livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

De que cor se veste a tua alma?

Não nos podemos antever no olhar do mundo, não podemos ser a sombra do pensamento alheio, não somos esse resto de nada. Ainda respiramos através da nossa essência não plastificada, aquela que se encontra delicada e doce na solidão e que amarga e definha no caminho estreito do parco juízo.


Há dias que nos apetece ir no vazio, adormecer a preto e branco e embarcar no próximo vento que passar por nós. Há dias que silenciamos o olhar, a alma condensa-se, grita sem voz e beija o ar seco que restou. Há dias que um buraco de frio se instala nas nossas entranhas, o peito arde e sentimos o nosso corpo em transparência neste mar cinzento de repetições humanizadas. Há emoções que se alastram de forma ambígua pela mente, reprimi-las trás um sabor amargo que se instala friamente no corpo que se alimenta de silêncios. Esta é a nossa alma plena de emoções, alimenta-se da nossa mente e dá corpo à nossa interioridade.

Qual a dimensão de um sofrimento? Qual a textura da alegria? Qual o sabor da confiança? Não sabemos dimensionar, só sabemos sentir através do nosso interior. Recusamo-mos a aceitar emoções menos nobres, como se perdessemos algo dentro de nós ao senti-las. Recusamo-nos a aceitar-nos na totalidade, ao iniciar fugas dentro de nós. Como perdoar a terceiros algo que não aceitamos em nós próprios? Quem disse que não podíamos ser feios às vezes? A letargia que tal provoca no nosso interior é desiquilibrante, gera estados de ansiedade auto-destrutivos. Apenas, porque insistimos em superar-nos, como se daí adviessem melhores resultados. Nunca teremos como optar por um caminho de bom senso exclusivamente racional, somos seres de sentidos, muitos e diversos.

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Não somos denominador comum, não temos linhas geométricas, somos apenas um esboço à solta numa página em branco. Não somos cópia, somos original, somos alegria, dor e tudo o mais que nos cabe imaginar. Não somos soldados de chumbo, que se imprimem num papel seco sem odor nem calor, não somos teorias desenhadas e previsíveis, não somos o que o mundo quis fazer de nós. Somos uma imensidão de sentidos, não podemos decidir castrar o impulso só porque faz sentido, somos uma janela ímpar para o mundo, um olhar de seda para um universo único. Nunca ninguém fará de nós lei, nunca será possível desvendar a história dos nossos sentidos, nunca perderemos o nosso respirar.

Às vezes é difícil ajustarmos-nos a este mundo teorizado de emoções, onde se prevê sermos um poema lido nalgum livro, um beijo solto tirado de algum filme, a perfeição em estado lírico pronta a vender-se empacotada ou a música harmónica que enche a alma de desejos. Cabe-nos sempre o sossego onde o ar é doce e respirável, há o nosso mundo de seda onde podemos descansar em paz, há a nossa página em branco onde deixamos correr à solta o desejo sem segredos. Não nos podemos antever no olhar do mundo, não podemos ser a sombra do pensamento alheio, não somos esse resto de nada. Ainda respiramos através da nossa essência não plastificada, aquela que se encontra delicada e doce na solidão e que amarga e definha no caminho estreito do parco juízo. Continuamos a percorrer telas sem fim, enchemos de cor as paletes, sublimamos a beleza que nos invade num silêncio calmo. Um bailado solitário que se enche de cores, um vazio que nos invade até ao mais profundo do nosso ser, crava-se no peito que conhece aquele sentir cheio de nada e deixa-nos perdidos nos dicionários alfabetizados.

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Não se diz, não se escreve, não se descreve, não se anuncia, não se aperta…é cavalo à solta que não sabe falar a preto e branco, é vento suave que abraça com doçura e liberdade, é pureza que alcooliza e possui todo o nosso ser, é diamante em bruto sem sentença, é destino incerto por desenhar, é estado de hipnose que nos arrasta em silêncio numa droga viciante pelos caminhos do incerto. É toda esta imensidão e muito mais que nunca saberei expressar. É este o sentir que dá sentido aos sentidos, esta dança suave, doce e tentadora que dá oxigénio ao nosso ser mais profundo. Esta é a nossa beleza em estado puro, e que em nenhuma circunstância deve ser apunhalada ou abandonada por nós.


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