livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

Sentimento de Liberdade

Já vi inúmeras definições de Liberdade, concordo com todas elas, e continuo a achar que falta aquele pequeno ajuste para que a Liberdade seja plena. Numa sociedade plena de direito, não é possível sequer encaixar este conceito, na melhor das hipóteses temos o nosso espaço de liberdade confinado às fronteiras sociais e jurídicas.


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Percebo que é fácil concluir que liberdade, seria passar para lá dos limites sem o dedo da censura. Então onde fica onde fica o verdadeiro sentido da liberdade, se a fazemos depender de terceiros? A liberdade não deveria ser vista como o salto para lá da fronteira das regras sociais, há muito mais para lá da fronteira. Considero antes a liberdade está precisamente no respeito em saber lidar com os demais. Viver com o respeito sobre as liberdades alheias sem desrespeitar a sua própria liberdade. Com toda a responsabilidade consciente que isto acarreta obviamente.

Do meu profundo egoísmo humano, acho que as relações humanas são um "toma lá, dá cá", onde cada um nasce sozinho e opta por cruzar de forma consequente ou inconsequente a vida de terceiros. As únicas hipotecas definitivas que conheço na vida de um ser humano são os filhos, onde deliberadamente, optamos por ser responsáveis de um futuro adulto. A liberdade sem consciência não é liberdade, é libertinagem. A Liberdade nasce das pazes feitas entre as nossas ações, a nossa natureza e a nossa consciência. E só daqui pode nascer o respeito. O respeito nunca se exige, o respeito é conquistado, é silencioso e nasce das nossas ações, que praticadas em contínuo assumem o nosso padrão. Bastará não termos medo de ser quem somos, e isto não se faz na força bruta, mas antes com atitudes assertivas que nascem do nosso bem estar consciente.

Liberdade não são roupas cool, provocadoras, não são hippies, góticos, whatever...ou sim, mas há outra coisa que precede este comportamento, necessidade de Respeito. Muitas vezes as tentativas revanchistas de nos mostrarmos rebeldes perante terceiros, não passa de um chamado de atenção que diz "hello, estou aqui e faço o que quero, ok?". A necessidade de sermos respeitados leva-nos a afirmar-nos da forma mais idiota possível, apenas para obter o reconhecimento alheio e finalmente mostrarmos que somos uma pessoa a respeitar. A verdadeira liberdade não carece de lacre, necessita apenas de um bem estar de consciência. A liberdade não quer agradar a gregos e troianos, a liberdade é independente, a liberdade somos nós em pura essência. Só este sentimento de liberdade nos conduzirá a um modo de vida estável, só a partir daqui se iniciam as jornadas do bem estar e leveza, e só esta forma de estar na vida será capaz de nos devolver um equílibrio interior.

Onde há dependência que influa na nossa postura perante a sociedade, não há liberdade. Há liberdade quando não tememos o julgamento alheio, há liberdade quando há abertura de consciência a tudo, sem juízos pré-concebidos, total liberdade para acarinhar o que é novo, sem enjaular em conceitos que são nossos e onde temos de enquadrar tudo o que nos rodeia. Tudo é tão vasto e rico, há pessoas tão fantásticas dos 7 aos 77. Dá-me alergia na pele quando alguém se nega a aprender, a ouvir, a conhecer, diria antes, seres dependentes da imagem de um clã social ao qual querem estar associados e do qual não abdicam, sinistro no mínimo. Negam o que não conhecem, porque não sabem viver fora da jaula. Liberdade é extra-racial, extra-social, liberdade é cruzar todos os padrões sociais sem depender de nenhum deles, é permitirmo-nos crescer fora das nossas zonas de conforto, é ter elasticidade para conhecer tudo e todos, como se fosse a primeira vez. É não condenar fatalmente as pessoas a estereótipos. Somos seres humanos, não somos uma figura geométrica, falhamos, acertamos, não somos uma máquina de lavar roupa com certificado energético.

E liberdade é também, saber respeitar todas as formas de estar na vida. É bom ter sempre à mão uma à lupa afinada para detectar a diferença entre uma pessoa livre e uma pessoa libertina. Não chega terem uma postura irreverente, ou encherem-se de tatuagens para presumir que são very cool e independentes. Não é preciso chocar terceiros para nos afirmarmos, não são necessárias exibições de frontalidade. Isso pode significar tudo ou apenas nada. Não basta, esse é apenas um sinal para as mentes mais desatentas, teremos de ir mais longe para perceber se se trata de liberdade ou libertinagem. Cada um desenha os limites da sua jaula e saberá, ou deverá saber lidar com as suas grades. A liberdade nunca teve a ver com posturas irreverentes ou rebeldes, o verdadeiro ser independente é fiel à sua natureza, seja irreverente ou pacífica, é neste patamar que se encontra a liberdade e não em posturas programadas.

Não se pense que liberdade é desbravar por aí à aventura, quem é verdadeiramente livre tem sempre presente uma regra básica: "a minha liberdade acaba onde começa a liberdade dos outros". Quem é livre tem um respeito sagrado pela liberdade alheia, desde que exista um respeito sagrado pelas liberdades quando se interceptam. Quem é livre, respeita religiosamente a liberdade alheia, uma espécie de código de ética intrínseco a esta forma de estar.

Antes de tudo liberdade é um estado de espírito que se reflete em todas as nossas ações, não é um status quo através do qual vemos conferido o nosso direito de liberdade.


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