livro em branco

Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

O desafio é simplificar

Se fosse simples, não escreveria sobre o tema, se fosse simples não existiria esta maré de solidões, se fosse simples, os psicólogos e psiquiatras não existiriam. Existem caminhos de vida que conduzem o ser humano a este vale de silêncio, onde o cinzento é a única cor visível. Por experiência própria, por análise casuística, chego à conclusão que existem alguns factores que contribuem para o crescente marasmo solitário em que se encontram as pessoas, para esta zona híbrida entre o viver e não viver.


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Este intervalo de tempo que pede existência, não é uma tarefa nada simples, não existem preparações académicas para saber lidar com as inúmeras adversidades que surgem ao longo de uma vida. Há fases em que questionamos tudo, perdemos o fio condutor e ficamos à deriva dos nossos pensamentos. Estas são as verdadeiras fases de transformação, quando nos alheamos dos valores condensados de uma sociedade formatada e ficamos ao abandono perdidos nos nossos pensamentos. O drama começa quando somos detentores de uma capacidade magnífica de ramificar pensamentos, e com grande frequência entramos em alto mar e perdemos o chão que nos dá cor e sentido à vida. Se fosse simples, não escreveria sobre o tema, se fosse simples não existiria esta maré de solidões, se fosse simples, os psicólogos e psiquiatras não existiriam... Existem caminhos de vida que conduzem o ser humano a este vale de silêncio, onde o cinzento é a única cor visível e o frio alterna com o calor em dias aleatórios. Por experiência própria, por análise casuística, chego à conclusão que existem alguns factores que contribuem para o crescente marasmo solitário em que se encontram as pessoas, para esta zona híbrida entre o viver e não viver.

A Responsabilidade, palavra inventada por nós, vem no dicionário como o dever de arcar com as consequências do próprio comportamento ou do comportamento de outras pessoas. Esta definição por si só pressiona-nos no imediato e coloca-nos numa posição dependente onde ficamos reféns do julgamento alheio e do mais pesado juízo de valor sobre nós próprios. Desde a infância que ouvimos falar sobre responsabilidade pela negativa, ou seja, irresponsabilidade, assinalada como um defeito pela ausência de responsabilidade. Raro é a responsabilidade ser assinalada como uma virtude, um poder que nos é atribuído gratuitamente. Reclassificaria esta definição e proporia: “Responsabilidade é a autonomia que o individuo tem de poder influenciar a sua vida ou a de terceiros”. Esta é realmente a melhor ferramenta que possuímos para poder actuar sobre a nossa vida, influenciar o meio que nos rodeia, influenciar o nosso eu e optar por escolher caminhos. Os fracassos acumulados ao longo de uma vida, trazem duros julgamentos sobre nós próprios, criando não tão raro quanto isso, a ilusão de medo sobre as nossas futuras decisões. Esta é a maior prisão que conheço de um ser humano que se torna refém de si próprio, arrastando por uma vida inteira um fardo de fracassos que pesam sobre o poder de acção. Não é fácil lidar com o tema, até porque lidar com o fracasso não é para fracos, é para fortes. Não há grande diferença entre fracos e fortes, ambos tentam, ambos fracassam…o fraco não sente responsabilidade plena sobre o seu eu, por conseguinte, auto-sabota-se, auto-condena-se e desenvolve dezenas de teorias para alimentar (justificar) os seus medos e receios, leia-se, fuga. O forte, sabe que é fraco e coloca-se no centro da sua vida aceitando a total responsabilidade da sua falência. Persiste mesmo sabendo que poderá fracassar até ao fim dos seus dias. É irracional o medo do fracasso sobre o desconhecido, porém é racional e válido acreditar que existe a chance de 1% de ser bem sucedido. Isto faz-se com a superação da racionalidade sobre o impulso emocional, faz-se com responsabilidade, sabendo que todo o mérito dos sucessos e fracassos é exclusivamente nosso. É extremamente delicado chamar a responsabilidade sobre nós próprios ao centro do nosso Ego, apenas se faz com uma rotação de paradigma, passando a chamar à nossa inteira responsabilidade a consequência das nossas escolhas ou comportamento, e aceitando que falhamos e bastante. Somos o pior juíz em causa própria, temendo a auto-aceitação como se tivéssemos o dever de ser perfeitos. Não somos, falhamos, e vamos por isso ser condenados mortalmente? Por desumanos sim, por humanos nunca.

