livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

Voltar a ser humano

Uma das causas que abraçarei por toda a minha a vida é a luta por uma sociedade melhor. Um tema que não cola bem em sociedades egocêntricas, mas que defenderei porque em primeira instância sou Mãe, em segunda instância sinto-me responsável como ser humano adulto pela preparação das gerações mais jovens, e por fim, porque tento desenvolver diariamente uma consciência social colectiva.


10420307_10153328510697049_7794012234480113241_n.jpg

É assustadora a diversidade de teorias de Bem-Viver desenvolvidas nas últimas décadas. Almanaques, Livros, workshops, Frases, Artigos. É um sem fim de teorias vomitadas à pressão, onde nem sempre o bom senso impera. Não existem linhas orientadoras e convergentes para um mesmo fim, todas diferem na forma e conteúdo, e todas têm o mesmo objectivo: Dar a receita da felicidade. De repente todos descobriram o que temos de fazer para ser felizes. Pergunto-me vezes sem conta, e porque raio não conseguimos então viver melhor? Nada disto faz sentido, estamos a impor um ritmo emocional inatingível às futuras gerações, e não paramos para olhar...apenas para olhar. Nunca seremos um CPU pronto a processar todas as modas e vaidades impostas por qualquer ego alheado da consciência social.

Acredito no ser humano, não defendo que sejam precisos truques de magia para tornar a nossa sociedade melhor. Penso que andamos tão distraídos a lamber as nossas feridas ou nalguma maratona de felicidade cega que deixámos para trás coisas tão importantes, como a consciência do colectivo. Uma das mudanças mais transformadoras da sociedade das últimas décadas foi sem dúvida o acesso ao mundo através de um PC – a Internet. Pessoalmente, sou uma fã de tecnologia, abracei desde o primeiro momento o mundo visto pela janela de um PC. A velocidade e a diversidade de informação com que somos invadidos deixa-nos muito pouco tempo para filtrar e para nos consciencializarmos individualmente. As pessoas foram nesta maré...coleccionam-se seres humanos como se de mais informação se tratasse. Conhecem-se e desconhecem-se pessoas à velocidade da luz, os interesses são variados e diversos, podemos ligar um computador, entrar em inúmeros sites...e escolher alvos! Compram-se pessoas ao quilo, não porque exista vontade de as conhecer, apenas porque é urgente tapar os buracos da solidão, não existe urgência em conhecer A, B ou C, apenas existe urgência em ter o buraco tapado. Não fosse o dano que este processo causa no ser humano, e era o melhor dos mundos. Este é no meu entendimento, o maior causador do estado emocional debilitado em que se encontra a nossa sociedade. Gosto de insistir no aspecto emocional, em detrimento do racional. O aspecto emocional, habilmente ridicularizado pelos intelectuais da sociedade moderna, é o responsável pela pauta de música que vamos tocar a vida inteira. É a nossa racionalidade que nos permite abarcar conhecimento, mas é o nosso lado emocional que decide o que fazer com o conhecimento, é o nosso lado emocional que desenha as relações que temos com terceiros. Este é o lado com que devemos preocupar-nos, sobretudo porque não existem graus académicos emocionais, ninguém ensina, não há lei nem ciência. Existem apenas os famigerados psicólogos que aprisionam consciências durante anos a fio, sem nada de diferente sair dali.

É a forma como nos relacionamos que define o rumo das gerações futuras. Uma sociedade transformada em consumista, sem qualquer preparação emocional para o tema, pode vir a desembocar num mar de solidões perdidas, que nem sabe exactamente o que busca. Apenas tapam buracos desenfreadamente, e com o tempo perdem o gosto pela relação humana e automatizam o processo. Esta é precisamente a zona de perigo onde entrou a nossa sociedade: o automatismo relacional consumista em detrimento dos benefícios que trás uma sociedade emocionalmente saudável. Nada disto seria assustador, se a nossa sociedade terminasse amanhã, no entanto, existem seres humanos a crescerem neste ambiente, somos adultos irresponsáveis ao permitir saciar a nossa sede de emoção solitária em detrimento dos laços e vínculos afectivos. Somos inconsequentes ao não perceber que as crianças aprendem por imitação. E não estamos nem aí para isso...adiamos para futuro e destino incerto a vontade de querer melhorar. O egoísmo é profundo quando não temos nem sequer como missão de vida, melhorar a sociedade. Esta maré de carne humana não procura companhia, procura tábuas de salvação efémeras, é uma procura egoísta e consumista que só conduz a mais e maiores solidões. Sem vínculos afectivos não há como deixar na sociedade a marca da compaixão, da solidariedade, do companheirismo genuíno, da delicadeza entre os seres humanos. A construção de um vínculo afectivo baseia-se em emoções, mas faz-se com racionalidade, com a força de vontade de querer melhorar, faz sentido dar o nosso contributo individual à sociedade, a felicidade é um bem público e não individual. Estas receitas alucinadas de truques e dicas individuais vêm da capital dos irresponsáveis. É impossível ser feliz sozinho, a felicidade nada mais é do que o retorno da nossa obra, e o retorno vem dos outros...sempre!

Dá trabalho construir um vínculo, as solidões individuais não permitem uma grande zona de aceitação de terceiros, não saem da sua zona de conforto, consomem pessoas num conceito fast-food para resolver a fome à pressa. Estes consumos desenfreados vão deixando feridas e mágoas ao longo de uma vida, transformam-se pessoas em vulcões de medo emocional, entra na epiderme e causa alergia. E é isto que nos impede de ir mais longe... Aos poucos as pessoas abdicam delas próprias e deixam o seu rasto perder-se neste mar frio e cinzento. É esta a zona de perigo em que se encontra a nossa sociedade, compra pessoas ao quilo, resolve problemas fugindo deles, e substitui afectos verdadeiros por buscas frenéticas que proporcionem um bem estar emocional imediato.

Não é fácil lidar com este tema, apenas é possível fazê-lo com toda a racionalidade, com o bom senso e sentido prático para que de uma vez por todos entendamos que somos realmente responsáveis uns pelos outros. Viver é uma bênção, ser feliz é um luxo...não é mandatório ser feliz. A infelicidade é uma emoção tão válida como o é o estado inverso nos 180 graus. Mas esta era de solidões repetidas recrimina os seres humanos que passam por momentos de infelicidade. Embalaram a felicidade e tornaram-na no mais recente conceito de marketing, a última moda do seculo XXI, não é cool ser infeliz. Castram os seres humanos do mais puro sentir com este exibicionismo desenfreado de imagens de felicidade. É triste ser infeliz, ninguém gosta de estar perto de infelizes, e são quem precisa mais do nosso braço. Uma sociedade onde a delicadeza, o respeito e a educação são teatrais, a compaixão, o bem querer aos nossos semelhantes não conta para estatística. A fragilidade é interpretada como fraqueza, dando lugar a uma sociedade individualista, que nos choca abertamente sem nada fazermos...Cabe a mim, cabe a cada um este assumir da responsabilidade de ser humano, a consciência colectiva social, as pazes feitas por uma sociedade melhor, é a nossa única esperança de sermos seres válidos...quantas gerações serão precisas para desaprendermos a encenação em que tornámos a nossa vida?


version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Isabela Spínola