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Reflexões do século XXI

Isabela Spínola

Paradigma do Amor

Viver um amor real, é antes de mais, dar uma oportunidade real a nós próprios de dar o nosso melhor a alguém, é dar cor à vida que teima em não sair do cinzento, é acreditar que bastamos e não recorrer a truques de magia. Isto faz-se com a coragem que só os humildes sabem ter, com a consciência de que somos apenas mais um em sete biliões, e com a certeza de que não somos individualmente suficientes para atingir a harmonia.


Desde sempre a humanidade vive apaixonada pelo amor, mistério que move e inspira as massas, descrito nos mais belos poemas, vivido ardentemente ou fatidicamente em argumentos literários, representado em filmes desde a ficção ao romance, cruza de peças de rock até às mais belas árias da ópera, expresso, pintado e exposto nas mais ricas telas de que se tem conhecimento. Como tema inesgotável que é, o amor continua a encharcar o imaginário de homens e mulheres por esse planeta fora. Nunca um tema conseguiu perdurar de forma tão profunda e duradoura no pensamento humano.

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Os mais diversos filósofos teceram ao longo dos séculos, diversas teorias sobre este nobre sentimento, que penetra de forma misteriosa no mais profundo do ser humano. Platão afirmou que o amor liberta o ser humano na medida que o conduz à verdade. O amor platónico constrói uma ponte entre o universo sensível e o universo intelectualizado, entre o corpóreo e o espiritual, entre o subjectivo e o objectivo, entre o contingente e o necessário, entre o particular e o universal. Já Plotino, entendia que o amor purificava e elevava o ser humano. Produz efeitos catárticos de importância fundamental, sem os quais seria impossível um caminho de retorno à alma. Para Spinoza, o amor é intelectual e gera alegria, sendo o pleno conhecimento da verdade que faz o ser humano totalmente feliz. Na concepção de Rousseau, o amor é filho da natureza e da liberdade. Para ele, o ser humano nasce bom e perverte-se por motivos sócio-culturais. A civilização e a cultura transmitida, tornaram os seres humanos egoístas e violentos, gananciosos e desordenados. Já o pensamento de Schopenhauer é marcado por um profundo pessimismo, baseado na convicção de que o único motor de toda a realidade é uma vontade cega, absurda e irracional de viver que impulsiona todo o universo e cada ser vivo a desejar algo que, tão logo é obtido, torna-se motivo de insatisfação. Assim o amor é poderoso e sabe enganar o ser humano, consegue iludi-lo, prometendo-lhe uma felicidade que jamais poderá realizar-se.

A busca insaciável pelo eterno paradigma do amor, como expressão máxima de sublimação humana, continua a mover toda a humanidade nesta procura imaterial e de fé inabalável, onde todos estão plenamente convictos de que será a única fonte de paz e harmonia. Pode e causa transtorno a mentes desatentas, desprovidos de ferramentas para reflexionar e materializar esta expressão máxima afectiva entre as relações. Antes de mergulhar de cabeça nesta aventura universal que nos move, que tal parar um momento para estabelecermos aqui a fronteira da realidade versus sonho. Observando o comportamento e pensamento humanos, percebemos as motivações que estão por detrás de buscas insanas sobre teorias e demagogias imaterializáveis. É bom assentar os pés no chão, compreender a intangibilidade das projecções amorosas e materializar de forma concreta o amor.

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O amor projectado ou imaginário, é antes de mais, uma projecção do nosso Eu em estado de perfeição, um conjunto de ideias pelo qual nos apaixonamos, e que têm por base o motor da nossa imaginação. De forma boicotada, saímos da nossa consciência, e projectamos no outro a sublimação máxima do nosso ego. Numa breve reflexão, conseguimos perceber que não temos como nos expandir para além do nosso conhecimento, não temos como dimensionar a projecção máxima que outro ser humano pode atingir. Este amor descrito pelos poetas, cantado pelo mundo fora, e retratado em livros, não existe em terceiras pessoas, é sonho puro idealizado e existe apenas dentro de nós próprios. Quantas e quantas não são as pessoas que se deixam embriagar por sentimentos que desenvolvem sobre terceiros, pensando ter encontrado o amor de todas as vidas, quando na verdade tudo o que fizeram foi elevar-se até à perfeição, criando a responsabilidade no outro de exercer um padrão correspondente. Estes são os amores intocáveis, sublimados, extremados e que nos conduzem a um patamar de fracasso existencial. Esta é uma ratoeira que leva a humanidade a cair sistematicamente no mesmo erro, o da repetição do sonho, o da busca eterna que nada mais faz do que nos conduzir a buracos emocionais. É normal idealizar o amor, um amor…é mais do que normal! Não nascemos para vivermos sós, necessitamos de afectos, procuramos afectos, mas quando os muros da defesa são demasiado altos, nem sempre conseguimos lidar com os afectos e prolongá-los no tempo.