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A assertividade, é uma característica que tipicamente desabrocha tarde na vida. A assertividade não é sexy, tentadora, nem fornece prazer imediato. É chata por vezes, dá trabalho e requer esforço pessoal, poucas pessoas estão interessadas neste esforço pessoal. A assertividade só ganha lugar dentro de nós, com pleno conhecimento das nossas roldanas mentais e com a plena consciência de que somos apenas e só mais um. Se aceitarmos que só vence quem tenta mais, percebemos que os vencedores ao nosso lado, talvez tenham falhado mais do que nós. Só com este entendimento será possível engrenar em caminhos construtivos, sabendo que o ser humano destrói por impulso e não por intenção racional. Não somos selectivos nas emoções, não podemos escolher vivenciar apenas as boas, mas e não obstante tal verdade, temos racionalidade suficiente para ultrapassar e seguir em frente, optar pelo caminho da assertividade construtiva, e desistir da emotividade negativa exponencial. Não há foice que corte a seara da construção, não há caminho que nos desvie do que nos faz bem, quando sabemos o que queremos, quando já passámos para lá da chancela do mero impulso que dá prazer imediato e nos deixa abandonados em alto mar à procura de novos caminhos. Só é possível ser assertivo com genuinidade, com um estender de braços definitivo à vida, às pessoas, e sobretudo a nós próprios, devemos a obrigação a nós próprios de dar o nosso melhor, e o nosso melhor passa pela nossa aceitação, pelo auto-perdão, só isso nos trará tranquilidade e paz. Faz-se com a sensibilidade e a verdade dos genuínos, que sabem falhar, e sabem acertar a falha evitando os caminhos que correm frescos no sangue. Mais uma vez e também aqui, faz-se com maturidade, racionalidade, resistência e experiência de vida. Quando as experiências falham tanto ao ponto de queremos desistir, é precisamente o momento em que optamos por experimentar um caminho diferente. O caminho onde não temos nada a perder, o caminho em que escolhemos aceitar que existem ensaios frescos de impulsos, e ainda assim temos as pazes feitas para dar lugar a uma construção edificada que nos dê uma causa justa à vida, um lugar para onde voltar construído por nós. Não deixarão de haver impulsos, continuaremos humanos, mas esta consciência dar-nos-á justa tolerância para contornar e acertar as brechas do caminho.

