livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

Ensaio sobre a textura da actividade cerebral

Olhando de fora para dentro, é possível entrar na abstracção e analisar os mecanismos cerebrais. Este exercício para além ser interessantíssimo, faz sentido para compreender as extensões e ramificações que este tema abarca.


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Sem dúvida o cérebro é o órgão mais atraente de um ser humano.

Olhando de fora para dentro, é possível entrar na abstracção e analisar os mecanismos cerebrais. Este exercício para além ser interessantíssimo, faz sentido para compreender as extensões e ramificações que este tema abarca. Observando os diferentes eventos que fazem despoletar um mecanismo cerebral, identifico como factor chave o tempo de análise que é dado ao cérebro para reagir. É possível numa primeira análise tipificar três reacções distintas do cérebro e que dependem directamente do evento que lhes deu origem. Faz sentido sistematizar a partir do evento e não da sua consequência (reacção cerebral).

Eventos Padrão

Os eventos padrão ocupam talvez 90% da nossa actividade cerebral. Decorrem de situações enquadráveis num padrão social herdado quer seja por factores educacionais quer seja pela estrutura padrão implícita que o efeito geracional causa na sociedade. Não sendo eventos que provoquem grandes aventuras cerebrais, caracterizam-se por serem eventos recorrentes, e que não obrigam a uma saída da zona de conforto cerebral.

As nossas secções cerebrais podem ser enriquecidas através do conhecimento racional ou através da cadência de eventos, que constituem uma linha padrão de comportamento sistematizada. Desde o livro que acabámos de terminar, passando pelos mecanismos automatizados diários, até à interacção diária com outros seres humanos, identifico um padrão comum em todos estes eventos: Tempo de reacção - É o tempo que ocorre desde a recepção do evento até à sua reacção (causa-efeito), que nos permite percorrer a mesma cadeia de procedimentos cerebrais. Entrando numa maior abstracção, consigo identificar alguns perigos que representam os comportamentos cerebrais face a um evento padrão. Estes perigos, se é que posso chamar perigos, residem no facto de posicionarmos nas secções de eventos padrão, as situações de caracter emocional quando analisadas friamente. Exemplo disto, é quando alguém nos relata um episódio de tensão emocional ocorrido com terceiros, e rapidamente adoptamos uma postura baseada em padrões cerebrais, o chamado "bom senso" que toca os nossos ideais de perfeição comportamental. É imediata e instintiva esta reacção do ser humano, e só representa perigo, porque quando somos sujeitos à mesma situação emocional, não temos tempo para consultar as secções cerebrais e inevitavelmente reagimos de forma diferente. O perigo reside precisamente nestes desvios de comportamento teorizado e prático. É daqui que nascem as famosas afirmações ‘fulano A não parecia ser assim’ ‘que decepção’.

Eventos urgentes

Analisando os eventos que assumem carácter urgente no nosso cérebro, importa distinguir os eventos sobre os quais não temos qualquer capacidade de reversão (ex: mortes), e aqueles que exigem uma actuação rápida. Um evento urgente de caracter passivo, apresenta-se como inesperado e não nos viabiliza qualquer capacidade de reversão do evento - impotência. Assumem maior ou menor impacto no nosso cérebro, dependendo do distanciamento que temos da situação. Quando estes eventos ocorrem na nossa proximidade afectiva, o cérebro regista um momento de dor. O primeiro procedimento cerebral que identifico numa análise abstracta, é precisamente a identificação do evento: Evento Conhecido (com registos prévios) ou Não conhecido (sem padrão constituído). De seguida, e aferindo a métrica da Dor, é necessário considerar o factor Distanciamento da situação alvo. A métrica da Dor é fornecida por estes dois indicadores, e atinge valores máximos quando o evento é novo e o distanciamento entre nós e a situação é reduzido. São estes os eventos que nos fazem perder a cabeça. Esta expressão faz-me todo sentido, é uma dor sobre um evento novo com proximidade de afectos da nossa parte, sobre a qual não temos qualquer registo padrão, e o ser humano, por muito que não se goste, só quando sujeito a padrões repetidos entra em velocidade de cruzeiro.

As urgências activas, são as situações que exigem de nós uma acção imediata. Colocam-nos à prova e trazem a nú o nosso instinto primário de sobrevivência. Gosto particularmente do reflexo destas situações limite, não da situação em si, mas no efeito surpreendente que tem nas pessoas. Poucos são os eventos urgentes que um individuo tem ao longo da vida, passaremos por 5 a 10 eventos destes por ano. É nesta reacção que a teoria desce à prática e vemos de que massa são feitas as pessoas. Importante na resolução destes eventos, é a capacidade de reflexo do individuo, nem sempre um individuo que se apresenta expedito em velocidade de cruzeiro das secções cerebrais, apresenta a mesma velocidade na resolução de incidentes. Na verdade, em velocidade cruzeiro, todos nós sabemos quais os padrões sociais de perfeição, quando expostos a eventos de carácter urgente, tendemos a bloquear todas as secções do conhecimento.