O nosso cérebro chega a ser tão ardiloso, que tem capacidade para construir tais modelos perfeccionistas de amor, apenas para nos livrar da responsabilidade de enfrentar um amor real. A fuga/medo/falta de coragem/falta de auto-estima, castra-nos, e atira-nos para o amor fácil e idealizado que mora nos picos mais sublimes da perfeição, sendo fácil perceber que qualquer realidade não prevista faz cair por terra este castelo de sonho. É precisamente quando o castelo desaba, que tiramos as conclusões mais idiotas, entre as quais, a mais comum: tal fulano/a não era nada do que imaginei. Foi apenas um truque do nosso consciente inteligente que decidiu viver nas montanhas inacessíveis que a nossa mente distraída não alcança. Descartamos assim pessoas, apenas porque não se encaixam no nosso padrão de amor poetizado. É um amor fácil este, é o amor que não exige entrega, onde facilmente somos protagonistas e pseudovítimas de nós próprios, este é o amor…que nunca chegou a conhecer a luz do dia.

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O amor real não tem esta beleza hedónica, e possui a única característica que os amores projectados nunca possuirão: Não tem controlo sobre si próprio! No amor real não existe controlo sobre o comportamento do outro, no amor imaginário, o comportamento do outro já está previsto nalgum almanaque que guardamos religiosamente. É aqui que percebemos, a necessidade imperiosa de haver entrega no amor real, sem o nosso melhor, nunca obteremos o melhor retorno de terceiros. Nada florescerá sem vontade conjunta, não existem pessoas destinadas a agradar-nos se nada quisermos oferecer. Isso não é vontade de amar, mas antes submeter o outro à chancela do nosso ego (ou dos nossos receios), pelo que, nunca nenhuma reciprocidade será suficiente. São precisos dois, é preciso dar para receber, é necessário fragilizar-nos diante do desconhecido, é preciso acarinhar a alma que nos faz brilhar os olhos, é preciso enfrentar de frente o medo com a coragem de quem quer viver um amor real. Não será para todas as pessoas este passo de coragem, muitas vezes os trambolhões arrastam as pessoas para os patamares mais solitários e longínquos, a vontade de acreditar morre solitária escondida no desejo sofrido, os sonhos são cada vez mais longínquos, a realidade passa a ser alimentada apenas por trambolhões que não merecemos e nos quais nos viciamos, e chega-se mesmo ao ponto de acreditar que a felicidade não foi feita para nós.

Viver um amor real, é antes de mais, dar uma oportunidade real a nós próprios de dar o nosso melhor a alguém, é dar cor à vida que teima em não sair do cinzento, é acreditar que bastamos e não recorrer a truques de magia. Isto faz-se com a coragem que só os humildes sabem ter, com a consciência de que somos apenas mais um em sete biliões, e com a certeza de que não somos individualmente suficientes para atingir a harmonia. Os amores reais nunca condensarão a magia descrita num poema, numa música, porque esta magia apenas existe no nosso imaginário que dispara e aumenta-se ao mínimo sinal. Mas, e não obstante a dimensão de tal beleza imaginária, nada chega ao conforto de um abraço real, ao sorriso que nos abraça com o olhar, ao brilho que trazem os olhos da saudade, às horas inimagináveis de trivialidades rotineiras, é isto que nos devolve o nosso lugar, dá sentido ao nosso sentir e dá uma causa ao verdadeiro amor. Este é um abrigo pelo qual vale a pena lutar, o lugar que nos acolhe por sermos apenas nós, o único lugar onde temos a paz de sentir o passo alheio genuíno. Não há forma de ficar à espera que outro alguém dê todo o seu melhor, enquanto ficamos na penumbra à espreita para decidir e avaliar se tal pessoa é digna do nosso melhor. Há que arregaçar mangas e tentar, e isso pode custar…uma decepção, uma desilusão, mais sofrimento, e atirar-nos de vez para o lugar dos descrentes! Ainda assim, e mesmo assim, o amor não perderá a sua força natural, apenas porque nós deixámos de acreditar. Existe, é palpável e real, para quem por ele souber abdicar das suas razões e argumentos.

Photos by Luís Brites


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