livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

A sorte...

É bom ter a sorte de viver um amor em paz, amor sem pressas, amor sem desamor, sem o eufemismo histérico da paixão, sem a monotonia desinteressante dos espaços vazios. É abençoado quem tem a sorte de viver um sentimento que cresce e se consolida em todos os sentidos.


Quem disse que era preciso viver paixões a mil à hora para amar mais? Quem disse que era preciso ser mais sexy para amar melhor? Quem disse que era preciso deixarmos de ser nós próprios para nos amarem? Sabe bem o sossego que nos desafia eternamente e que nos enche a alma para continuar a caminhada.

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Esta actualidade de intelectualidades forjadas, de opinadores independentes (dos quais não me excluo), conduzem-nos a um sem fim de teorias não filtradas a que nos expomos diariamente. Isto obriga-nos a uma adrenalina diária tal, que nos remete para um exercício cerebral contínuo que desaba num deserto de solidões, refém da opinião e teoria alheia. Esta nova oportunidade dada ao ser humano, de poder mostrar-se ao mundo através das redes sociais, a capacidade de poder reflectir imagens de si próprio sem a chancela da consciência, catapulta-nos mais do que nunca para a era do "faz de conta". Que pobre visão, enriquecedora na intenção, e fraca na transparência...quem não descobriu ainda o abismo que existe entre o que achamos que somos e o que realmente somos. Afastamo-nos cada vez mais da nossa essência, cheia de defeitos verdade, mas verdadeira e humana. Dividimo-nos em milhares e não nos dividirmos com ninguém em especial. Somos realmente o reflexo do que damos, e considero demasiadamente egóico quando decidimos dar-nos em imagens ao mundo, e nada temos para dar aos que estão mais perto de nós. O reconhecimento alheio de quem mal nos conhece, dá lugar a uma soberba de Ego, que nunca poderá competir com o relacionamento cheio de imperfeições que temos com quem está perto.

Num planeta saturado de relações falhadas e amores medíocres, que deixam as pessoas de copo meio cheio, não será solução viver a adrenalina de um amor a mil à hora, não é atraente o sexismo energético e urgente, não é tão pouco sensual um ser humano que nada mais tem mais para oferecer do que o poder da sedução. E no entanto, o consumismo atirou as relações para este patamar. Sinceramente, é isto mesmo que queremos? Quando chegamos a casa, só queremos mesmo encontrar um porto abrigo longe do mundo, esvaziar a cabeça, e ser nós mesmos.

É bom amar baixinho, é bom amar em partilha plena, é bom voltar a um porto de abrigo onde nos sentimos seguros. O amor é disto que trata, constrói abrigos onde nos sentimos bem, é o lugar para onde queremos voltar sempre, é o lugar que nos faz dar o nosso melhor, e que faz de nós seres melhores. É o lugar que aceita o nosso fracasso, e apesar disso continua a acolher-nos. O mundo precisa urgentemente desta vontade, de querer mais e melhor. Mas, caiu em desuso o amor, é pouco intelectual, algo idiota (?) e para gente desocupada. O consumismo afectou também este conceito, e existe esta necessidade de imagem de marca de que amar é para pessoas demasiado sentimentais. Já muitos se terão esquecido que o Amor não 'Emburrece', o Amor 'Engrandece', mas isto apenas é válido para quem tenha passado para lá da necessidade de afirmação social e baste-se apenas como ser humano. Na verdade, o fracasso sucessivo em relações leva o ser humano a encontrar muletas para se desculpar na sua pobre arte de sobrevivência. Conclui-se que encaixamos melhor num mundo de solidões repetidas onde o Amor é para 'tontos', e seguimos felizes, crentes de que a nossa bandeira de independentismo moderno é muito mais atraente e sexy do que o velho Amor. De que serve ser atraente, independente e sexy, se a fonte secou?!!

Não há muita paciência nem disponibilidade, para andar a brincar às experiências, não é preciso muita maturidade, é preciso sobretudo saber-se o que se quer afinal desta coisa chamada vida. Nem que para isso, seja feito um largo intervalo, a sós. Estar só não significa estar sozinho, estar só significa apenas dar prioridade às nossas prioridades...para sabermos afinal por que caminho queremos trilhar, que caminhos queremos cruzar, sem nos alhearmos da responsabilidade que acarrecta em nós cruzar o caminho de alguém.

Vale a pena caminhar de mão dada em direcção ao sol, construir, conhecer, experienciar, sentir, melhorar o nosso mundo, melhorar-nos como pessoas. Não há tempo para situações que só roubam tempo ao nosso tempo.

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Óbvio que nem tudo são flores, mas quando temos a tolerância justa que só o Amor pode conferir a alguém, conseguimos ver realmente quem temos à nossa frente, e largamos por momentos os nossos egos inflamados ou desinchados. Quando conseguimos olhar para lá das janelas da alma, vemos muito...muito mais, do que a mera sobrevivência do ser humano que transformou o Amor num "toma lá, dá cá". Lágrimas e sorrisos fazem parte do caminho, zangas e euforias também. Não existe o estágio da perfeição nesta dimensão. A perfeição é desinteressante, é muito mais atraente usar o nosso tempo precioso de vida a evoluir, a conhecer, a partilhar num verdadeiro companheirismo, a vida passa e acaba num ápice...e isto é mesmo verdade. Não devem incomodar os momentos menos bons, desde que se consiga ver a verdadeira essência, desde que se ultrapasse tudo de mão dada, e isto só acontece, quando vale a pena, quando há algo mais importante que tudo a manter, um porto de abrigo, uma fortaleza. Porque é disto que trata o amor, de portos de abrigo.

Não se faz com prosas, faz-se num crescimento conjunto, faz-se com o tempo, faz-se todos os dias, faz-se com os compassos que o tempo pede. Caminhar de mão dada pela vida fora, na certeza de construir um porto de abrigo que valha a pena manter. Ter o privilégio de encontrar e manter esse porto de abrigo, é uma oportunidade que não passa pela vida de toda a gente, ou talvez, mas o nosso saber poderia ser pouco para valorizar o suficiente.

Este é seguramente um oxigénio que vem da montanha e sem o qual todos nós vivemos muito bem, mas dentro de nós, carregamos a certeza de que viveremos muito melhor com ele.


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