoas com quem convive.

A vida é muito mais do que ter as respostas, o segredo da magia que nos cerca pode estar na arte de fazer as perguntas. Que opções eu tenho? Não pode ser só isso. Quem disse que não há outro jeito? Qualquer coisa, eu crio. É na desistência que se abriga a verdadeira perda. OUSAREI?

"Desculpe, filho" é tudo o que escuta ao ser impedido de ousar, viver... Com uma manipulação ferrenha da mídia, das leituras, do trabalho e de todos (desde os desconhecidos até quem mais confiava), Truman é constantemente boicotado sem perceber. Das ideologias, das opiniões, dos traumas induzidos, tentativas de aniquilar o jardim construído em sua imaginação. É isso e pronto.

Ousar, questionar... VIVER. O profundo anseio de Truman, uma semente forte e inexorável que exige pouco para dar frutos. Basta imaginação, vontade e coragem para chegar ao céu. Criado sem saber em um reality show onde todos, exceto ele, estão atuando sem grande sentimento nessa vida cenográfica, Christof – o criador do show – revela com orgulho ao mundo como conseguiu o maior papel de todos: atingiu o status de DEUS no mundo de Truman, “real” apenas para ele. E o que é real? Não mentir? Então, nada é real. Seria real o livre arbítrio, a chance de fazer escolhas, você viver sendo o diretor, e não Christof?

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A missão aparentemente fácil de manipular a mente de Truman tem como incógnita o resultado. Christof e o público apenas supõem o que ele pensa baseado no que assistiram até hoje, porém nunca puderam averiguar.

Não é possível aniquilar sonhos, podemos escondê-los, reduzi-los, mantê-los esquecidos por um período variável com uma única certeza, ignorada pelo iludido e egocêntrico Christof, impensada por Truman até então – os sonhos sempre voltam.

Talvez a frustração e ansiedade venham do que lhe foi privado desde o início: o poder de escolha. Christof alegava que Truman não precisa decidir nada, porque com sua vida “perfeita” a escolha era intrínseca e aparentemente óbvia. O público aceita tal ideia como dogma. Todos querem a vida perfeita, a menos que tenham uma...

Com e por Truman, questionamos: a realidade - por mais vil, cruel e, por vezes, descabida que seja - é o que procuramos? Nosso desejo implacável, a razão de nossa existência? Queremos a verdade ou o que nos convêm? Até que ponto a mentira supre nossas necessidades intensamente arraigadas?

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Podemos não gostar da realidade e considerar a ignorância uma benção - pode ser -, mas os baques da vida fornecem ímpeto à mudança, ao viver. Por mais dolorosa que seja a luz após longos períodos de vasta escuridão, esses são os momentos decisivos: segue dando círculos ou muda de direção?

O quão longe você já foi? Truman não está convencido de seu rumo, ele quer alternativas, encontrar-se no mundo. Quer sair, explorar, errar, aprender; quer decidir. E, quando se escolhe, tudo - inclusive as consequências - tem outra conotação.

Os atores do reality não sentem, é “apenas” um papel. Tudo o que significa para ele é tratado como lixo pelos demais e Truman começa a questionar se suas concepções seriam mentiras como as que lhe contam. Todas as suas verdades foram arremessadas ao mar? O que ele tira de sabedoria tem, claro, seu valor inestimável. Truman é de verdade. Contudo, dói na carne reconhecer o roteiro mal escrito do qual participou. Só Truman acreditou? Apenas ele foi traído? É o único que SENTE algo?

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O personagem persiste na busca pela verdade, desvendando a falsidade. Quem nos engana? Quem é verdadeiramente amigo? Quem se aproveita? Inimigos não são feitos de um dia para outro, apenas descobertos. Todos que participaram das mentiras, que o enganaram e que podaram seus sonhos não queriam seu bem. Nunca foram amigos.

Confrontados no mundo que conhecemos, os atores se amparam na subjetividade do que seria real. Para ser real, é preciso conhecer o mundo de alguma forma - física, simbólica, emocional, psicológica, rude, cruel, feliz -, qualquer. Só que a peça-chave é viver com sentimento, intensidade em suas escolhas, sentir onde está, onde pisa. Deixar a semente da vida florescer por entre as junções da mente.

Quer fazer o quê? Estudar, casar, ficar solteiro, ter filhos, não ter, arranjar um emprego, guardar dinheiro e EXPLORAR? Mas esse mundo não pode ser explorado, está longe da realidade, é um cenário infinitamente mais restrito, de certa forma. É preciso podar as plantas que surgem em sua imaginação, é preciso exterminar as sementes e amaldiçoar o solo para que não nasça nada ali. A tesoura que poda impiedosamente é o medo.

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Se persistir (que interessante e nobre é a resiliência!), todo o empenho de Christof será em vão. "Até em um mundo ignóbil, a beleza sempre acha um caminho". Ignóbil, ermo, devastado... Sempre haverá esperança se alguém se importar verdadeiramente.

