VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história

Dois pontos a lápis

Todos cometem erros, afinal.

Sabe qual a pessoa mais cega do mundo?


Uma tarde. Duas vidas. Duas irmãs que há muito não se viam. A vida pode surpreender. O inseparável se afastar. O incomunicável dialogar. O supostamente invencível perder. O sem senso prevalecer...

– Não tinha certeza se voltaríamos a sentar e conversar como antigamente.

– E antigamente nunca imaginaria o contrário. – Disse a irmã mais velha, com um tom doloroso, amargurado.

– Eu nunca entendi como as pessoas poderiam ficar brigadas por tanto tempo. Histórias de pessoas que não se falam há décadas. Não parecia real. Não parecia algo plausível. Muito menos algo que eu... Teria. – As duas pausam o olhar e, em um segundo, desviam os rostos, desviam o passado. As palavras eram difíceis para a irmã mais nova. Pareciam inocentes demais. E ela sentia falta dessa inocência.

– Acho que isso explica o quão complexos somos. Muitas histórias, perdas, pensamentos, ideais, o que nos cerca... Ninguém é eternamente o mesmo. A diferença é se acompanhamos as mudanças ou perecemos na relação. E perecer não é necessariamente algo ruim. Só é diferente, eu acho. Só diferente. Mas dói! Principalmente se perecemos com quem isso não devia ocorrer, como uma irmã.

– E nós mudamos. Nossas versões de dois anos atrás são bem diferentes. A minha é! Eu tinha muitas certezas, tinha perguntas diferentes e as respostas também. Com o tempo, há perguntas que decidimos fazer e outras começam a ser evitadas. – A irmã mais nova deixa o pensamento longe.

– As coisas mudam, as prioridades mudam. Mas fico feliz de tentarmos superar essa desavença. – De repente a irmã mais velha se questiona se o termo desavença era apropriado ou se deveria ter usado qualquer expressão que fosse. Ou nenhuma. – Não sei a palavra certa. – Ela riu. – Somos irmãs.

– Eu não consegui entender como você lidou com a nossa mãe. Eu queria deixá-la ir e você... – Há palavras que talvez não devessem ser ditas ou, no mínimo, seria questionável como expor. Mas não interessa. Não naquele instante. – Você quis continuar a qualquer custo. Eu fiquei brava, frustrada. Porém eu devia ter ficado! Ter te entendido um pouquinho, mesmo sem concordar. Não devia ter me fechado. Na hora, eu só não me conformei e não quis conversar. Eu sabia apenas que não importava o que você ou todos achassem, eu deveria conviver com as minhas escolhas. E pensei que corroborar com o que vocês haviam decidido se tornaria um fantasma a me assombrar.

– Eu sei. Agora eu sei.

– E eu sempre acreditei que, mesmo que de forma inadequada como simplesmente sair de cena, se eu mantivesse o que acreditava ser certo, estaria honrando nossa mãe. De alguma forma, ela entenderia. Nós mudamos... Não concordo com o rumo que foi tomado, mas entendo que somos irmãs e não deveríamos nos ausentar assim. Ainda nos vemos, só que uma distância existe.

– Sim.

Um sim amargo da irmã mais velha, que jurou a si mesma desde o falecimento do pai que cuidaria da família e a protegeria das feridas do mundo. O amargo vem da noção de que a ferida não foi aberta pelo mundo, foi aberta por ela, pela irmã, pela família... O velho conto do remédio e do veneno. E quem prescreveu e assinou a dose foram as pessoas com o laço mais forte: duas irmãs.

– E não existia antes. Essa distância. Não fiz tudo aquilo para trocar um fantasma por outro. – Dói admitir o que estava tão bem escondido. Todavia, o que está escondido não desaparece jamais. Por mais que tente, você sabe onde está e isso consome.

– Também não quero isso. Estamos sofrendo. E eu sei que não aceita como as coisas foram. Eu também me questiono hoje. Só que eu precisava. Por tanta coisa! Hoje não sei se faria igual. Eu mudei. Porém eu precisava...

– Quando você me ligou eu não sabia se viria. Acho que já não sou a mesma versão nem de dois dias atrás.

A irmã mais nova terminou a frase e riu, com vergonha, sem orgulho do passado, mas riu. E as duas compartilharam o sorriso... Juntamente à sensação de erro. Todos cometem erros, afinal.

– Não somos simples, não é? E nem a vida é sempre “simples”. Como um ponto desenhado a lápis: pode virar qualquer coisa ou até desaparecer a qualquer momento. Há pessoas que eu decepcionei e me decepcionaram na vida. Não voltamos atrás com todas, nem tentamos às vezes, nem sempre parece certo ou importante ter a pessoa próxima. Mas nós... Nós somos irmãs. Já demoramos, não é? Não te quero longe da minha vida.

– Eu nunca devia ter te julgado. Confundi as coisas. Eu queria e acho que tenho o direito de julgar o que aconteceu, as escolhas, as atitudes, mas não você. Não NÓS. No ímpeto de avaliar a situação eu nos coloquei na fogueira. Não é possível jogar alguém no fogo e não se queimar junto de alguma forma.

– Também sinto isso. Não fui justa em não te ouvir. – A voz da irmã mais velha está tensa. Sem saber para onde mais ir com aquilo, algo vem à mente. – Sabe qual a pessoa mais cega do mundo?

Silêncio. Elas não se intercalavam mais no diálogo. Ambas vivem da expectativa pela resposta final.

– A que tem certeza que vê tudo como realmente é.

A frase ficou no ar por bem mais tempo do que o possível e plausível. Eram os pensamentos das duas que deixavam vivo no ar o que havia acontecido. Perdão e renúncia. Renúncia de estar sempre certo. Renúncia do orgulho ferido. Tudo por algo maior: AMOR.

Dois pontos que podem se apagar no decorrer da história. Ou quem sabe sobreviver ao tempo e até se perpetuar conforme as possibilidades. Dois pontos passíveis de formar qualquer desenho. Pontos que se unem e se separam. Pontos como quaisquer outros, porém com uma capacidade inimaginável de mudar as páginas.

Uma tarde. Dois pontos. Duas decisões. Duas vidas. Duas irmãs.

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VICTÓRIA AMPESSAN DAMAS

Que a intenção deste texto seja alcançada: o contato com um novo olhar, o entendimento de outras perspectivas e a vontade inexorável de prosseguir questionando, buscando a sua versão da história.
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