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O compromisso, à semelhança da responsabilidade, é assustadora esta palavra. Coloca-nos numa espécie de prisão domiciliária eterna. A sensação, e sublinho, apenas a sensação de perda de liberdade é asfixiante, e de repente podemos chegar a sentirmo-nos uns prisioneiros condenados a uma perpétua. Para grande maioria das pessoas, assim o será, para os que pensam sem reflectir. As palavras, são apenas palavras, que entram como verdades absolutas dentro do nosso ser. Se chegarmos a ter a capacidade de abstracção, entendemos que o compromisso é o maior desafio do ser humano. É um desafio para corredores de grandes maratonas. Uns tardam nesta conclusão, outros nem lá chegam e outros nem entenderam a necessidade de tal conclusão. Quando o cansaço aperta, quando o muro desmorona, quando a pancada já não dói no corpo, só há um desafio maior, o de enfrentar os nossos maiores medos de frente. O compromisso é um dos maiores medos e receios da humanidade, e que tal para variar desafiarmo-nos a fazer o caminho mais duro desta vez? Seremos homens e mulheres algum dia, ou seremos eternos teenagers? Repetir corridas de 100 metros, com a mesma atitude não devolverá resultados diferentes. Não existem tábuas de salvação inventadas para nos salvarem, ninguém nos salvará dos nossos medos, essa é uma responsabilidade que não podemos dar a terceiros. Somos nós, e apenas nós, que temos de uma vez por todas, respirar num fôlego rápido e ir direitos ao abismo para enfrentar os maiores medos de sempre. A parte curiosa destes confrontos conosco próprios, é que só custam a primeira vez. Quando percebemos que não aconteceu nada de grave, e conseguimos passo a passo ir de frente para o terror, deixamos de viver com medos e passamos a ter uma atitude muito mais construtiva perante a vida, sobretudo, passamos a viver com uma consciência muito mais leve. Esqueçam personagens inventadas em filmes, somos todos da mesma massa, e alguns tentam fazer disto um lugar melhor. Mas tal só será feito, quando a adrenalina dos 100 metros já não for motivação suficiente para continuar caminho, e acima de tudo quando percebermos que o maior perdão de todos é o auto-perdão e não o perdão alheio. Basta pensar que a vida é um Começo, Meio e Fim, para perceber a tangibilidade deste intervalo de tempo tão rápido, que mais vale aceitar a nossa falência e dar a volta ao paradigma, do que perdurar nele eternamente sem nunca dele sair.

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A genuinidade, está directamente ligada à pureza, confere a qualquer indivíduo a capacidade de se expressar de forma pura, ou seja, sem os filtros sociais aos quais dificilmente resistimos. Ouço mesmo muitas pessoas apregoarem sobre genuinidade, infelizmente vejo muito poucas praticá-la. Toda a gente a sabe reconhecer, pouca gente a sabe aplicar, toda a gente a venera, poucos sabem o que fazer com ela. E é simples perceber porque não a praticam, está no plano da perfeição. Para o ser humano tudo o que toca a perfeição está num plano inatingível, e ainda assim, afastam-se de toda e qualquer imperfeição da sua vida. Ainda que tenham conhecimento da inexistência da perfeição, repugnam terceiros pelo facto de cometerem imperfeições. A genuinidade é um fim de caminho, ou o início de novos caminhos. Quando chegamos à conclusão que a nossa vida não é um jogo da Nintendo, e que a vida é muito mais do que jogos sociais de auto-afirmação, conseguimos libertar-nos do Peter Pan que habita em nós desde sempre. Com a coragem de abraçar a vida de frente, com a vontade de arrastar para a nossa vida o que realmente queremos, e com a consciência das passadas necessárias para que tal aconteça. A genuinidade confere-nos o poder de comunicar com pureza, sem a chancela lógica que nos deixa refém do juízo alheio. Se queremos genuinidade por perto, nada como ser genuíno, despista quem anda noutro trilho e atrai os seus semelhantes. O ser humano terá sempre impulsos sobre terceiros, o forte (que sabe que é fraco), tem a genuinidade suficiente para o assumir sem culpas castradoras e progressivas, não busca o seu lugar através de terceiros. Apenas consegue ser genuíno, quem já desistiu de fazer da vida um esquema, quem entendeu que o retorno sentido e profundo da nossa paz apenas pode vir da nossa verdade. A nossa verdade, a que nos devolve a paz interior é nossa apenas. Muitos se perdem neste caminho, esquecendo que a nossa paz vem de dentro e nunca dos estímulos exteriores.

Estes são apenas meros conceitos que reflectem uma necessidade de nos humanizarmos, de nos despirmos de enredos morais e cristãos enraizados dentro de nós desde sempre. Não tem de ser perfeito, mas pode ter um fundo racional de genuinidade e assertividade, isto só é possível fazer de pazes feitas com a nossa consciência, para que de uma vez por todas aceitemos com orgulho a responsabilidade plena da nossa falência virtuosa, para conseguir abraçar o compromisso para conosco próprios de dar o nosso melhor...porque merecemos esse descanso.


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