livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

Mitos & Conceitos

O acto de confiar, nada mais é, do que darmos parte da nossa vida a alguém, e esta é uma decisão exclusivamente individual. Congelar o carácter de uma pessoa no espaço e no tempo, é um erro crasso que cometemos, e que nos hipoteca como seres individuais. O único bem maior que obtemos na interacção com seres-humanos, é a partilha de experiências sem daí nada esperar, muito menos cobrar. Raramente, a confiança permanece estática no tempo, não quer isso dizer que seremos alvo das maiores traições, quer apenas dizer que somos os únicos responsáveis pelas nossas escolhas, as nossas partilhas de vida.


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O nosso confiômetro A confiança é o diamante das relações interpessoais. Lapida-se através da lealdade interpessoal e pela protecção de terceiros, na ausência ou presença, da nossa imagem. Dimensionamos esta característica nos outros em função da nossa existência, sendo certo que a nossa necessidade de partilhar conduz-nos na maior parte das vezes a um estado de confiança ilusória. Exigir a alguém a sua confiança máxima, é retirar a plena liberdade de actuação a alguém, é impor as nossas métricas de vida, e esperar o seu cumprimento cego. A questão que faz sentido colocar é se realmente temos direito a isso? Não me parece. Então porque cobramos/exigimos confiança? Porque que nos desiludimos se alguém quebra a nossa confiança? Não somos donos de uma beleza interior estonteante, e era bom ter este ponto de partida. A verdade é que temos os radares do confiômetro mal direccionados, e a confiança que depositamos em terceiros quebra-se, e não é porque as pessoas não sejam de confiança, mas antes porque somos seres dinâmicos, não somos uma linha recta, não devemos fidelidade a ninguém além de nós próprios. O acto de confiar, nada mais é, do que darmos parte da nossa vida a alguém, e esta é uma decisão exclusivamente individual. Congelar o carácter de uma pessoa no espaço e no tempo, é um erro crasso que cometemos, e que nos hipoteca como seres individuais. O único bem maior que obtemos na interacção com seres-humanos, é a partilha de experiências sem daí nada esperar, muito menos cobrar. Raramente, a confiança permanece estática no tempo, não quer isso dizer que seremos alvo das maiores traições, quer apenas dizer que somos os únicos responsáveis pelas nossas escolhas, as nossas partilhas de vida. E nada tem de errado, vermos lesado o nosso espaço. Não há culpas nem culpados, há experiências, há crescimento, há maturidade, e a cada um de nós cabe a escolha do lugar onde vamos repousar a nossa confiança.

Marketing da Felicidade A industria mais capitalizada do século XXI e que nos remete para uma felicidade permanente, ansiosa e urgente. A sociedade sente-se obrigada a ser Feliz, não é nada moderno ser infeliz. Há duas décadas os conselhos dos mais velhos, familiares ou não, eram os melhores conselhos que poderíamos receber, e nenhum deles era coach. Os bons amigos profissionalizaram-se e aparecem os coachs motivacionais, que nada mais fazem do que nos dar injecções de adrenalina para nos mantermos aparentemente felizes durante umas semanas. Esta não é a nossa verdade. A nossa verdade não se ensina, não se imita, não tem clone nem pode ser vivida através de terceiros. A felicidade ainda respira através da nossa essência, a felicidade é difícil, não é vendida online, nem tem um efeito viral. Sorrir não é felicidade, a vida é tramada mesmo, e todos passamos por coisas muito chatas na vida. São mesmo reais os dias em que acordamos e nos sentimos as criaturas mais infelizes deste mundo. Somos “seres-humanos”…humanos, sentimos, respiramos, choramos, sorrimos...”somos-humanos”, só se pede a cada um que “seja-humano”. Não somos obrigados a fingir que está tudo bem, só porque é chato dar a imagem de estar triste. Isto é de uma crueldade imensa, e deixa ao abandono quem mais precisa do nosso abraço. A Felicidade é um retorno que vem do colectivo. As teorias do independentismo moderno, remetem-nos para modelos de felicidade individualistas e autónomos. Bullshit total! A felicidade é um bem colectivo, na medida em que vivemos em comunidade. Só o retorno do colectivo nos poderá transferir um sentimento de alegria e felicidade. Podemos rir sozinhos, mas rimos com alguém ou de alguém, podemos vencer sozinhos, mas vencemos com alguém ou sobre alguém, podemos lutar sozinhos, mas lutamos com alguém ou contra alguém. Nunca estamos verdadeiramente sós, seria egoísta chamar a felicidade apenas à nossa responsabilidade.

