VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

CULPADA PELA TRADIÇÃO

Ela deveria ser a pessoa mais satisfeita e realizada da Terra pela lógica dos que a viam passear, comprar o que quisesse, ter um carro com motorista, ter pais que fizessem todas as suas vontades e até o direito de estudar. Ela era perfeita, linda, inteligente e admirada.
E a garota que tinha tudo para ser feliz - a mais invejada da região - só queria que alguém lhe oferecesse ajuda, piedade.


Saindo da cidade, um carro passava por áreas desertas, construções antigas abandonadas e resquícios de guerrilhas passadas aguardando ansiosamente pelo retorno certo das grandes explosões. Dois homens focavam toda sua atenção para a estrada. Após quase uma hora dirigindo sem parar, o carro para bruscamente e os dois homens saem armados. Dali era possível avistar uma bela moça, de preto, ainda com suas joias, correndo na imensidão solitária.

Não tinha mais fôlego, seus pulmões não conseguiam mais utilizar o ar, o coração enfraquecia, nas pernas começava uma dor surda que se tornava intensa. Não podia parar, não deixaria de lutar. Os pés já sangravam há algum tempo. Contudo, era possível relevar grandes sofrimentos por algo maior, inestimável e insubstituível para ela.

Os homens a alcançaram, cada um pegou em um de seus braços e a dor aumentou subitamente. Ela parou. Percebeu o coração cessar por um momento quando sentiu a força sobre seus braços e os pés deixarem de seguir em frente.

- Senhorita Ayla, não devia ter feito isso. Conhece bem os costumes! Agora, restam apenas duas opções.

- Isso é muito mais do que já tive. Não tinha nenhuma, agora tenho duas escolhas. Por favor, deixem-me ir. Vocês não precisam contar a ninguém. Simplesmente não me acharam...

O desespero inibia as lágrimas. E, nos instantes em que chorar era opção, a força e dignidade que precisava manter mesmo diante daquela situação a fazia se segurar.

- A senhorita sabe que não é assim. Sentimos muito, crescemos com você... – A voz do homem já estava embargada e os dois afrouxam a força sobre os braços da moça. – Mas... Mas são as regras.

Ayla corre mais uma vez, entretanto não havia grandes possibilidades ali, as chances estavam contra ela. Uma escolha se fazia mais necessária do que nunca. Sabendo que não conseguiria ir muito longe, Ayla se vira para os dois homens. As feições rígidas estavam agora entristecidas.

No encontro dos olhares, relances do passado invadem o presente. Crianças brincando juntas em um jardim à tarde, o sol e o vento lembrando que a vida estava em seu auge. A alegria e inocência que se perderiam com o tempo... Os tons do afeto deixaram o ódio se transformar em compaixão e agonia.

- Nem é tão mal se casar com aquele homem.

- A questão nem é ser ele, trata-se de eu não ter uma opção. Quero ser livre, não quero viver aprisionada. Podem não me acorrentar fisicamente, mas minha mente nunca terá vontade própria. Isso não é vida, não para mim. Eu não tenho culpa de sentir isso! Não está certo. Apenas não está...

Ayla se ajoelhou em frente aos homens, permanentemente atônitos. O semblante preocupado com o desfecho se traduzia pelas mãos trêmulas e o sentimento de rebeldia e vazio ao mesmo tempo. Entre os dois, ela toca nas mãos deles e olha para cima, em busca de uma resposta. O desolamento no rosto de Ayla agora era acompanhado de um olhar fixo aos homens, um olhar absurdamente calmo e equilibrado em sua essência.

- Meus irmãos.

A quietude dos homens se transformou em culpa e lágrimas.

- Vocês sabem que estarei morta de qualquer forma se não puder escolher meu destino. Não haverá nada dentro de mim mais. Só o vazio do que já foi preenchido com esperança, felicidade e amor. Uma vez tendo experimentado os sentimentos mais nobres, não é possível sustentar-se em uma prisão. De onde tirarei forças para sobreviver, porém sem viver? Sem amor? Eu não tenho coragem de fazer isso, salvem-me deste inferno. Vocês que sempre me protegeram, façam algo! Casar com quem não quero? Estar presa? Não poder sair, ver o mundo, trabalhar? EU valorizo isso! Ficar o resto da vida sem opinião, sem poder sonhar? À mercê da vontade alheia. Isso não é vida. Vidas transformadas em instrumentos da vontade alheia não são vidas para mim. Deixem-me ir, libertem-me.

Um dos homens já não tentava mais controlar a tristeza. Libertando de uma vez por todas as lágrimas que mascarava com cuidado, guardou sua arma. Por outro lado, o segundo homem, visto como um irmão tanto quanto o outro, olhando Ayla, decidiu apagar da memória as cenas deles juntos.

Era a tradição, eram as leis. Ela estava errada para ele. Aquilo não podia ter outro desenlace. Mesmo que o fim fosse extremo. Lá estava a menina mais invejada da região querendo ser como as demais.

As lágrimas caíram enfim e ela fez questão de encontrar os olhos dos dois, de forma quase reconfortante. O primeiro virou de costas, desnorteado e sem conseguir respirar. Ayla junta suas forças pela última vez em sua derradeira tentativa. Com um impulso único, corre em direção ao nada em busca de uma solução que não viria. Os pés estavam a ponto de ceder pela dor, pelo cansaço e por saber o que estava para acontecer.

E tudo o que se ouve e observa partindo do segundo homem é um tiro e lágrimas caindo em um chão sem vida.

childrennnn.jpg


VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS