livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

Escrever uma carta...

Escrever uma carta é um pequeno prazer que nos relembra que nós já fomos diferentes. Hoje em dia não há tempo a perder, não há tempo para retornarmos a nós próprios.


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Numa era em que as novas tecnologias vieram para ficar, foram ficando para trás pequenos hábitos, que com o facilitismo criado pela era digital, desabraçámos rapidamente e nem nos apercebemos da importância que tinham no comportamento relacional.

Um destes pequenos prazeres que me vem rapidamente à memória são as cartas.

Hoje em dia já ninguém escreve a ninguém, as famigeradas contas são as únicas que aterram a tempo e horas na nossa caixa correio. Sinto saudades do tempo que abria o correio com a ânsia de procurar uma carta de alguém. Sinto saudades dos rascunhos que preparava, dos ensaios de afinação da letra, das leituras vezes sem conta antes de enviar a composição final.

A preparação de uma carta revestia-se de todo um ritual que se perdeu no tempo. Hoje em dia as interações entre as pessoas são imediatas, a fluência e cadência dos diálogos, seja presencial ou não, não permite a calma que permitia a preparação de uma carta. Quando escrevíamos cartas, dedicávamos um intervalo do nosso tempo exclusivamente a alguém. Ao longo da escrita de uma carta permitíamo-nos a vivenciar memórias, recordações, toda a presença de uma pessoa estava ali por inteiro no nosso pensamento. Não existe diálogo na carta, não existe interação imediata, não existe o impulso do momento, não existem decisões a tomar, não existe urgência em nada. Todo este ritual levava-nos a uma grande viagem até ao nosso caminho conjunto com a pessoa a quem escrevíamos a carta. Era um processo individual mas onde estavam apenas aquelas duas pessoas presentes.

Nas cartas resta somente o que importa afinal dizer, o que não é possível dizer na interação imediata. A elaboração de uma carta não só fazia com que ocupássemos o nosso pensamento exclusivamente com uma pessoa, mas também permitia que conseguíssemos estar a sós, verdadeiramente sós. Este processo, já hoje bastante raro, devolvia-nos uma solidão necessária, um regresso ainda que temporário à nossa essência como seres individuais. Ninguém escrevia cartas a fingir, ninguém escrevia cartas para discutir, ninguém escrevia cartas para chatear alguém. As cartas representavam o melhor que pode haver de uma interação entre duas pessoas, a vontade sincera de saber como está a outra pessoa, a partilha ansiosa e genuína do nosso dia a dia, a saudade expressa naquelas linhas pretas ou azuis, as memórias que nunca esqueceremos junto dessa pessoa e por fim, as confidências que por receios nunca dizemos à única pessoa que deve saber.

Como dizer a alguém nos dias de hoje: ‘Olha, queres trocar cartas comigo?’ Não há como, não existe esta necessidade. A tecnologia avança mais depressa do que a velocidade do nosso próprio pensamento pode abarcar. Uma sociedade necessita de várias gerações para abarcar uma mudança, a tecnologia entrou de rompante e em apenas uma geração, instalou-se comodamente com todas as consequências que isso acarreta no comportamento relacional. Hoje o tempo entre nós e os outros é demasiado curto, a distância cada vez maior.

É por este motivo que não fico admirada com a velocidade com que se desfazem relações de qualquer natureza, o fator impulso está sempre presente, a dinâmica entre as pessoas é contínua e sistemática, ninguém é dono do seu espaço hoje em dia. A pressão imposta pelo imediatismo, dá-nos um tempo diminuto de reação, isto abarca uma imensidão comportamentos imediatos, impulsivos e pouco assertivos. O tempo de maturação deixou de existir, o tempo do silêncio acabou, e com este fim, foram também as cartas.

Não deixa de ser curioso, como um fenómeno criado para aproximar mais as pessoas, apenas criou fossos de distância enormes. Afinal, não foi a distância que encurtou entre as pessoas, foi antes o tempo de acesso entre estas. O comportamento emocional subjacente a uma carta aproxima mais duas pessoas do que centenas de sms por dia. É simples perceber o porquê, a distância (leia-se distância saudável entre dois seres humanos) devolve-nos da nossa individualidade, a nossa essência. Isto não significa necessariamente que seria melhor vivermos afastados...Não! Muito antes pelo contrário. Vivemos hoje excessivamente interligados, somos projeções uns dos outros, vivemos numa comunidade de solidões próximas em tempo e cada vez mais distantes no espaço. Esta nova era trouxe este bónus comportamental, e face ao comodismo que tudo isto trouxe, aceitámos e interiorizámos. As mudanças foram tão rápidas que nem nos apercebemos do dano.

Acabamos por estar tão ligados uns aos outros que não temos tempo para apreciar 'realmente' a presença uns dos outros, não existe tempo para nos afastarmos e retornarmos ao nosso Eu, para que possamos ver os outros com os 'nossos' olhos. As pessoas fundem-se umas nas outras, enraizaram-se comportamentos novos à velocidade da luz, deixaram de existir individualidades, existem invasões sistemáticas entre os diferentes Eus que nos rodeiam, existe toda uma cadeia de causa/reação demasiado curta de tempo, os padrões instituíram-se e rapidamente a sociedade se adaptou. E as cartas foram nesta maré...


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