livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

Textura da Biblioteca

O ciclo de vida não mudará porque somos melhores ou piores pessoas. Há um espaço para ocupar, experiências por trespassar e um legado a transmitir. Não há muito mais para oferecer. Cabe a cada um de nós dar-se ao mundo e à vida o melhor que puder e souber.


e22dd6cacef78f3f687ced86ba0b3a42_Uso-da-mente-humana-24-04-20141-863-430-c.jpg

Capítulo I

O milagre da vida...o milagre que ainda nenhuma ciência conseguiu explicar. Num espaço intemporal (não fora o tempo uma invenção do homem) a vida acontece sem pedir com data marcada nalguma agenda divina. Sem tempo para viver, sem tempo para morrer, apenas com um espaço alugado no universo para existir. Qual obra divina faz-se luz num ponto do universo e inicia-se a jornada de um ser humano, um ser predestinado a uma existência etiquetada, um espaço que pede para ser preenchido, um espaço que pede que se faça arte, um espaço onde se amontoam folhas em branco ansiosas pelo nosso punho quente, um espaço amante que espera por nós indefinidamente apenas para…viver!

Capítulo II

A corrida começa, a meta é assunto que pouco preocupa à mente ansiosa, num voo desorientado procuramos folhas apressadamente para escrever, é urgente correr, é urgente preencher espaço, é urgente fazer-se história, é urgente viver. Os motivos, não há tempo para definir, a corrida está a contar nalgum relógio. Livros em branco de folhas acetinadas onde se escrevem palavras soltas de forma desordenada, livros que começam e acabam num ápice. Registos sem sentido, que se misturam entre sensações de viver e sinais de sofrimento. Depressa se intui que algumas páginas a escrever terão de ser forçosamente salpicadas de um sofrimento molhado, um sofrimento que dói no peito e é sentido na alma. As primeiras marcas de vida, os primeiros sinais da nossa fragilidade, a nossa condição humana. É ingenuamente que ao primeiro sinal decidimos radicalmente o caminho a seguir, o chão que iremos pisar por uma vida. "Perdão, posso ajudá-lo" diz por vezes uma vivalma familiar que por ali passa, estende-nos uma mão e mostra-nos a sua vasta biblioteca, ensina-nos calmamente a fazer um epílogo, a dar corpo a uma história e encharca-nos de belas histórias recheadas de vivências dignas de uma existência. Por vezes nem sombra de vida por ali passa, e quando damos por nós, estamos ali sentados a escrever o melhor que sabemos o nosso livro, erros atrás de erros, até que entendamos a escrever pelo menos, ordenadamente. À força viva estes livros precisam de ser preenchidos de capítulos, percorrem-se trilhos, armadilhas, e enche-se o vazio que sempre nos espera.

Capítulo III

Um dia o cansaço instala-se, o cansaço de escrever sem história, o cansaço de escrever sem humanismo. Os capítulos sucedem-se sem a menor diferença, pegamos em livros escritos a punho quente e relemos calmamente o nosso passado, páginas recheadas de euforias, mágoas, risos estridentes. Já conhecemos o sentir, já experimentámos uma página encharcada, já escrevemos uma página suada, ousamos corrigir, ousamos voltar a errar na mesma palavra, ousamos escrever um novo livro, desta vez convictos de uma consciência plena. Precisamos que nasça o dia para escrever, a fraca luz da noite já pouco ilumina. Pousamos a esferográfica, descansamos por momentos incontáveis, olhamos o horizonte na fraca luz do dia, as palavras não saem, o silêncio faz-se notar, e a reflexão impõe-se ao chegar sem pedir. Deambulando por entre versos em branco, tentamos entender porque aquela escrita que enchia livros repletos de emoção simplesmente nos cansou. Procuramos temas, preâmbulos, percorremos a fio bibliotecas alheias, forçamos um tema porque se torna urgente. Não há tentativas de corrigir palavras erradas, mas tão somente sentir o prazer de as escrever novamente e corretamente. Iniciamos um livro sem fim pré-destinado, pegamos numa esferográfica que repousava sem escrever história e ainda inseguros iniciamos um novo livro, conscientes do desafio, cientes da coragem de poder vir a enfrentar milhares de páginas vazias que esperam uma história que valha a pena ser lida. Algures no meio da imensidão do vazio, descobrimos que as bibliotecas se encontram no meio do silêncio e partilham as páginas mais ricas, sorriem por entre portas no escuro de momentos partilhados, choram um livro que deva ser chorado, humanizam-se e ganham finalmente forma, uma forma onde não há passado, presente ou futuro, tornam-se unas para todo o sempre enquanto existirem, somos um ser uno que não espera por esferográficas que escrevem sozinhas. As palavras saem já naturalmente, o punho repousa suavemente, a luz espreita por entre as palavras e não nos incomoda escrever numa biblioteca alheia.

Capítulo IV

'Aceitar morrer'... dois verbos que quando conjugados nos causam alergia, ignoramos a morte como se não existisse tão somente, cancelamos todas as hipóteses de dor, distraímo-nos temporariamente a ler livros alheios se assim for preciso. Desejamos um dia fechar os olhos perto dos que restam e afinal amamos e desta maneira escrever a última palavra na nossa biblioteca. Precisamos de um teto para morrer, precisamos de sentir um afeto próximo na hora em que nos separamos dos nossos livros. A biblioteca está cheia, a textura já definida e definitiva, não há tempo para voltar atrás e corrigir apressadamente qualquer palavra, não podemos lutar mais, as limitações da nossa existência não pedem para entrar. Um sorriso adivinha-se olhando para a biblioteca imensa, a nossa essência vive e sente-se ao percorrer aqueles livros já com pó, uma vontade de partilhar esporádica surge, um legado a quem seja digno, uma herança. Enfrentaremos livros escritos por mão divina quiçá, mas certamente alheia, aceitar serenamente que o desconhecido entrará para todo o sempre é a nossa maior prova de vida, a arte de morrer. Arte tão esquecida por entre as folhas frescas de um presente que nos consome e nos adia como seres humanos, a única arte capaz de nos devolver a arte de viver.

Sempre com um sentido.

A textura da biblioteca, o sentido de vida!


version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Isabela Spínola