Neste mundo coreografado e roteirizado, uma intrusa. Truman se apaixona por Lauren sem encontros perfeitos, sem diálogos pensados, apenas vida. Mesmo tirando a moça do programa e da vida de Truman - coisas separadas apesar de concomitantes -, o criador da série não consegue tirar Lauren da vida de Truman, ela fez parte de momentos marcantes e despertou sentimentos nobres no protagonista, querendo o criador e o resto do mundo ou não.

Podemos enganar o amor, as emoções que tornam a vida uma experiência real? Várias condições nos levam a encontrar pessoas no caminho, mas deixá-las para trás é uma escolha individual. Lauren e Truman se apaixonaram por acaso, o show separou os dois, porém jamais apagaria a vida, não convenceria Truman a deixá-la ir.

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No cenário (a “vida” para Truman), as pessoas à sua volta nem se davam ao luxo de tentar ver aquilo com seus olhos, como realidade. Eram atores contratados para manipular as ações do protagonista como um boneco de ventrículo ou um fantoche. Que o roteiro não seja nem o que Truman quer, muito menos o que é melhor para ele. O público é soberano, o entretenimento é o rei. E que seja divertido aos telespectadores!

Ninguém entende Truman, ninguém vive em sua cabeça, não ouvem os pedidos mais secretos, as ideias mais vivas. Como pode estar insatisfeito se uma vida sem problemas, uma vida idealizada é sinônimo de felicidade? Talvez devamos reformular a pergunta, talvez a premissa esteja equivocada. Sem dor lembramos os bons momentos? Sem lágrimas lembramos a importância da risada? Sem lembranças aprenderemos com o passado?

Queremos apresentar vidas perfeitas não para os demais, e sim para nós mesmos. Quem engana quer SE enganar. Christof construiu uma vida pensando no que era ser feliz, e esqueceu-se de acrescentar amor à receita. Talvez ELE quisesse ficar feliz com sua criação, a despeito do que Truman precisava ou queria. Christof jamais seria Deus, a começar por tal premissa.

Enquanto isso, absortos com inusitadas reações de Truman, as pessoas esperam dessas vidas um espetáculo pronto para servi-los. O que não tem serventia não precisa existir no mundo particular de cada um. As apostas verdadeiramente divertidas são com a vida alheia. E, de repente, tudo fica interessante: Truman começa a dizer chega. Chega de não decidir, chega de passividade, apenas chega!

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Desconfiado quanto a quem tem o real controle sobre sua vida, compenetrado em retirar as máscaras de quem pensava conhecer e mentia sem remorso uma vida inteira, Truman inicia uma saga em busca da liberdade. Ele escolhe. Vive em um "mundo como deveria ser", mas será que prefere mesmo sua "cela"? Começa a testar seus limites e tudo o que lhe era dito. Dirigindo sem rumo, testa após décadas a espontaneidade.

"Por que quer ir pra lá?". "Porque nunca fui lá".

Somos humanos, geniosos, curiosos, descobridores ávidos e damos importância às mais variadas coisas. Queremos mais. SOMOS mais. A vida não basta sem a nossa versão da história, sem nossa palavra, nosso sentimento. E, dessa maneira, liberdade para decidir.

Chega a um ponto em que toda farsa tem que acabar. Ninguém conseguiu seguir Truman no mar. "São todos atores, não sabem velejar", que ironia! E Christof insiste, criando uma perigosa tempestade.

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Quando um homem quer a liberdade, somente a morte pode impedi-lo. Em nome de sua criação, sua idealização de mundo, Christof chega ao ponto de quase matar Truman ao vivo para todo o mundo, já há muito havia banalizado a vida e prosseguia tratando a morte como outro espetáculo. Age como um cientista que desconta as frustrações na cobaia. É isso que Truman é: não um filho, e sim uma cobaia, um objeto descartável.

Então, uma saída, exigindo uma escolha. Não importa o quanto tentem controlar sua realidade, inclusive impedindo que esta o seja, uma hora a vida dá o troco em quem quer mandar nela e fornece a chave das algemas que o prende.

O público fica feliz por Truman, espelhando-se nele. Queremos escolher, mesmo que doa. Queremos Truman feliz, não perfeito.

"Não tem nada a temer" ali, naquele mundo criado? A realidade nua e crua pode ser um castigo, porém toda essa vida impenetrável e sem sentimentos reais envenena lentamente.

Truman não tem medo, está satisfeito com suas escolhas, ciente da escuridão do caminho, sabendo que haverá lances de luz quando necessário - haverá verdade, haverá amor, haverá liberdade para escolher.

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Se por acaso não nos virmos, bom dia, boa tarde e boa noite!

O que vamos ver agora?


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Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história.
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