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Imagem urgente Sinceramente! Já não chega de viver para impressionar os outros?! Temos apenas uma verdade, a nossa! Não somos mesmo obrigados a transmitir uma imagem admirável. É penoso ver o esforço diabólico na criação de imagens de felicidade. Realmente já pensaram no retorno que temos da imagem criada? É um retorno assim tão grande que valha a pena abdicar da nossa verdade? A nossa verdade é una, e intransferível. É esta que temos de encontrar, os princípios e valores que nos pautam, são um direito, nunca uma obrigação. A imagem cria obrigações perante terceiros demasiado caras de ser mantidas, e que no limite podem distanciar-nos tanto de nós próprios que nunca mais nos encontraremos. É bom viver de pazes feitas entre a nossa imagem e a nossa essência. Não é um exercício tão difícil sermos nós próprios em todas as situações. Admito que o jogo de cintura pode variar de acordo com o interlocutor, mas a nossa verdade tem de estar sempre presente. Este é sem dúvida um dos nossos grandes desafios, ser fiel a nós próprios, e inicia-se com a consciência da imperfeição. Aceitar que somos imperfeitos. Somos todos imperfeitos! Isto não é o campeonato da perfeição. Desistam, não andamos aqui para provar que somos melhor do que os outros. Os comportamentos ideais que vulgarmente exigimos aos outros, são meras teorias do imaginário. Não existe isso, somos mesmo pessoas feias às vezes. Porém, se partirmos do pressuposto base que somos imperfeitos, temos uma garantia: a consciência exacta dos pontos onde temos de melhorar. Ah nada fácil esta tarefa. Quem quer abdicar das suas razões?! Muito pouca gente! Estamos formatados para saber levar a água ao nosso moinho, e em desespero de causa podemos recorrer à vitimização para provar a nossa razão. Tanta inteligência tão mal empregue… Não era muito mais prático, se de uma vez por todas aceitássemos que nos lixamos às vezes, que falamos mal uns dos outros às vezes, que mentimos às vezes, que chantageamos às vezes. Chocados? Possivelmente. E também possivelmente poucos terão a coragem de assumir o seu lado B. Mas ele existe, em todos, ninguém escapa, e nós sabemos que sim. E que tal recomeçar? Reformatar? Esquecer o que os outros pensam de nós, e por um momento aceitarmos o que realmente somos.

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Complicômetro Pensamos 24 horas por dia, ininterruptamente. Até nem seria mau, se pelo menos fossemos inteligentes conosco próprios. Quantas e quantas vezes não agimos em função das infinitas hipóteses do que terceiros vão pensar. Quantas não são as teorias da conspiração sobre o comportamento alheio. Os outros, os tais outros…são iguais a nós! Porque custa tanto ser afinal verdadeiro? Porque agimos na maioria das vezes em função de efeitos esperados? A previsibilidade nos comportamentos é tão alta, que a imprevisibilidade em ser genuíno gera efeitos surpreendentes. Não deveria ser ao contrário? A genuinidade não deveria causar espanto, mas no entanto, pode causar dor, tristeza e arrastar mágoas por uma vida. Como ser então verdadeiro sem ser cínico? Apenas conheço uma forma, com educação. Não somos responsáveis por ninguém, mas somos responsáveis pelo que deixamos de nós nos outros. O medo não pode acobardar-nos ao ponto de deixarmos de ser nós próprios. No dia que percebermos que cada um faz com o seu caminho de vida o que entender, percebemos que na interacção com os outros apenas temos de assegurar a nossa parte, e a nossa parte deveria corresponder apenas à nossa verdade. O julgamento alheio deixa-nos castrados, soterrados, e estáticos perante a possibilidade de dar um passo. Um passo que poderia fazer toda a diferença…mas o retorno desse passo pode atirar-nos para patamares associados a maus sentimentos. Basicamente, cancelamos ao longo da vida várias oportunidades únicas com base em supostas reacções de terceiros, elaboradas dentro da nossa cabeça. O receio das infinitas hipóteses do que possam pensar de nós, remete-nos para um verdadeiro esgoto existencialista. Deixamos de viver de acordo com a nossa verdade, apenas fundamentados pelo que achamos que os outros pensarão de nós. A partir do momento que abdicamos da nossa verdade, estamos a atirar com as nossas escolhas de vida para uma maré de sortes, à espera que talvez alguém adivinhe o que nos passa no pensamento. Porque não tentar e sair da zona de conforto? Não apenas pela experiência, mas pela liberdade que nos confere a atitude de sermos francos e genuínos. Só nos custa sair da zona de conforto a primeira vez, e quando saímos temos uma sensação de liberdade única. Não passamos mesmo do chão se formos verdadeiros, nem sempre o julgamento alheio é semelhante ao que tínhamos imaginado, e acima de tudo, sentimo-nos muito mais completos como pessoas.


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