Eventos emocionais

Os eventos de natureza afectiva, situam-se numa fase posterior contínua, não têm capacidade para se auto-gerar, necessitando de um evento padrão trivial prévio. Apenas se começam a diferenciar quando abrem outros registos do campo cerebral. Por serem escassos, e por implicarem expressões físicas, não é possível enquadrá-los nas secções de conhecimento padrão. Temos espaço no nosso cérebro para todas as pessoas, não existe padronização nas emoções, cada pessoa é uma espécie de biblioteca que se instala no nosso cérebro. É muito comum perante um evento emocional “perdermos a escada” para as secções padrão da nossa biblioteca. Situam-se no campo das emoções, não registam memória padrão. Em sentido figurado, diria que, baseados em aspectos emocionais (sensações vivenciadas que provocam subida ou queda dos níveis de serotonina no cérebro), permitimos que uma biblioteca inteira, que não a nossa, bloqueie várias secções cerebrais da nossa biblioteca.

Quando os níveis de serotonina estão em crescendo, abrimos a entrada principal da nossa biblioteca para que uma nova biblioteca se instale. O nível elevado de serotonina proporcionado é tão elevado, que chegamos a ficar fascinados com “a casa nova” que agora existe em nós...isto só acontece porque a subida de serotonina bloqueou as nossas secções padrão - processo vulgarmente chamado de ilusão. Os níveis de serotonina começam em queda, quando os eventos provenientes da nova biblioteca começam a constituir padrões. Uma vez padronizados os eventos provenientes da nova biblioteca (Emissor de eventos), é inevitável a abertura das nossas secções cerebrais responsáveis pelo tratamento de eventos padrão. É aqui que se dá aquele choque famoso da humanidade “que desilusão” “não era nada disto que eu queria”. Este confronto de secções cerebrais pode provocar um caos de tal ordem, que é responsável por quedas contínuas nos nossos níveis de serotonina, levando-nos a situações de depressão, cansaço de pessoas e situações, etc. Considero ainda mais grave, quando um ser humano não se desprende e insiste na subida de serotonina que outrora aquela nova biblioteca provocou. Tempo perdido eu diria, uma vez que não será mais possível conviver com pressão sobre as nossas secções cerebrais.

Desiluda-se quem achar que é possível aceitar a coabitação de bibliotecas díspares, somos sempre fieis à nossa biblioteca até à hora da nossa morte, e a aceitação de uma biblioteca díspar, caso ocorra, apenas é possível se encontrarmos forma de colmatar a “falha” com outros eventos que despoletem subidas de serotonina (é nesta zona que se dão os casos extra-conjugais, situações de escape e fuga). O ser humano não consegue abdicar das suas secções padrão (comumente chamada “natureza humana”). Não é um tema aberto a discussão, é facto. É curioso observar que o nível de serotonina está sempre ajustado às nossas dimensões cerebrais, ou mais popularmente, a felicidade é ajustada ao saber de cada um. Uma biblioteca em expansão sentir-se-á sempre castrada com a pressão de bibliotecas díspares ou com a limitação da sua expansão, pelas quebras de serotonina que tal lhe provoca. O engraçado é que pelo facto de as emoções não registarem memórias padrão, passamos sempre pelo mesmo processo várias vezes e chegamos sempre a conclusões semelhantes.

Impossível passar pelas secções emocionais, sem evidenciar os afectos. Os afectos, são no meu entender, a sublimação extrema das emoções. Basta pensar que o mundo seria um caos se fosse baseado em comportamentos emocionais, é fácil compreender que os afectos são a mais nobre evolução racional sobre as emoções. O processo cerebral de construção de um afecto é magnífico. Embora nasçam de situações emocionais ocasionais, evoluem para o conhecimento padrão consentido. Ilustrando, posso descrever como afecto todas as bibliotecas que acolhemos na nossa casa, e depois de racionalizadas e confrontadas com as nossas secções cerebrais continuam a ser bem acolhidas. O processo de convivência, permite uma expansão conjunta de conhecimento, é por este motivo apenas que nasce o afecto, um processo racionalizado baseado em emoções e que permite crescendos na serotonina. É fácil perceber que o Amor genuíno é um processo que passa por uma racionalização. Chocante de facto, nada sexy, mas só depois dos confrontos é que a jornada se inicia.

Este tema é apaixonante, e é bom ter consciência de que mesmo forçando jamais conseguiremos deixar de ser fieis à nossa biblioteca, com todo o preço de vida que isso acarreta em nós, mas exista plena consciência que só conseguimos acomodar bibliotecas que nos permitam expandir, ou que pelo menos, não sejam limitadoras da expansão individual. É a única forma de atingir equilíbrio. Este tema é de uma complexidade simples e fascinante, desde que devidamente enquadrado, não podemos em circunstância alguma omitir-nos de nós mesmos, para comprar padrões de vida que não os nossos, é facto incontornável, e que nos indica de que nada serve tapar o sol com peneiras transitórias.


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